Críticas

Blade Runner, o Caçador de Andróides (1982)

Um dos filmes mais espetaculares da história do cinema; um filme único que não terá substitutos ou “parentes próximos”!

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Blade Runner, o Caçador de Andróides
Original:Blade Runner
Ano:1982•País:EUA, Hong Kong, UK
Direção:Ridley Scott
Roteiro:Hampton Fancher, David Webb Peoples, Philip K. Dick
Produção:Charles de Lauzirika, Michael Deeley
Elenco:Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkel, Joanna Cassidy, James Hong, Morgan Paull

Blade Runner, O Caçador de Androides (Blade Runner, 1982), entre outras coisas, já foi destrinchado até em teses acadêmicas, e se existe algo a seu respeito que ainda não foi dito, esse algo pertence ao fantasioso mundo da imaginação. Mesmo para aqueles que possuem apenas o mais remoto interesse pelo cinema, é famosa aquela história das “duas versões” que foram feitas pelo diretor Ridley Scott a pedido dos chefões da Warner (circulam boatos na internet de que existiriam ainda outros finais não revelados para o filme, alguns chegando a citar sete ou oito finais alternativos, mas isso tudo é muito provavelmente bobagem): a primeira versão (que só apareceu no começo dos anos 90) seria a original, rejeitada pelo estúdio na época por ser demasiadamente sombria, por que desconfortavelmente aberta, talvez, e, por isso mesmo, comercialmente inviável (nesta versão, somente a cena em que Deckard aplica o teste Voigt-Kampff em Raquel, nos escritórios da Tyrell Corporation, é filmada à luz do dia); e a segunda versão, remexida no contexto central e modificada completamente na conclusão, em relação à primeira, foi aquela que apareceu e que, desafortunadamente, acabou por se transformar num enorme fracasso de bilheteria, completamente imprevisto.

Imprevisto porque Ridley Scott vinha do recente sucesso de público e crítica Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, 1979) – sucesso que, não por acaso, fez com que os chefões da Warner lhe dessem carta branca para orquestrar o Blade Runner, outra inteligente e empolgante história de FC que, segundo eles, tinha tudo para arrecadar milhões (assim, podemos conjeturar: se não tivesse existido o Alien, ou se ele tivesse redundado em um enorme fracasso, talvez o Blade Runner jamais tivesse existido). O que houve, porém, foi exatamente o contrário; assim como o 2001, Uma Odisséia no Espaço (2001, A Space Odissey, 1968), de Stanley Kubrick, a película de Scott se revelou cerebral demais para repetir a façanha anterior, mesmo com aquela versão medíocre e rotineira que apareceu originalmente, narrada em Off por um Harrison Ford puto da vida.

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Normal, para uma produção até hoje repleta de controvérsias e pontos em falso. Também houve aquela história relativa a plágio, alegada pela revista francesa de HQ’s “Metal Hurlant“, de que Scott e seus produtores teriam deliberadamente copiado, sem autorização, o visual futurista de uma das histórias do consagrado desenhista Moebius, “The Long Tomorrow“, para a caracterização do filme. Coisa nem confirmada, nem desmentida.

Com roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, o filme foi baseado no romance “O Caçador de Andróides” (“Do Androids Dream of Eletric Sheep?”, de 1968), um dos melhores trabalhos de Philip K. Dick e uma das mais aclamadas, consistentes e perversas visões à cerca do futuro do homem e seu relacionamento com a tecnologia. Dick, mais esperto do que nunca, cria androides revoltados não especificamente com sua condição de androide – dá a entender que isso, para eles, é indiferente – mas sim com o fato de que, a despeito das memórias falsas que carregam, viverão por apenas quatro anos, por “motivos de segurança“. E, o que é pior, na condição de escravos: são os instrumentos perfeitos para os perigos da exploração espacial, em colônias distantes da Terra, já que são mais fortes fisicamente e no mínimo tão inteligentes quanto os engenheiros genéticos seus criadores (nem no livro, nem no filme sabemos qual tipo de tratamento tais androides recebem nas colônias, mas é fácil adivinhar). Outro parêntese: os produtores do filme preferiram abordar essas criaturas como “replicantes“, ao em vez de “androides“, na intenção óbvia de aproxima-los ainda mais dos seres humanos, já que o termo “androide“, já completamente assimilado tanto dentro da cultura ficcional quanto fora dela, é próximo demais do termo “robô“, pesado e repulsivo em sua totalidade inumana, rapidamente lembrando uma coisa insólita e artificial, o que apagaria, ou neutralizaria, a intenção do filme de fazer com que o público simpatizasse com os “replicantes” ou, no mínimo, adquirisse uma espécie de empatia para com eles. O caso é que em nenhum momento do filme é utilizada a palavra “androide“. “Monstrengo” é outro termo utilizado, ironicamente.

