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Cara-de-Barro
Original:Clayface
Ano:2026•País:UK, EUA
Direção:James Watkins
Roteiro:Hossein Amini, Mike Flanagan
Produção:Lynn Harris, Matt Reeves, James Gunn, Peter Safran
Elenco:Tom Rhys Harries, Ruby Sear, Naomi Ackie, Eddie Marsan, Max Minghella, Daniel Betts, Nancy Carroll, Sam Hazeldine, Sonita Henry, David Dencik, Wil Coban, Francesca Corney, Tanya Moodie, Joana Ribeiro

No auge da fama como ator de cinema, Matt Hagen (Tom Rhys Harries) envolve-se com Mia (Joana Ribeiro), namorada de Markos Szabo (David Dencik), um poderoso gângster de Gotham City. Após ser desfigurado pelo criminoso, ele busca a terapia experimental da Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie). Hagen recupera sua antiga aparência, mas, em um efeito colateral, desenvolve a estranha habilidade de moldar seu rosto e seu corpo na forma que desejar.

Desde que surgiu, o novo universo cinematográfico e televisivo da DC Comics, encabeçado por James Gunn e Peter Safran, tem mandado sinais meio confusos para o público. Ele se iniciou com Comando das Criaturas (Creature Commandos, 2024-), uma série animada de equipe que é mais do mesmo do que Gunn já havia feito na Marvel em Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014 – 2023) e na própria DC em O Esquadrão Suicida (The Suicide Squad, 2021) (que parece ao mesmo tempo fazer e não fazer parte desse novo universo). Depois, veio Superman (2025), abraçando lindamente os aspectos mais clássicos do Homem de Aço enquanto carrega a linguagem moderna característica do cineasta. Em seguida, a segunda temporada de Pacificador (Peacemaker, 2022 – 2025) usa de retcons para inserir seus personagens de vez no novo universo. Supergirl (2026), embora divertido, bebe demais do estilo de Gunn e termina um tanto sem identidade. E, enquanto Superman incorpora o espírito das histórias de super-heróis com muito orgulho, a série Lanternas (Lanterns, 2026 -) revela uma vergonha absurda de ser parte desse gênero, tentando o tempo todo soar adultinha. Por fim, temos Cara-de-Barro (Clayface, 2026), que, de acordo com os envolvidos, é uma incursão pelo terror.

Matt Hagen, o segundo Cara-de-Barro dos quadrinhos, foi criado por Bill Finger e Sheldon Moldoff em 1961 para ser um vilão do Batman. Agora, ele estrela um filme solo em um universo que ainda nem apresentou o seu Batman. A não ser que esse Cara-de-Barro faça parte do universo do Batman do Matt Reeves (The Batman, 2022), que, por sua vez, tem sua sequência prevista para ser lançada no ano que vem, e que provavelmente não terá qualquer conexão com o universo de James Gunn, e… enfim, deu pra sentir o tamanho da confusão, né?

E taí uma coisa que o filme em questão não é: complicado. Na verdade, um dos seus defeitos é ser arroz com feijão demais. James Watkins, que dirigiu o bom remake Não Fale o Mal (Speak No Evil, 2024), parece possuir o mesmo poder do Cara-de-Barro, o de imitar outras pessoas até o ponto de não saber mais qual é sua própria identidade (inclusive, existe aqui uma cena completamente chupada de A Substância (The Substance, 2024)). Ainda que haja algumas ideias interessantes na maneira como Hagen passa a usar seu corpo maleável, Watkins não confere ao filme a esquisitice estética que um pretenso body horror pede. Para ser sincero, os momentos mais impactantes se devem menos ao body horror e mais ao torture porn, como nas automutilações de Hagen diante do espelho.

Já na questão narrativa, talvez valha a pergunta: precisamos de um filme do Cara-de-Barro? Ou, ainda mais: precisamos de filmes solo de supervilões? Sempre que um desses é produzido, Hollywood utiliza um dos dois modelos a seguir: ou é um espetáculo de sofrência como Coringa (Joker, 2019) ou coloca-se o supervilão contra um inimigo ainda pior do que ele, como na franquia Venom (2018 – 2024), em Morbius (2022) e em Kraven, o Caçador (Kraven the Hunter, 2024). O fato é que esses personagens funcionam bem mesmo como contraponto a um personagem heroico, ou seja, como antagonistas, e não protagonistas.

E aí há outro ponto importante a ser considerado. Uma vez ouvi alguém dizer que se o Roberto Carlos tivesse começado sua carreira hoje, na era dos reality shows musicais como The Voice, ele nunca se tornaria o mito que se tornou. O público o acompanharia semana após semana levando esculacho de jurados, errando e aprendendo na frente de todo mundo. E ídolos só são realmente construídos por trás de certa aura de mistério. Com supervilões também é assim. Eu não quero assistir a cada pancada e humilhação que um inimigo do Batman ou do Homem-Aranha levou da vida. Ou vocês conseguem realmente acreditar que o Coringa do Joaquin Phoenix um dia enfrentaria o Batman de igual para igual como fez o Coringa do Heath Ledger, com sua origem altamente enigmática? Na boa: em vinte minutos da maravilhosa Batman: A Série Animada (Batman: The Animated Series, 1992 – 1995) ou em três páginas de uma HQ bacana as origens desses caras foram contadas de maneira muito mais eficaz e excitante do que nas duas horas de qualquer um dos longas mencionados. E olha que um dos roteiristas de Cara-de-Barro é Mike Flanagan, o que ajuda a mostrar que o problema é mesmo o conceito desse tipo de produção.

Cara-de-Barro não é o filme de terror que estão tentando vender, e sim mais um filme de supervilão transformado em anti-herói por não saberem o que fazer com ele. Até começa como um body horror, mas da metade para a frente vira mais um filme de ação. Não é nada que Darkman: Vingança sem Rosto (Darkman, 1990) já não tenha feito melhor.

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