![]() Caterpillar
Original:Caterpillar
Ano:2010•País:Nova Zelândia Direção:Chelsie Preston Crayford Roteiro:Chelsie Preston Crayford Produção:Georgina Allison Conder, Andrew Marshall Elenco:Marta Dusseldorp, Lisa Harrow, Anais Shand, Kirimaia Noel, Matt Whelan, Matty Rockel, Tara Canton, Karl Pearce, Reeti Davies |
A guerra pode até acabar, mas algumas batalhas continuam dentro de casa. Em Caterpillar, a relação entre um marido violento e uma esposa obrigada a servi-lo se transforma em um jogo perturbador de poder, submissão e ressentimento, no qual assumir o controle não significa necessariamente conquistar a liberdade. Mais do que uma denúncia do militarismo, o filme incomoda ao mostrar como a violência se infiltra nas relações mais íntimas e como certas estruturas de opressão sobrevivem até mesmo à derrota de quem as representa.
Kôji Wakamatsu ficou conhecido dirigindo pinku eiga, o cinema erótico japonês, e depois passou a fazer filmes políticos bem polêmicos, e Caterpillar (2010) é um dos pontos mais radicais dessa virada. A história se passa em 1940, em plena guerra sino-japonesa, e mostra um tenente que volta para a vila tratado como herói condecorado, só que sem braços e sem pernas, enquanto a esposa fica com a obrigação de cuidar dele em nome do imperador e do país. No papel, o filme é uma denúncia do militarismo e do nacionalismo japonês, e essa leitura está certa, mas o que realmente segura a experiência é a relação entre dois corpos, um que perdeu qualquer capacidade de agir e outro que sempre foi treinado pra obedecer, e o que acontece com o poder entre eles quando a balança vira. É nesse terreno que o filme é muito bom, e a guerra, a propaganda e o patriotismo funcionam melhor como a pressão que molda o casal do que como o assunto principal.
O melhor do roteiro é a posição ambígua da esposa. O marido, o tenente Kyuzo Kurokawa, vivido por Shima Ohnishi, já abusava dela antes de ir para a guerra e, mesmo reduzido a um torso, continua exigindo comida e sexo como se nada tivesse mudado, então a violência do passado segue presente como um gatilho dentro dela, ainda que ele não tenha mais o corpo para exercê-la. Shigeko (Shinobu Terajima) cede e obedece, mas aos poucos o filme registra momentos rápidos em que ela percebe que está no controle, e o mais interessante é que esse controle não faz sentido para ela mesma. Ela vive numa sociedade que a coloca como dona do lar e submissa incondicional ao marido, então sentir poder sobre ele soa quase errado, e essa contradição é o que deixa a personagem tão complexa. O roteiro não resolve isso com uma virada simples de empoderamento; ele alterna o medo e o domínio, deixa o medo voltar quando ela parecia ter vencido, e essa oscilação é a camada de subtexto sobre dominação e submissão dos corpos que eu mais gostei no filme.
Shinobu Terajima, inclusive, ganhou o Urso de Prata em Berlim por esse papel e é a razão mais óbvia de o filme funcionar, porque ela entrega uma atuação contida, em que as feridas físicas do passado e as psicológicas causadas pela opressão social aparecem em gestos pequenos, em olhares que desviam, em obediências que parecem automáticas e depois já não parecem. Shima Ohnishi merece o mesmo reconhecimento por uma escolha menos óbvia, que foi não transformar o marido numa figura assustadora. Seria fácil e até tentador fazer do homem sem membros uma ameaça grotesca, mas o filme prefere que o medo venha do que ele já fez no passado e não do que consegue fazer agora, e o ator constrói isso com os olhos, com grunhidos e com uma fúria muda que humaniza o personagem sem pedir simpatia por ele.
