Dissecando o Medo #11: Invadindo as Backrooms nas creepypastas e no cinema!

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“Existe uma quinta dimensão além daquela que é conhecida pelo homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão atemporal quanto o infinito. É o meio-termo entre luz e sombra, entre ciência e superstição, e está entre o poço dos medos do homem e o auge de seu conhecimento.”

A abertura da primeira temporada da clássica série Além da Imaginação (1959-1964) parecia já anunciar o que poderiam ser as tais “backrooms“, embora o conceito de dimensões paralelas já tenha sido debatido desde o século VI a.C com pensadores gregos como Anaximandro e Demócrito. Na evolução do pensamento, matemáticos do século XIX e início do XX teorizavam espaços multidimensionais, ambientes que misturavam espaço e tempo (quarta dimensão) e alguns que se entrelaçavam no que a ficção chamou de realidades alternativas. As Backrooms nascem da associação de um universo paralelo com os espaços liminares.

Foto que deu origem as backrooms

Oriundo do latim limen, que significa “limiar” ou “fronteira“, esses espaços são ambientes de transição como corredores e saguões, e transmitem uma ideia de vastidão e abandono. Passou a ter força na internet quando usuários de fóruns e sites começaram a divulgar fotografias de lugares vistos como estranhos e assustadores. Em 2019, uma pessoa anônima postou no 4chan uma foto da gênese das backrooms, uma espécie de loja de departamentos em processo de mudança, chamando a atenção pelas cores amarelas das paredes e tetos e sugerindo que outros usuários também apontassem outras fotos assustadoras. Em 13 de maio, uma das respostas veio com uma descrição da imagem postada e a primeira menção ao termo:

“Se você não tomar cuidado e não sair da realidade nas áreas erradas, vai acabar nos Backrooms, onde não passa do cheiro de carpete velho e úmido, a loucura do mono-amarelo, o ruído de fundo interminável das luzes fluorescentes no máximo zumbido, e aproximadamente seiscentos milhões de milhas quadradas de salas vazias segmentadas aleatoriamente para deixá-lo preso. Deus te salve se ouvir algo vagando por perto, porque com certeza esse algo ouviu você.”

A ideia serviu de combustível para que diversos internautas começassem a trazer teorias sobre o que seriam as backrooms, e o lugar macabro passasse a figurar como uma aterrorizante creepypasta, com postagens derivadas e a ampliação do conceito – algo como ainda acontece por aqui com o SeteAlém, descoberto por Luciano Milici. As backrooms se expandiram, alcançaram plataformas e redes sociais, viraram fanfics, contos de horror, inspiraram séries como Severance (2022) e curtas-metragens.

Em 2024, um usuário do twitter (o atual X) anunciou que havia descoberto a origem da foto original, usando o site Wayback Machine: ela foi tirada durante a reforma de “uma antiga loja de móveis com muitas divisórias e paredes internas falsas” em Wisconsin, datando de 2003. De acordo com relatos na internet, durante boa parte do século passado a Rohner’s Home Furnishings ocupava as ruas Oregon 807 e 811, em Oshkosh, Wisconsin. Em 2003, o número 807 da Oregon Street foi adquirido por um novo inquilino, uma filial da rede americana de lojas de HobbyTown. A foto teria sido oficialmente tirada em 2002, durante as reformas do segundo andar do estabelecimento.

De todo modo, as Backrooms já haviam sido alojadas no imaginário popular. Houve quem comparasse com a cidade fictícia R’lyeh, criação de H.P. Lovecraft, ou utilizassem ferramentas do Google Earth para mostrar possíveis pontos de entrada para esse ambiente desolado e assustador. Em 2022, Kane Parsons, com apenas 16 anos, publicou no youtube um curta-metragem de 9 minutos ao estilo found footage, que teria sido gravado em meados dos anos 90. Intitulado The Backrooms, nele um rapaz estaria filmando um colega quando acidentalmente era tragado para as salas amarelas, tendo que encontrar uma saída ou um encontro com uma criatura que poderia ter fugido de Hardware (1990). Realizado com programas como Blender e Adobe After Effects, o curta foi bem recebido, atraindo elogios e exibições em festivais, estimulando Parsons na realização de uma websérie, ampliando o conceito com a apresentação da Async, uma organização que teria aberto um portal para as Backrooms nos anos 1980 e conduziu pesquisas nele.

