
O cinema fantástico brasileiro chega ao Sitges Industry, na Espanha, com uma seleção que revela a diversidade e a força da produção de gênero realizada no país. Em outubro de 2026, a missão Brasil – Território Fantástico levará oito projetos de longas-metragens em desenvolvimento ao mercado do Sitges – Festival Internacional de Cinema Fantàstic de Catalunya.
Realizada no âmbito do Sitges Industry, a iniciativa é a primeira missão comercial brasileira dedicada ao cinema fantástico no evento e foi articulada e curada pela VDF Connection, com o objetivo de aproximar produtores brasileiros de profissionais da indústria catalã e europeia.
A seleção reúne projetos de diferentes regiões do Brasil e percorre gêneros e imaginários bastante distintos: horror, fantasia, ficção científica, thriller, suspense e narrativas híbridas. São histórias que utilizam o fantástico para falar de violência, memória, desigualdade, religião, poder, desejo, identidade e conflitos sociais.
Mais do que apresentar projetos em busca de parceiros internacionais, a missão pretende mostrar um cinema de gênero que encontra no Brasil matéria-prima para construir seus próprios universos.
Um Brasil que transforma seus próprios imaginários em fantástico
A relação entre o cinema fantástico e a cultura brasileira tem uma longa trajetória. De José Mojica Marins, o Zé do Caixão, a uma nova geração de realizadores, o horror e a fantasia vêm sendo utilizados para reinterpretar mitologias, religiosidades, paisagens, lendas populares, conflitos sociais e episódios da história brasileira.
Essa tradição também está presente no próprio Sitges, que ao longo dos anos recebeu obras brasileiras de destaque, como As Boas Maneiras, Bacurau, Propriedade e Enterre Seus Mortos.
É nesse contexto que os oito projetos selecionados chegam ao Industry.
Os oito projetos
BLATTA, de Dennison Ramalho, produzido pela IDÉ Productions, acompanha Victor, que chega à cidade de Curupira decidido a matar Samuel, um prefeito corrupto responsável pela prisão de seu irmão. O encontro com Elita, filha de Samuel, e a violência deixada para trás por Wlad transformam sua jornada em uma história de vingança, violência e redenção.
Em CARNIÇA, de Renata Pinheiro, produzido pela Lupa Filmes, uma mulher que teve o filho arrancado de si depois de sofrer nas mãos de um grupo de criminosos recorre a um pacto para buscar vingança — neste mundo ou no próximo.
EL SACRIFICIO DE HANSEL Y GRETEL, de Paulo M. Nascimento, produzido pela Accorde Filmes, parte do conhecido conto dos irmãos Grimm para construir uma releitura contemporânea e perturbadora. Aqui, a fome medieval dá lugar à fome por beleza, fama e dinheiro, enquanto um pai desesperado entrega os próprios filhos a um sistema que acaba por devorá-los.
O horror social aparece também em FAVELA DOS CONDENADOS, de Nícolas Lobato e Thiago Tuchu, produção da Mirage Mirror Produções e Larva Filmes. Ao investigar desaparecimentos no Morro do Rato Morto, no Rio de Janeiro, Martha, uma jovem policial negra, descobre uma seita escondida dentro de uma prestigiosa ONG e ligada às estruturas do Estado. Para enfrentar aquilo que encontrou, precisará voltar à fé que abandonou.
Em INFERNO ADENTRO, de Daniel Bandeira, produzido pela Símio Filmes e Yellow Bricks, um ex-policial aposentado e uma professora liberal precisam unir forças para resgatar uma menina sequestrada por fanáticos neopentecostais. Inspirado no Inferno, de Dante, o filme transporta a estrutura da obra clássica para um Brasil tomado pelo fundamentalismo religioso.
LAZARUS LANE, de Tiago Teixeira, produção da Asterion Filmes e Studio Domu, acompanha um homem atormentado que aceita ajudar uma mulher misteriosa a destruir seus próprios clones para recuperar seu corpo original. O que parecia uma missão específica rapidamente se transforma em uma trama de assassinatos, desejos e traições.
No slasher O TIRA-DENTES, de Paulo Biscaia Filho, produzido pela Vigor Mortis, um grupo de jovens invade um antigo necrotério universitário durante o feriado de Tiradentes e passa a ser perseguido por um assassino vestido como a figura histórica brasileira. O projeto combina horror, humor, história e sátira.
Já OS CANIBAIS, de Bárbara Cunha, produzido pela Coentro Produções, parte de uma história real para construir um conto de amor, violência e antropofagia. Um triângulo amoroso leva uma comunidade a se alimentar dos restos humanos deixados por seus próprios crimes.
Da criação ao mercado internacional
Antes de chegar a Sitges, os oito projetos passaram por um programa de preparação desenvolvido pela missão. As chamadas Training Sessions incluíram encontros voltados à preparação de pitch, revisão de materiais, estratégias para reuniões profissionais, coprodução, financiamento e inserção em mercados internacionais.
A proposta é preparar as equipes não apenas para apresentar seus filmes, mas para estabelecer conversas concretas com possíveis parceiros.
Durante o Sitges Industry, os representantes dos projetos participarão de uma apresentação em formato de pitch e de reuniões individuais com produtores e profissionais da indústria catalã e europeia.
Entre os objetivos estão a busca por coprodutores, agentes de vendas, distribuidores, fundos de financiamento e parceiros estratégicos para o desenvolvimento e a circulação internacional dos projetos.
A missão é coordenada por Mónica Trigo, gestora cultural, consultora internacional e curadora de festivais, e por Javier Fernández, programador e consultor especializado em cinema fantástico e mercados internacionais.
A VDF Connection, responsável pela curadoria e articulação internacional da missão, atua na internacionalização de projetos audiovisuais, conectando produtores e realizadores brasileiros a festivais, mercados, laboratórios e profissionais da indústria internacional.
Brasil – Território Fantástico chega a Sitges, portanto, não apenas para apresentar oito projetos, mas para colocar em circulação uma ideia: a de que o cinema fantástico brasileiro possui universos próprios, histórias particulares e uma identidade capaz de dialogar com o mercado internacional sem abrir mão de suas raízes.