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Um grupo de Nexus-6 (androides de última geração) se revolta com sua condição e, após um motim sangrento numa das colônias espaciais, resolve voltar a Terra – o que lhes é proibido – em busca de respostas; já que seus criadores se deram ao trabalho de criá-los com inteligência o suficiente para indagar os por quês da questão – agora que aguentem as consequências. Mas os criadores não aguentam as consequências e por isso preferem jogar a sujeira para debaixo do tapete, quando ela surge. Unidades especiais chamadas de “blade runner’s” são encarregadas de “retirar” os replicantes invasores, da mesma forma que apertamos sem cerimônia o botão “power” do computador quando dá um treco no windows e ele trava – mas talvez esse não seja um exemplo sensato, pois, quando nosso computador trava, ficamos com remorso de desligá-lo sem recorrer ao método padrão de desativa-lo antes; nesse mundo caótico de valores duvidosos, os blade runner’s não sentem remorso. Ou, ao menos, não sentiam…

Rick Deckard (interpretado por Ford, num papel que era originalmente destinado a Dustin Hoffman), a despeito de tudo, ainda é um dos principais blade runner’s em circulação e por isso é recrutado à força para se livrar do caso, o mais discretamente possível. No livro, Deckard é um sonhador, disposto a tudo para conseguir dinheiro suficiente para comprar um animal verdadeiro, já que sua ovelha elétrica só traz aborrecimentos e risos desaprovadores dos vizinhos; somente aos poucos ele percebe que o que está fazendo é uma incongruência das mais absurdas: retirar androides inteiramente capazes de especular a respeito da própria existência somente para satisfazer a seu “ego pseudo-ecológico” (seria na verdade um assassino?, ele se pergunta, lembrando das reprimendas da esposa e dos conselhos de Mesmer, o guru). No filme ele é um misantropo completamente indiferente, uma espécie de Humphrey Bogart com excesso de melancolia (se é que isso é possível), e solteiro; enquanto tenta dar início a um almoço rápido num botequim superlotado de Chinatown é abordado estupidamente por Gaff (Edward James Olmos), um oficial de polícia que, a mando do chefe de polícia Bryant (M. Emmet Walsh), o quer novamente recrutado como um blade runner. Gaff utiliza um dialeto estranho, indefinido, conhecido principalmente no meio policial, e Deckard finge não entendê-lo. Mas o balconista do botequim traduz para ele e diz, sorridente: “Ele disse que está preso, senhor Deckard“. O detetive dirige-se então à central de polícia e ali recebe sua nova missão. Ele recusa-se de início a voltar ao oficio de exterminador de androides, mas, acuado pelo ex-chefe, não vê outra alternativa – ele sabe que não tem escolha. E então ele vai em frente, recolhe as pistas, como um verdadeiro detetive solitário e sorumbático dos anos 40 (tipo Sam Spade, ou Philip Marlowe) e inicia o processo de retirada dos “produtos” ilegais em circulação na obscura e poluída Los Angeles de 2019. Até que se envolve emocionalmente com Raquel (Sean Young), uma Nexus-6 que, numa reviravolta, acaba lhe salvando a vida.

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E é aí que a fragilidade da situação começa a se revelar com mais intensidade. Fragilidade que culminará no salvamento de Deckard por um de seus próprios perseguidos, o replicante Roy Betty (Rutger Hauer), o cabeça do levante androide, numa das cenas mais fortes e envolventes da sétima arte. É quando Deckard se pergunta até onde vai a moral do criador para determinar limites para sua criação – o complexo de Frankenstein em versão “cyberpunk“. “Nada pior que a coceira que não se pode coçar“, a certa altura diz Leon (Brion James), um replicante.

Mas se esta situação é densa e enigmática por si só, resta ainda lembrar o destino do próprio Deckard; Raquel, graças às memórias implantadas que utilizava, afinal de contas, só ficou sabendo que era uma replicante depois que lhe contaram. Durante todo o filme o oficial de polícia Gaff se divertia fazendo pequenas dobraduras de papel e palitos de fósforo, e nós, bestalhões, acreditávamos que isso não passava de uma excentricidade neurótica típica da vida urbana, mas a coisa, aparentemente tão simples e banal, carregava consigo – agora sabemos – um significado espantoso e revelador.

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É como se os personagens fossem, todos eles, anti-heróis indiferentes: no fundo, é difícil simpatizar com um ou com outro, apoiar uma ou outra causa, pois tudo se dilui num plot de complexidade sufocante, até culminar num dado momento em que todos percebem que, qualquer que tenha sido o vencedor, esse vencedor não terá nada além do que teve o perdedor, se é que é possível diferenciar um do outro. Aliás, o paralelo que se faz com esse filme e os filmes de detetive dos anos 40, os films noir, geralmente inspirados em obras de mestres do romance policial como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, oriunda não somente de seu visual sombrio e depressivo, mas principalmente desse fato: a quase ausência de uma “moral” clara, límpida, tal como a que aprendemos a reconhecer – os “heróis“, vira e mexe, se apresentando como vilões, e os “vilões” fazendo as vezes de heróis, tanto uns como os outros unicamente em busca da solução de seus próprios problemas, sabendo que, no fundo, no fundo, é só isso que realmente importa.

