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Leviticus
Original:Leviticus
Ano:2026•País:Austrália
Direção:Adrian Chiarella
Roteiro:Adrian Chiarella
Produção:Kristina Ceyton, Samantha Jennings, Hannah Ngo
Elenco:Tyallah Bullock, Stacy Clausen, Joe Bird, Ewen Leslie, Mia Wasikowska, Jeremy Blewitt, Davida McKenzie, Julia Grace, Hyu Motoki, Edwina Wren, Anna Mtungwazi, David Serafin, Nicholas Hope, Flynn Glazebrook

Um romance de horror queer contra a perseguição religiosa

Compreendendo profundamente o potencial político do cinema de gênero, o diretor Adrian Chiarella proporciona uma grata surpresa com Leviticus, sua estreia em longa-metragem. O título da obra, que faz uma alusão direta ao livro bíblico de Levítico, frequentemente utilizado por conservadores para endossar a homofobia, já estabelece a premissa de sua crítica: aqui, a entidade maligna e perseguidora evoca a figura do próprio deus cristão em sua faceta mais punitiva e excludente.

Acompanhamos o drama de dois adolescentes gays que vivem em uma conservadora cidade no interior europeu. Naim (Joe Bird) e Ryan (Stacy Clausen) vivem suas primeiras experiências queer juntos e passam a cultivar um crescente desejo um pelo outro. Mal vistos e excluídos pela comunidade cristã na qual vivem, são condenados a conviver e serem perseguidos por uma entidade violenta que assume a forma da pessoa que eles mais desejam.

Embora o filme carregue paralelos inegáveis com Corrente do Mal (It Follows, 2014), de David Robert Mitchell, e venha sendo rotulado como uma “versão gay” do clássico moderno, reduzi-lo a isso seria ignorar sua complexidade. A narrativa funde brilhantemente o drama de amadurecimento queer com o terror religioso, utilizando monstros, possessões e perseguições implacáveis para dissecar temas como a vergonha comunitária, a exclusão e a sobrevivência.

Chiarella faz a escolha acertada de focar no peso psicológico da maldição, transformando-a em uma alegoria visceral para a terapia de conversão, ou uma espécie de “cura gay”. Há uma angústia perturbadora na forma como a família dos protagonistas demonstram afeto. São frias e distantes, mas impõem a “normalidade” a qualquer custo, criando um monstro que se alimenta macabramente da solidão e do desejo reprimido. Arlene (Mia Wasikowska), mãe de Naim, é uma mulher solitária e extremamente conservadora, ela fecha os olhos aos apelos e pedidos de socorro de Naim e entrega o filho à um ritual religioso que promete a solução para sua transgressão, mas que desencadeia em uma perseguição maligna e mortal.

A mecânica do terror ganha contornos sádicos quando a ameaça assume o rosto da pessoa que a vítima mais ama. Essa dinâmica cria uma tensão excruciante, forçando os jovens a uma escolha impossível: afastar-se para sobreviver ou agarrar-se ao afeto. É nessa encruzilhada que o roteiro encontra força. A potência de Leviticus reside naquilo que resiste ao medo: o amor entre dois rapazes que se recusam a aceitar a violência como um destino inevitável.

Esse embate emocional é potencializado por atuações potentes, a química entre os dois rapazes é notória. A parte técnica é elegante, com um uso de câmera que evoca atmosferas sóbrias e frias, a fotografia que privilegia os tons dessaturados, acentuando o desalento e o aspecto pouco acolhedor  do local.

Apesar de seus méritos e da boa condução da história, a obra tem seus tropeços. Falta ao filme esculpir uma identidade visual totalmente própria, já que ele se apoia de forma excessiva na estética das obras que aparenta buscar inspiração. O roteiro também sofre um pouco com problemas de ritmo no segundo ato, tornando-se um tanto repetitivo sem conseguir avançar como antes. A sensação é a de uma montanha-russa que atinge um pico altíssimo, mas perde o fôlego em uma queda lenta. Além disso, a resolução da trama opta por um caminho excessivamente familiar, reciclando de forma quase literal o desfecho do longa de 2014, de Robert Mitchell.

Mesmo com ressalvas, Leviticus é um triunfo que dialoga com o melhor do horror queer contemporâneo. A verdadeira reviravolta de Chiarella é entregar um filme de gênero tenso e assustador que bate com um coração afetuoso e pé fincado no romance. É uma obra incisiva sobre confiança, sobre a necessidade de superar o pavor para amar e, acima de tudo, um manifesto poderoso e comovente sobre escolher ser quem se é, mesmo quando o mundo, ou a religião, parece querer te destruir.

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