![]() Scurry
Original:Scurry
Ano:2024•País:Austrália Direção:Luke Sparke Roteiro:Tom Evans Produção:Carmel Imrie, Carly Sparke Elenco:Jamie Costa, Emalia, Peter O'Hanlon, Jet Tranter |
O recurso conhecido como “tomada única“, do inglês “single-shot“, é aquele em que o filme tenta transmitir a ideia de que as ações estão acontecendo em tempo real. Há diversos exemplares que fazem uso da ferramenta para promover algumas cenas específicas (como em A Fogueira das Vaidades, 1990) ou a utilizam durante toda a produção (Festim Diabólico, 1948) para promover um tom de cinema verité e aproximar o espectador da narrativa. Com o tempo, um recurso que devia ser utilizado de forma a servir ao roteiro passou a aparecer em diversos filmes e séries, sem que tenha uma razão que não seja a da auto-promoção dos envolvidos; em outras palavras, o uso é apenas para críticos de cinema e especialistas em roteiro verem o quanto o diretor é capaz de ir além das filmagens tradicionais. Um exemplo disso pode ser visto no horror Scurry, de 2024, dirigido por Luke Sparke (de Primitive War e O Demônio à Espreita).
Uma série de terremotos afetam a cidade (país, mundo?) despertando um exército de criaturas, similares a aranhas com ferrões, provavelmente oriundas do solo. As ações acompanham o ex-alcoolatra Mark (Jamie Costa), que acorda em um buraco na rua, sendo obrigado a se desvencilhar das pedras que prendem sua perna a tempo de escapar da queda de um veículo. Com um grave ferimento no abdômen, ele usa um isqueiro para andar pelas cavernas escuras e túneis estreitos para buscar uma outra saída, encontrando no caminho a também ferida Kate (Emalia). Ambos partem nessa jornada claustrofóbica, evitando que os sons atraiam exemplares dos monstrinhos, enquanto procuram um acesso à superfície.
Basicamente esse é a base narrativa do roteiro de Tom Evans. O espectador acompanha a luta pela sobrevivencia da dupla, sem muita emoção, sem nenhum suspense. Eles andam lentamente, encontram uma lanterna e usam uma câmera para enxergar no escuro, e há os atritos entre eles: Kate se mostra a todo momento desconfiada, usando sua arma para manter distância de Mark e também para pedir que ele busque seus medicamentos, evidenciando sinais de tuberculose em estado avançado. É difícil criar qualquer empatia com a moça, até mesmo naquele momento tedioso em que ambos apresentam um contexto além do já mostrado: Mark enfrentou um incêndio em sua moradia e se afastou das bebidas, e parece estar em processo de separação. Já Kate nem sequer há muita profundidade, parecendo um delírio de Mark (teria sido melhor se fosse essa a ideia).
O tal recurso “single-shot” não serve a absolutamente nada. A câmera fica indo pra frente e para trás, às vezes não mostrando exatamente o que precisa ser visto, e o “tempo real“, que o diretor faz questão de mostrar no horário do celular de Mark, não faz a menor diferença. Os efeitos já haviam deixado a desejar na visão de uma queda de helicóptero e até do veículo, o que dizer então das criaturas? Quase nunca vistas, a escuridão da caverna não esconde seus aspectos digitais. Mas parece que a intenção de Sparke nem é mostrar um mundo em processo apocalíptico, mas explorar a convivência melodramática dos dois sobreviventes.
Também há grande prejuízo no ritmo. Como só há dois personagens praticamente em cena, a impressão que passa é que eles não saem do lugar. E mesmo fazendo barulhos pela conversa ou utilizando lanternas que poderiam atrair as criaturas, em todo o filme ele só são ameaçados por dois exemplares. A cena que deveria ser a mais interessante, envolvendo a briga de Mark com um dos monstros, apontado pela moça como altamente resistente, é toda offscreen: como ele conseguiu se livrar dos ferrões da criatura com apenas uma faquinha? E por que o rapaz teve uma ideia tão idiota e arriscada no último ato, se bastava empurrar o corpo para trás?
Se não fosse tão chato e arrastado (desculpe o trocadilho) e tivesse um roteiro um pouco mais interessante, Scurry se sairia melhor. É apenas um trato independente que faz uso de um recurso de tempo real, mas que na verdade apenas transmite uma ideia de perda de tempo, não chegando a lugar algum.





