![]() O Jogo da Alma
Original:El Juego del Alma Ano:2025•País:Espanha Autor:Javier Castillo•Editora: Suma |
Nos Estados Unidos – e no mundo -, centenas de milhares de casos de violência sexual são registrados todos os anos, sendo cerca de 43% de meninas que sequer atingiram a maioridade. Em sua maioria, os abusadores são pessoas próximas ou conhecidas da vítima, de alguma figura de autoridade ou até mesmo colegas. Estima-se que cerca de uma a cada cinco mulheres sofreu algum tipo de violência sexual ao longo da vida, e muito provavelmente esse número é ainda maior, já que muitos casos sequer são relatados às autoridades e ficam soterrados pelo medo e culpa. É nesse terreno desconfortavelmente real que Javier Castillo constrói a trama de O Jogo da Alma, um thriller que não apenas parte de um mistério, mas cutuca feridas que nunca foram curadas.
Após o sucesso de Miren em solucionar o intrigante caso de Kiera Templeton em A Garota de Neve, a jornalista é conhecida por onde passa graças ao livro que escreveu. Sessão de autógrafos e coletivas de imprensa são a nova realidade de Miren Triggs, até que um dia uma foto dá início a um pesadelo. Durante uma de suas sessões, alguém deixa um misterioso envelope com a frase “Quer brincar?”. Dentro, a fotografia de uma adolescente amordaçada, alegando ser o registro de Gina Pebbles, uma jovem desaparecida muitos anos antes. Na época, Miren cobriu o caso que jamais foi solucionado, e esse é o gatilho para abandonar a vida dos holofotes e voltar à ativa.
Paralelamente, um assassinato brutal acontece. O corpo de uma jovem desaparecida há dias é encontrado, mas de um jeito que choca até o mais experiente dos investigadores: ela foi crucificada, em uma cena que mistura violência extrema e simbolismo religioso. O assassino não queria apenas matar, queria passar uma mensagem. Enquanto procura por Gina, os destinos de Miren e antigos conhecidos se entrelaçam, e ela descobre que os dois casos possuem uma conexão macabra que poderá ser fatal para todos os envolvidos.
Apesar de ser o segundo livro de Castillo com Miren como protagonista e O Jogo da Alma começar logo após a resolução dos eventos de A Garota de Neve, é possível ler o livro de forma independente (mas recomendo fortemente a leitura do excelente thriller anterior). Aqui, temos a mesma estrutura narrativa anterior, com capítulos curtos, intercalados por diferentes pontos de vista e múltiplas linhas temporais. Entretanto, isso não funciona de forma tão fluida como anteriormente, sendo até mesmo caótica em alguns momentos pelo tanto de informações que são jogadas a cada virada de página. Assim como Miren, nos sentimos perdidos. E isso é feito de forma proposital pelo autor, fazendo com que a obra seja adorada ou odiada por esse fato. A revelação final também não é tão impactante, com o suspeito sendo deveras óbvio muitas páginas antes do desfecho, mas as histórias de Castillo raramente são sobre “quem”, e sim sobre “como” e “por quê”. E essas respostas sim são mais surpreendentes.
A evolução de Miren também é notável. Agora, temos uma personagem muito mais experiente e calejada, que mostra seus medos e traumas de forma mais intensa, aprofundando sua psique e expondo o quanto ela é quebrada por conta disso. Muitas vezes, sua obsessão faz com que a personagem tenha atitudes exageradas, mas não exatamente inverossímeis. É importante – mas não necessário – a leitura da obra anterior para perceber e entender melhor essas nuances, seu jeito de lidar com os casos e qual foi o gatilho que fez uma Miren mais selvagem despertar.
Como o título sugere, há um jogo acontecendo, e Miren é uma das peças e precisa seguir regras. Entre gangues mascaradas, testes obscuros, símbolos e fanatismo religioso, a jornalista precisa descobrir qual a conexão entre os casos e a estranha escola religiosa local e o que o assassino quer. Tudo isso enquanto enfrenta os próprios demônios do passado, de uma época que foi violentada e os culpados nunca pagaram por isso.
Nota-se que o autor se inspirou em grandes clássicos como O Silêncio dos Inocentes para compor a narrativa, com toda a descrição da cena do crime da garota crucificada sendo muito semelhante ao modus operandi de Buffalo Bill, com a violência assumindo um caráter quase ritualístico. Mas Castillo vai além do choque de cenas gráficas, trabalhando de forma intensa traumas e suas consequências.
Com uma escrita envolvente, onde sempre há um gancho no final de cada capítulo que fisga o leitor, até mesmo o desconforto gerado por algumas situações vira curiosidade, entretanto, em certo ponto, tudo começa a parecer conveniente demais, perdendo o elemento de realismo que fez o livro anterior ser tão brilhante. De qualquer modo, é eficaz em nos fazer questionar até onde um grande trauma pode motivar intenções obscuras em busca de alívio e justiça.
Inclusive, enquanto A Garota de Neve é um thriller investigativo de ótima qualidade, O Jogo da Alma aposta em um lado mais sombrio, pendendo para um horror psicológico que definitivamente não é recomendado para leitores mais sensíveis, em especial os que possuem gatilhos com abuso sexual e violência.
Infelizmente desaparecimentos e mulheres sendo violentadas não são algo exclusivo da ficção, com a realidade sendo muitas vezes pior. Na vida real não há uma Miren Triggs buscando incansavelmente justiça pelas vítimas, muitas vezes não há uma resolução ou um fim satisfatório. E isso é mais assustador do que qualquer história.