Ameaça no curta-metragem de Kane Parsons

Não precisava. O curta se mostrava aterrorizante exatamente por não trazer explicações, por se concentrar em uma espécie de escape room macabro, envolvendo uma dimensão alternativa e incômoda. Contudo, as salas amarelas continuaram se expandindo para referências em jogos e séries. Inspirou os jogos The Backrooms, Enter the Backrooms, Noclippped e The Backrooms Project, além do elogiado multiplayer Escape the Backrooms, da Fancy Games. A A24 também enxergou um imenso potencial na estrutura e desenvolveu o longa-metragem Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, 2026), com produção de James Wan, Michael Clear de Atomic Monster, Shawn Levy, Dan Cohen e Dan Levine, tendo o próprio Kane Parsons no comando.

Jogo Escape the Backrooms

Com roteiro de Parsons e Will Soodik, o longa tem início ao estilo found footage, mostrando, em 1990, cientistas do Instituto de Pesquisa Assíncrona assistindo imagens recuperadas da expedição de Naren Warne (Avan Jogia) às Backrooms, um espaço extradimensional, quando se perdeu da equipe e foi perseguido por algo sinistro. É então apresentado o dono de uma loja de móveis, Clark (Chiwetel Ejiofor), que, abalado por um recente divórcio, entregou-se ao alcoolismo e agora faz terapia com a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), com seus próprios traumas envolvendo a mãe esquizofrênica e a demolição de sua antiga casa de infância.

Com dificuldades em atrair clientes, Clark ainda sofre com problemas elétricos, pela conta alta e luzes que piscam em determinados lugares. Com a ajuda de um eletricista (Philip Granger), ele descobre disjuntores invertidos e não conectados à loja, além de notar uma estranha luz, oriunda de uma fenda na parede. Ao se aproximar e tentar encostar na parede, ele adentra um ambiente imenso, como se fosse a extensão de sua loja, com móveis agrupados ou deformados na estrutura, corredores vastos, passagens estreitas, portas e mais portas e sons estranhos.

Voltei várias vezes e não arranhei nem a superfície“, ele conta para a terapeuta, que interpreta como um delírio, e depois pede ajuda de sua assistente Kat (Lukita Maxwell) e o namorado Bobby (Finn Bennett), que o apoia na gravação dos comerciais, para registrar o local e acessar uma entrada subterrânea. Mary também terá a oportunidade de conhecer as backrooms, em busca de explicações e respostas. E são estas tentativas de dar profundidade ao conceito que fazem com que Backrooms perca sua força narrativa. É claro que o longa precisaria trazer algo além do que foi visto na websérie, mas, enquanto se tratava de um ambiente aterrador e inexplicável, deixando os personagens com a sensação de que não deviam estar ali, Backrooms funcionava bem.

O terceiro ato comete o mesmo erro de Hell House LLC II: The Abaddon Hotel (2018), de Stephen Cognetti. Como comentei nessa análise, o enredo assustador se perde a partir de uma cena que chamo sempre que vejo em um filme de “o jantar de O Massacre da Serra Elétrica“: a partir dali, o filme se perde na criação de um “vilão humano“, ainda que envolto em horror psicológico. Desperdiça a participação de Mark Duplass (dos filmes Creep e da série The Creep Tapes) e faz uso de efeitos digitais para apresentar seu monstro, bem mais assustador quando era visto apenas nas sombras e de relance.

Dificilmente Backrooms ficará com apenas essa última impressão. Kane Parsons deve continuar expandindo o universo, talvez numa série proposta em alguma plataforma ou continuações do longa. E talvez você se depare com as salas amarelas por aí, quando estiver perdido ou atravessar passagens erradas. Se por acaso isso acontecer, saiba que aquilo que está produzindo sons estranhos já ouviu você.

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