![]() Virtuosas
Original:Virtuosas
Ano:2025•País:Brasil Direção:Cíntia Domit Bittar Roteiro:Cíntia Domit Bittar, Fernanda De Capua Produção:Cíntia Domit Bittar, Ana Paula Mendes Elenco:Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta, Brisa Marques, Gabriel Godoy |
Três mulheres (Maria Galant, Juliana Lourenção e Sarah Motta) são sorteadas (ou quase isso) para um retiro cristão liderado por uma influente líder (Bruna Linzmeyer). Conforme fica claro que algumas VIPs são mais VIPs do que outras por ali, as mentiras e os planos secretos que todas carregam vão conduzindo a um perigoso ponto sem retorno.
Virtuosas (2025), primeiro longa-metragem de ficção da diretora e roteirista Cíntia Domit Bittar, foca em um grupo de mulheres que, ao menos durante o prazo de validade de um meme, um dia já foram descritas como “belas, recatadas e do lar”: seguidoras de um suposto código moral cristão confeccionado especialmente para o sexo feminino, no qual a submissão ao patriarcado é uma regra indiscutível e acatada de muito bom grado. Mas é claro que, assim como na vida real, na ficção as coisas são bem diferentes daquilo que aparentam.
Virtuosas se insere em uma tendência interessante e emergente no cinema de gênero brasileiro, algo que poderíamos chamar de “cristianismo distópico”, unindo-se a longas como Divino Amor (2019), Medusa (2021) e Raquel 1:1 (2022). São obras que, por meio da chave do terror e da ficção científica, entregam-nos um assustador exercício de imaginação sobre os extremos a que a doutrina cristã pode ser capaz de chegar. Infelizmente, como a história do cinema já provou inúmeras vezes, esses gêneros possuem o péssimo hábito de acertar suas mais pessimistas previsões.
Falando em Medusa, Bruna Linzmeyer interpreta no longa de Anita Rocha da Silveira uma personagem diametralmente oposta à sua Vírginia de Virtuosas. E, justamente pelo talento e pela versatilidade da atriz, é uma pena que sua performance seja um dos pontos negativos do filme de Bittar. Linzmeyer confere a Vírginia uma constante arrogância, o que a faz parecer mais uma diretora de colégio tirânica do que uma carismática líder religiosa – e sabemos o quanto esse ramo é pródigo em pessoas que, para o bem ou para o mal, transbordam simpatia, sendo isso quase um pré-requisito para o sucesso. Por conta de tal escolha dramática, é como se um letreiro de LED piscasse durante o filme todo sobre a cabeça de Virgínia indicando que ela é uma farsante manipuladora.
Isso constitui parte de um problema maior que aflige Virtuosas: a dificuldade na construção da tensão. Tendo como motor principal a subtrama de Lorena, vivida por Juliana Lourenção, que a certa altura passa a acreditar que uma bruxa está ameaçando seu bebê (em um bom comentário sobre a intolerância a outros tipos de crença), a escalada de suspense e medo não convence. Lorena salta da insegurança à histeria de uma cena para outra. Parecem faltar alguns beats no desenvolvimento do conflito, e eles realmente fazem falta. Não ajuda que tudo dentro do espaço restrito onde se desenrola a trama aconteça às claras, com personagens que têm muito a esconder não demonstrando a mínima preocupação em ocultar suas ações.
Apesar disso, o clímax do filme é forte e causa certo impacto, e é onde o terror entra pra valer. Poderia ser ainda melhor se o caminho até ali houvesse sido pavimentado com maior consistência.
Entre altos e baixos, Virtuosas vale a pena ser visto por ser uma obra de gênero brasileira que trata de temas importantes e muito atuais, como o fanatismo religioso e a hipocrisia intrinsecamente atrelada a ele, o papel da mulher dentro de um sistema de crenças, a relação incestuosa entre fé e poder político e até mesmo a visão obscurantista quanto a vacinas.