Blade Runner, O Caçador de Andróides, apesar de não ser exatamente fiel ao romance que o inspirou, é, definitivamente, um dos filmes mais espetaculares da história do cinema; um filme único que não terá substitutos ou “parentes próximos“. Rapidamente envolvente em seu clima de policial noir (a começar pelo título, tomado de empréstimo de um dos livros do escritor William S. Burroughs), é dono de uma plasticidade comovente, um mosaico futurista que vai de encontro certeiro à música espantosamente apropriada do mestre Vangelis; um trabalho que remodelou a ficção científica no cinema, não só do ponto de vista técnico, mas também conceitual, assim como o 2001, de Kubrick, fizera em 1968 – um rompimento com a ingenuidade. Um trabalho que, visual e esteticamente falando, parece ter sido feito ontem.

Trabalha apenas com um nível do romance, é verdade, aquele que pode ser descrito, com reservas, como a parte aventureira da história, deixando de lado as outras implicações; principalmente as religiosas, um tema subsidiário sempre explorado por Dick em suas obras, e que aqui se apresenta através das aparições esporádicas do guru messiânico Mesmer e sua doutrina empática de redenção e perda, o mesmerismo. Se no livro o mesmerismo, então a religião dominante, tinha um papel fundamental para o desenvolvimento da trama, no filme vemos o aspecto religioso, em sua conotação literal, sendo substituído por um apelo comercial metaforicamente ambíguo: néons ultracoloridos e insinuantes que se espalham por todos os cantos da cidade, invadindo mesmo até a privacidade dos lares, enquanto enormes plataformas de anúncios ambulantes (patrocinadas por coisas como Coca-Cola e JVC) sobrevoam a cidade lembrando a todo tempo os benefícios de se mudar para uma colônia planetária, “a chance de começar de novo, num mundo de maravilhas e descobertas“. Como em Os Mercadores do Espaço (“The Space Merchants”, 1953), de Frederick Pohl e Cyril M. Kornbluth, a propaganda é levada às últimas conseqüências, num mundo superpovoado e sem qualquer esperança (isto porque, antes de fazer carreira no cinema, Ridley Scott era um famoso diretor de comerciais de TV).

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Assim, mesmo substituindo um tópico importante por outro, o filme materializa de forma sensacional a visão dickiana do futuro. Num artigo para a “Starlog” número 64 (novembro de 1982), diz Norman Spinrad: “Blade Runner é uma tradução essencialmente verdadeira de ‘Do Androids Dream of Eletric Sheep?’, um filme sério para adultos, um filme de ficção científica mais verdadeiro do que quase qualquer outra coisa já feita no gênero. Torna inválido a todos, é uma pequena obra prima no mínimo, e qualquer um que procure uma ficção científica real, com intenções realmente sérias, deveria vê-lo“. E olha que ele falava daquela versão truncada e superficial que apareceu originalmente.

O caso é que tudo conspira para tornar a obra realmente épica e mítica: a futurística e chuvosa Los Angeles é uma megalópole terrível e ao mesmo tempo fascinante, palpável, crua, tão assustadoramente real quanto os coloridíssimos néons que a enfeitam; a mais completa e verdadeira já imaginada pela FC em película (cortesia de Douglas Trumbull e Syd Mead, gênios na área dos efeitos visuais). Cyberpunk, como preferem alguns. O pano de fundo perfeito para o desenrolar do drama complexo e sufocante dos androides invasores em busca de sua identidade, enquanto são caçados impiedosamente por um blade runner que nem ao menos sabe por que está fazendo aquilo. Um blade runner que descobre, espantado, que ele mesmo pode ser um replicante. Quem irá caçá-lo?, nos perguntamos naturalmente, mas a moral é clara: quem não for um replicante que atire a primeira pedra.

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4 Comentários

  1. Manoel José Lucas Pacheco

    Eu erá bem jovem quando vi este filme, pela primeira vez., agora, estou próximo da fase final de minha existência sentindo ainda mais profundamente, o impacto do grande tema do filme, ou seja, a finitude do ser, sejam humanos ou não!

  2. Henrique

    Meu filme preferido! Tenho até medo de pensar no que vai ser tornar essa sequência que estão planejando…

  3. anselmo luiz

    este filme é sensacional ele foi exibido á primeira vez na TV Aberta na TV Globo ” Tela Quente em 25/12 /1989 ,e agora querem fazer um sequencia ou ate refilma-lo vão estragar toda a concepção do filme original se refilma-lo e para que fazer uma sequencia para um publico que só presta para ver cinema – pipoca ou este filmes idiotas de herois como da Marvel ou DC ,o cinema esta perdendo as suas raizes ou estamos á merce de um publico facil de se agradar como filmes cheios de efeitos especial e sem conteudo nenhum.

    • Queria poder discordar e dizer que uma sequencia ou refilmagem seria algo fabuloso de ser ver, mas não posso. A ficção realmente perdeu muito espaço para super heróis nos últimos anos, uma pena. Mas atualmente o público é outro, todos querem ser geeks e saber tudo sobre Marvel e DC, é o novo estilo de consumo que esta sendo vendido. Mesmo que esse pessoal nunca abriu um HQ na vida.

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