Philip K.Dick e o cinema

Ridley Scott e Philip K.Dick
Ridley Scott e Philip K.Dick

Uma união das mais felizes, poderíamos resumir.

Blade Runner, apesar de não ter começado de maneira promissora na expectativa de críticos e fãs, não só sobreviveu a cuidadosa e talvez não exagerada releitura que se verificou, como se tornou um dos ícones máximos do cinema e da moderna FC. Total Recall, com sua postura descompromissada e livre, conquistou logo de cara a simpatia dos fãs e geralmente é visto como uma boa adaptação da história original. O Impostor teve a infelicidade de surgir num momento em que todas as badalações e expectativas estavam voltadas para outra obra de K. Dick em andamento, Minority Report, de modo que passou relativamente despercebido, apesar de ser um bom filme, fiel ao conto original. E o inesperado O Pagamento, de John Woo, prova de uma vez por todas que o famoso escritor americano, ao contrário do que muita gente dizia, não só pode render bons filmes, como pode render alguns dos melhores filmes de ficção científica. Afinal, são dele algumas das melhores histórias.

Que Philip K. Dick foi dono de uma das mais brilhantes e criativas mentes da ficção científica do século XX não resta nenhuma dúvida, e o fato de a cada dia mais e mais obras suas estarem sendo procuradas e cogitadas como possíveis transposições para o cinema só vem a realçar esse fato elementar. Talvez seja irônico dizer, mas parece que o autor que esteve mais próximo da realidade humana em seus reveses mundanos, em suas contradições individuais e em suas neuroses coletivas, tenha sido justamente aquele que é geralmente acusado de criar as obras mais paranoicas e obsessivas no tocante ao mundo que nos cerca; aquele que, em vida, não foi considerado mais que um alienado.

Blade Runner (1982)
Blade Runner (1982)

O que mais impressiona em sua obra, no entanto, é o volume de complexidade e introspecção que ele consegue transmitir em histórias que, às vezes, não passam de uma dúzia de páginas. Seus contos têm um fluxo constante de ação e desenvolvimento; as histórias começam a todo vapor e simplesmente não há tempo para longas exposições ou cuidadosas delineações de personagens – no entanto, algo salta à vista: esses personagens, de alguma forma insuspeita, conseguem ter personalidade. Não é o caso de você apagar da mente o personagem e se concentrar na ideia – porque, sem o personagem a ideia simplesmente não funcionaria. Talvez tenha sido essa faceta peculiar de seus trabalhos curtos que tenha feito com que, das seis adaptações de suas histórias para o cinema que analisei, cinco provenham de contos.

Certa feita, um crítico americano disse que Philip Dick tinha uma torrente tão forte de ideias que temia não colocá-las a tempo no papel antes que evaporassem de sua cabeça. Daí sua inclinação obsessiva pelo uso de drogas nas longas e intermináveis jornadas criativas que dedicava à sua surrada máquina de escrever. Do álcool às anfetaminas, em certos momentos de sua vida Dick foi uma verdadeira farmácia ambulante, não somente em busca de ideias e inspiração, mas em busca também de uma descoberta interior que ele não cansou de modelar e remodelar em seus inúmeros trabalhos, e nunca ficando verdadeiramente satisfeito com os resultados, até o final de sua vida, em 1982.

O Vingador do Futuro (1990)
O Vingador do Futuro (1990)

E, num autor genial mas obsessivo, o resultado disso tudo não podia ser outro: obras-primas genuínas e trabalhos inúteis e desajeitados se sucederam uns aos outros, desordenadamente. No entanto, e como uma ironia fina que prova sua genialidade, ele vem deixando grandes figurões da ficção científica para trás no que se refere ao cinema. Figurões que, enquanto Dick e sua esposa apertavam o cinto graças às suas brochuras baratas e pouco procuradas, ganhavam milhões em adiantamento de grandes editoras, em livros que logo se tornavam best sellers do gênero. Hoje, o autor é considerado por muitos como o dono do mais importante “conjunto de obra” da ficção científica em todos os tempos.

E mais coisas virão: entre os vários projetos que estão sempre em especulação para uma possível adaptação para o cinema encontram-se os sensacionais romances “O Homem mais Importante do Mundo” (“Time Out of Joint”, de 1959) e “Identidade Perdida” (“Flow my Tears, the Policeman Said, de 1974), além de contos como “King of the Eyes” (1953). Em 1974 o próprio Dick chegou a esboçar um roteiro para o seu clássico romance “Ubik” (1969), publicado em 1985 e até hoje na gaveta de algum estúdio. Sem falar que “Os Três Estigmas de Palmer Eldrich” (“The Three Stigmata of Palmer Eldrich”, 1965), um dos mais densos e espetaculares trabalhos do autor, continua esperando, calma e silenciosamente, até que alguém de visão apurada e visionária caia na real e se de conta daquilo que representa essa obra sensacional.

Minority Report (2002)
Minority Report (2002)

O que os fãs do grande autor de ficção esperam, no entanto, não é uma enxurrada de novas adaptações cinematográficas de sua obra, pois o cinema, principalmente o cinema americano contemporâneo, está longe de provar qualquer coisa a respeito de qualquer pessoa. Mas o cinema é uma arte fascinante e não há como negar que a expectativa de poder admirar uma obra já anteriormente admirada em uma nova forma, sob uma nova perspectiva, é algo realmente muito forte e muito particular. Não se espera um novo Blade Runner, pois isso é algo que jamais irá acontecer, mas uma vez ou outra, segundo os cálculos da probabilidade, é inevitável que apareça uma pérola maior, que reluza com um brilho todo seu. Afinal, até para o pessimismo deve haver um limite. Mesmo em se tratando de filmes de ficção científica atuais.

Filmografia inspirada em Philip K.Dick

2015-2016: série The Man in the High Castle (do romance “The Man in The High Castle”)
2015: Minority Report (do conto “Minority Report”)
2012: O Vingador do Futuro (do conto “We Can Remember It For You Wholesale”)
2011: Os Agentes do Destino (do conto “Adjustment Team”)
2010: Radio Free Albemuth (do romance “Radio Free Albemuth”)
2009: Screamers – A Caçada (do conto “Second Variety”)
2007: O Vidente (do romance “The Golden Man”)
2006: O Homem Duplo (do romance “A Scanner Darkly”)
2003: O Pagamento (do conto “Paycheck”)
2003: A Batalha Dos Ciborgues (do romance “Do Androids Dream of Electric Sheep?”)
2002: Minority Report: A Nova Lei (do conto “Minority Report”)
2001: Impostor (do conto “The Impostor”)
1995: Screamers – Assassinos Cibernéticos (do conto “Second Variety”)
1990: O Vingador do Futuro (do conto “We Can Remember It For You Wholesale”)
1982: Blade Runner, o Caçador de Andróides (do romance “Do Androids Dream of Electric Sheep?”)

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E R Corrêa

E R Corrêa

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!" (Cioran)

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