Nem todo “criador de conteúdo” merece a sua atenção, ainda mais quando o material apresentado se mostra apenas convencional e genérico. Da mesma forma, é possível pensar sobre o horror mexicano Não Me Siga (No Me Sigas, 2025), que já vem com uma curiosidade que não serve a um propósito que não seja diminuir a qualidade do que será visto: trata-se do primeiro filme de horror da Blumhouse feito fora dos EUA. Se você já via a produtora de Jason Blum como uma manufatura de filmes pouco inspirados, agora essa carência já está além do mercado americano, com a sugestão de que novos produtos hablados en español podem despontar nas plataformas de streaming e até mesmo nos cinemas.
No entanto, não me entendam mal: Não Me Siga não é um filme ruim, daqueles mal realizados e irritantes. Ele é apenas mais um na prateleira do gênero. Pode ser que você sinta alguns calafrios, escolha um dos lados da rivalidade dos influencers e até se preocupe com o destino de um cãozinho, mas terminará com uma sensação deja vu, como se tivesse vendo novamente o mesmo filme, mas lançado com outro título, outro elenco e uma nova ambientação assombrada. Quantos longas você já viu sobre influencers produzindo vídeos para um canal, tentando provocar falsos fantasmas em prol dos cliques e curtidas, e tendo problemas “reais” com isso?
A boa sacada do longa de Eduardo Lecuona e Ximena García Lecuona é tentar enganar o próprio infernauta. E é o que acontece em muitos canais por aí, quando os sustos falsos criam confusões em que está assistindo ao ponto de acreditar de maneira absolutamente religiosa no que está vendo. Lembro de um conhecido, que tem vários seguidores por aí, que assiste poucos filmes de horror, conhece quase nada do gênero, mas tem a prática oportunista de “criar fantasmas“, fazer bonecas mudarem de lugar e até derrubar quadros e piscar as luzes. Uma vez ele me disse que uma pessoa flagrou uma linha que ele utilizou para movimentar um objeto inanimado e até printou a tela, ameaçando divulgar para todo mundo que o tal influencer era um canalha. Quando ele desdenhou da ameaça e optou por contar ao público que realmente havia forjado sustos, houve quem mesmo assim achasse que ele estaria inventando que forjou, simplesmente para que o canal continue sendo alimentado pela falsidade que o espectador optou por acreditar! Tracem paralelos com igrejas que pedem dízimo para reservar lugar no Céu e os crentes que, ainda que fotos e até vídeos comprovem sua ação suspeita, optam por entregar seus salários aos salafrários!
A culpa dessas convenções não é de Carla (Karla Coronado). Ela está residindo em um prédio abandonado que tem um passado trágico, tem fascínio pelo paranormal mas não tanto quanto aspira se tornar uma grande influencer. Se a própria ambientação já é passível de instigar a imaginação de seu público, ela pede ajuda a amiga Sam (Julia Maqueo), também criadora de conteúdo, para entrar em contato com entidades perdidas, enquanto registra tudo em vídeo. Durante a provocação, o cabelo dela é puxado para cima, evidenciando o que poderia ser uma presença sobrenatural disposta a atormentá-la. A relação estranha com um tal Andres (Yankel Stevan) cria atritos com a amiga, que posteriormente revela suas mentiras em vídeo, convencendo até mesmo o infernauta que havia acreditado naquilo.
E esse jogo entre o real e o falso o responsável pelos méritos do roteiro de Lecuona, trazendo questionamentos sobre outras situações estranhas, envolvendo até mesmo o desaparecimento de seu cãozinho. Como Carla também acha válido contribuir ao subgênero found footage gravando tudo o que está vendo — só para constar, o trabalho de direção é híbrido, alternando câmeras convencionais com as produzidas por Carla —, o público fica com um pé atrás sobre os fenômenos testemunhados pela garota. Será que ela não está tentando enganar seu público e o espectador novamente? À exceção dos que preferem ser enganados a encarar a verdade, claro.
Disponível no Prime, sem muito alarde (você esqueceu de ativar o sininho!), Não Me Siga é um horror com poucos personagens e ambiente único, e que pode provocar algumas boas reflexões. Não traz nenhuma novidade ao gênero, seja com fantasmas flagrados em vídeos ou o envolvimento de um ritual que vai além de entidades despertas, porém pode lhe atrair da mesma forma que você se vê perdendo tempo assistindo pessoas falando sobre lugares assombrados, dimensões paralelas e bonecas vivas. No quesito “produção de conteúdo” é mais do mesmo.



