![]() Wendigo
Original:Wendigo
Ano:2001•País:EUA Direção:Larry Fessenden Roteiro:Larry Fessenden Produção:Jeffrey Kusama-Hinte Elenco:Patricia Clarkson, Jake Weber, Erik Per Sullivan, John Speredakos, Christopher Wynkoop, Lloyd Oxendine, Brian Delate, Richard Stratton, James Godwin, Joseph C. Felece, Jack Fessenden |
Para entender a mitologia do filme envolvendo a criatura do título, é preciso conhecer a pessoa por trás dele. Não é possível definir exatamente o papel principal de Larry Fessenden no cinema: é ator, roteirista (de cinema e videogames), produtor (fundador da Glass Eye Pix), editor, fotografista, diretor, tendo sempre os dois pés no cinema independente. Ainda que tenha participações em filmes mais bem conceituados (Assassinos da Lua das Flores, Somos o Que Somos, Southbound, Bom Menino, MaXXXine…), você o encontra no IMDB associado a tudo: curtas-metragens obscuros, bagaceiras como Automatons (2006), Hypothermia (2010) e Satan Hates You (2010) e até na composição da trilha sonora – para quem não sabe, a sua banda, Just Desserts, já tem três álbuns! Basicamente, é impossível que você, fã do cinema fantástico e de horror, não tenha visto algo em que ele esteja envolvido. E, em meio a tudo isso, tem Wendigo.
Em 2015, Fessenden lançou o livro “Sudden Storm: A Wendigo Reader“, composto por dezessete ensaios acadêmicos, entrevistas, histórias e trechos de roteiros de diversos escritores, a respeito da criatura conhecida como Wendigo. Na própria apresentação da obra, ele explica que teve o “primeiro contato” com ela na juventude e o quanto ficou absurdamente aterrorizado e fascinado pela mitologia que a envolve.”Quando eu estava na segunda série, um professor nos contava histórias e descrevia uma criatura cervo correndo pela floresta gritando ‘Wendigo!’“. A obra é uma versão “Medo de Palhaço” sobre o tema, trazendo até relatos de experiências com o monstro e a associação com a literatura e o cinema. Não li a obra – essas informações todas são de pesquisa -, mas deve ser interessante principalmente o capítulo “Myth and Media Consumed“, em que Alison Natasia analisa o “Arquétipo do Wendigo” em Cannibal Holocaust (1980), de Ruggero Deodato, pelo fator do canibalismo, claro; além de uma conexão estabelecida até com O Iluminado, de Stephen King, mostrando que Jack Torrance teria sido possuído pela entidade, em um paralelo entre a bebida e a fome por carne humana.
A obsessão de Fessenden o fez lançar em 2001 o longa Wendigo, e voltar à temática, indiretamente, em Colapso no Ártico (The Last Winter, 2006), no episódio da série Fear Itself, Skin and Bones (2008), e na escrita do famoso jogo Until Dawn (2015). Para entender a força da criatura, no livro, Fessender diz: “É uma lenda Ojibway que propõe que, se você estiver na natureza selvagem e sucumbir ao canibalismo, então absorverá o espírito do Wendigo e se tornará uma criatura voraz e faminta que continuará crescendo, e sua fome nunca será saciada“. Ele acredita que a lenda nasceu como uma forma de combater o canibalismo. “O interessante é que, ao contrário do lobisomem, do vampiro ou do monstro Frankenstein, ela realmente é uma criatura elusiva. É retratada — o que acho tão encantador — como um anão, ou como um gigante, ou como um monstro-cervo, que é como eu meio que agarrei a isso.”
Assim, nota-se que o Wendigo dialoga com a obsessão e parece se sentir mais à vontade na natureza. O filme de 2001 mostra bem o modo como Fessenden “enxerga” o monstro em uma perspectiva simbólica e bastante psicológica. Produzido pela Antidote Films e Glass Eye Pix, e distribuído pela Magnolia Pictures, o longa começa com o clichê da viagem em família para fugir do estresse da cidade grande: o fotógrafo profissional George (Jake Weber, de Madrugada dos Mortos, 2004) parte para o interior de Nova York em um inverno congelante com a esposa Kim (Patricia Clarkson, de A Espera de Um Milagre, 1999) e o filho Miles (Erik Per Sullivan, o Dewey da série Malcolm, 2000-2006).
Eles acidentalmente atropelam um cervo, deixando o carro preso à neve, enquanto o animal agoniza na estrada. Um grupo de caçadores, destacando-se o desagradável Otis (John Speredakos), surge repentinamente, demonstrando irritação pelo fato do veículo ter atrapalhado a caça de um animal que seguiam há bastante tempo. Com a ajuda deles para desencalhar o carro, eles partem para a cabana, ainda sem imaginar que aquela é a apenas ponta do iceberg. Com vestígios de disparos de arma na casa e descobrindo que Otis é um vizinho, aos poucos George percebe uma presença ameaçadora na paz da família. Numa loja na cidade, Miles conhece um nativo americano que ninguém vê e fica sabendo da mitologia do Wendigo, uma criatura do folclore que seria um homem transformado em besta, depois da prática do canibalismo. Presenteado com uma estátua de Wendigo, Miles começa a achar que a criatura ronda a cabana onde estão, sendo assombrado por pesadelos e visões estranhas até finalmente conhecê-lo depois de uma aventura na neve com o pai.
Fessenden dirige Wendigo como uma visão onírica do tema. Sem recursos técnicos, o monstro é visto em imagens trêmulas, fotografia distorcida, enquanto explora as consequências de sua presença. Não é um típico filme de monstro, mas um que permite que os personagens sintam sua presença constante. Pode ser que a narrativa “slow burn“, cadenciada, e o estilo terror psicológico não agrade o infernauta que esteja em busca de algo não tão metafórico e reflexivo. Dave Kehr, do The New York Times, disse numa análise da época: “Essas noções abstratas podem afastar os fãs do gênero em sua forma mais elementar, de fatiar e cortar e picar. Mas para quem busca algo diferente, Wendigo é uma história genuinamente arrepiante“.
Dentro desse pensamento, é importante mesmo saber mais sobre o diretor e roteirista envolvido. Quem não conhece trabalhos anteriores do cineasta, sua travessia pelas linhas entre o psicológico e o sobrenatural, poderia se confundir pela proposta. Wendigo é claramente um filme feito com orçamento curto, um trabalho quase independente de Fessenden, e que promove o conceito de maneira indireta mas bastante ousada e incômoda. É o seu primeiro exercício sobre o tema, um ensaio visual que vale a pena conhecer, desde que você saiba o que irá digerir.