O machismo daquela sociedade entra no filme como parte do mesmo sistema. A vila trata Shigeko como uma mulher cuja função é servir ao herói, ao marido e ao país, e o roteiro deixa claro que a submissão dela não vem só do medo dele, mas de uma estrutura inteira que a coloca em segundo plano. A propaganda de guerra no rádio, as cerimônias e os cantos patrióticos reforçam essa pressão externa, e a decisão de intercalar cenas reais da guerra com a rotina do casal funciona bem porque lembra que aquele espaço pequeno está ligado a algo muito maior. A direção é competente sem chamar atenção, não traz soluções especialmente criativas e também não atrapalha, e a fotografia segue a mesma linha, com um tom amarronzado e dessaturado que combina com a aridez do que a gente vê e dá a impressão de um lugar que perdeu a vida por causa da guerra. Trilha, iluminação e o desenho geral do roteiro cumprem o que precisam, sem se destacar nem incomodar.
ALERTA DE SPOILERS
Os problemas do filme se concentram num ponto que atinge justamente a camada mais interessante dele. Os flashbacks do marido na guerra, principalmente os da violência sexual que ele cometeu, aparecem vezes demais e em cortes rápidos que deixam a montagem mais agitada do que a história precisa. Desde o começo a gente já sabe que ele foi um monstro, e a ideia de que agora ele sente no corpo o que fez com outras mulheres funcionaria melhor se o filme confiasse que o espectador monta essa relação sozinho, sem precisar da imagem para confirmar. Quando o roteiro explica o paralelo em vez de sugerir, ele subestima um pouco a inteligência de quem assiste e diminui o alcance do subtexto, que poderia nos levar a pensar em coisas maiores do que apenas aquele marido e aquela mulher. Isso não derruba o filme, mas pesa justamente porque o resto é bem construído.
O final mostra o marido se arrastando pelo chão da casa até a beira de uma lagoa de irrigação enquanto a esposa trabalha no arrozal. Na água, ele vê o próprio reflexo, o rosto queimado e o corpo sem membros, e é a primeira vez que o personagem se enxerga assim, justamente no momento em que alguém chega com a notícia de que a guerra acabou e todos comemoram. A câmera então vai para o rosto da esposa, que sorri, mas é um sorriso amarelo, de quem não vê motivo real pra celebrar, porque a vida dela não vai mudar com o armistício, e a guerra dentro de casa continua. É aí que o filme deixa mais claro o que construiu desde o começo: ela conseguiu assumir o controle da relação, mas isso não a deixa feliz, porque estar no comando não a livra da pressão social que a mantém numa posição secundária. O filme corta desse sorriso para o marido afogado no lago, deixando evidente que ele tirou a própria vida, e não responde o que vai acontecer com ela depois disso, o que me parece a escolha mais honesta possível. As imagens de arquivo sobre as consequências da guerra e a punição de quem cometeu crimes de guerra seguem em paralelo e ampliam a pergunta, porque o que fica em aberto não é só o impacto sobre a esposa, mas também o impacto social do fim da guerra em todo o país.
FIM DOS SPOILERS
Caterpillar se segura em alguns momentos e é explícito demais em outros, justamente onde a sugestão teria mais efeito, e as cenas de sexo, que beiram o abuso, chocam pela exposição mas não passam a sensação de que estamos invadindo uma intimidade para a qual não fomos convidados. Um filme que faz isso muito bem é A Bruxa (2015), do Robert Eggers, que acompanha o desmoronamento de uma família isolada de um jeito tão próximo e tão perturbadoramente real que a gente sente que está espiando algo que não devia ver. Porém, consigo perceber que essa sensação, aqui, foi propositalmente evitada. A cena final ajuda a entender, já que mesmo no momento mais íntimo do desfecho, o filme intercala imagens reais da guerra e usa uma trilha dramática que apontam para o impacto social do conflito, o que combina com a ambição política da obra, ainda que afaste a gente do espaço privado do casal.
Em resumo, é um filme sólido, bem atuado e inteligente na forma como discute poder, corpo e submissão dentro de um casamento marcado pela violência, e funciona melhor para quem aceita imagens fortes em nome de uma discussão política e social que não se resolve de maneira simples: é esse o tipo de incômodo que o fllme perseguiu e alcançou.





