Críticas

O Rato Humano (1988)

Se você é fã de podreiras e ainda não viu esse filme, você está perdendo uma pequena – sem trocadilhos – gema do cinema B!

o-rato-humano-1988-1

O Rato Humano
Original:Quella villa in fondo al parco
Ano:1988•País:Itália
Direção:Giuliano Carnimeo
Roteiro:Dardano Sacchetti, Elisa Briganti
Produção:Fabrizio De Angelis
Elenco:David Warbeck, Janet Agren, Eva Grimaldi, Luisa Menon, Werner Pochath, Nelson de la Rosa, Anna Silvia Grullon, Pepito Guerra, Victor Pujols Faneyte, Franklin Dominguez

“O híbrido que viu é meu maior sucesso em cruzamentos. A primeira vez que vi achei um milagre, pensei no prêmio Nobel. Então fugiu, causando pânico aos moradores daqui. Começaram a falar em maldição, um monstro metade homem, metade rato…”. Doutor Oben

Houve um tempo que o cinema italiano de terror filmava explicitamente para chocar o público, podendo ser demônios, canibais, animais sanguinários, enfim qualquer coisa que pudesse gerar bastante sangue e enojar os espectadores. Claro que dali saíram coisas interessantes e também coisas muito ruins, e – seja por picaretagem ou com boas intenções – , apenas uma constante era a mesma em todos estes casos: a pouca verba disponível. E dos grandes clássicos até bagaceiras uma das últimas empreitadas italianas neste segmento foi Quella Villa In Fondo Al Parco também conhecido como Rat Man ou O Rato Humano como foi lançado no Brasil.

o-rato-humano-1988-3Dirigido por Giuliano Carnimeo (que também dirigiu os western spaghetti Alleluia Chegou para Matar e Eu Sou Sartana), sob o pseudônimo de Anthony Ascott com roteiro escrito pelo grande Dardano Sacchetti (que já escreveu roteiros muito melhores como The Beyond, de Lucio Fulci, Demons e Demons 2 junto com Dario Argento, Lamberto Bava e Franco Ferrini, entre muitos outros) sob o nome de David Parker Jr., O Rato Humano é uma impagável produção trash que de tão ruim conquistou fãs por toda a parte, uma parte pela pretensão, porque ele até se leva a sério como um Cannibal Holocaust da vida, mas a história inverossímil e os excessos de concessões poéticas acabam prejudicando o terror e se tornando uma hilária e involuntária comédia gore, além da “atuação” do vilão da história conforme falaremos mais tarde. Portanto já adianto que se você é fã de podreiras e nunca teve a oportunidade de assistir a este filme, você está perdendo uma pequena gema do cinema B.

A história, ou seja lá o como Sacchetti chama isso, começa em algum lugar da República Dominicana, onde o Doutor Oben, auxiliado pelo ajudante Tônio, em seu precário laboratório, cruzou o esperma de um rato com um óvulo humano e está prestes a exibir o híbrido (Nelson de la Rosa, incrível) para um congresso internacional de genética. Só que esta nova criatura tem algumas particularidades: possui um veneno super-poderoso em suas garras que é capaz de matar um humano em segundos por leptospirose instantânea (?!!). Como se essa ideia não fosse absurda o suficiente, a intenção do doutor é simplesmente ganhar o prêmio Nobel… Claro, uma nova espécie de rato que mata em segundos era tudo o que precisávamos aqui na Terra, vamos lhe dar o Nobel por isso…hahaha…

Enfim, mesmo alertado por Tônio sobre a frágil gaiolinha em que o “bichinho” se encontra, o doutor não dá ouvidos e vai dormir tranqüilo pensando talvez no sucesso, nas capas de revista e tal.. Mas, desnecessário dizer, a coisinha foge sem ninguém dar falta e entram os créditos iniciais com música de Stefano Mainetti.

o-rato-humano-1988-4Já no outro dia em outro lugar da ilha, o fotógrafo Mark (Werner Pochath, que foi diretor de elenco de After Death, de Cláudio Fragasso, e Black Demons, de Umberto Lenzi) está trabalhando com duas modelos, Marlis (Eva Grimaldi, de La Maschera del Demonio, de Lamberto Bava, que aqui está tão maquiada como um protótipo de baranga) e Peggy (Luisa Menon), enquanto são espiadas por um manezinho nativo qualquer. A propósito, Mark deve ser um péssimo fotógrafo já que usa a câmera de qualquer jeito e sem nenhum equipamento auxiliar…Mas voltando ao filme, esse manezinho encontra a fúria do rato (hahaha) e morre degolado enquanto as garotas são fotografadas. Depois do set de fotos de Marlis, os três acabam por encontrar os restos de um corpo na areia (se bem que parece mais um crânio de plástico), provavelmente morto pelo rato. Mais tarde os três decidem manter o que viram em segredo para não provocar problemas com a polícia (ah, claro..). Porém Peggy não está nem aí já que estará voltando para Nova York no dia seguinte, enquanto Marlis está preocupada, já que ficará mais três dias no local.

Mais a noite, Peggy vai dar uma saída para um encontro, mas o taxi que ela pega acaba com o pneu furado no meio do nada. Agora se você está pensando que o motorista vai usar o pneu sobressalente, se enganou já que é o terceiro (!?) pneu que estoura neste dia e o taxista não tem mais nenhum estepe – realmente os borracheiros da República Dominicana não devem ser muito bons, hahaha..

O taxista recomenda que Peggy vá andando até um ponto de ônibus que fica a 100 metros por uma rua escura. No caminho, após ouvir um chiado de rato, ela vê um corpo sendo arrastado dentro de uma casa e, além disso, um homem caminha a passos lentos em sua direção. Agora uma pequena enquete, em uma situação desta o que você faria? Gritaria feito um louco, correria para longe, encararia o homem, enfim, qualquer coisa MENOS entrar em uma casa onde você viu um cadáver sendo arrastado, certo? E agora adivinha o que Peggy faz? hahaha..

o-rato-humano-1988-2

Ok, ok, o homem realmente não é flor que se cheire, já que ele “sadicamente” (pelo menos como o diretor tenta passar) pega o sapato alto que Peggy deixou enquanto corria e o picota com uma enorme faca. Peggy dentro da casa está acuada escondida em um armário, enquanto o misterioso homem caminha em sua direção raspando a faca pelas paredes. A lenta e enrolada perseguição finalmente termina com o rato matando Peggy e o bandido anônimo fugindo.

No outro dia, um escritor de mistérios chamado Fred Williams (David Warbeck, conhecido pela sua atuação em The Beyond, do mestre Fulci) conhece Terry (Janet Agren, de Keruak, O Exterminador de Aço e Bakterion), Fred está no local em busca de inspiração para seu novo livro e Terry vai ao necrotério, pois foi informada que sua irmã Marlis teria morrido nas mãos de um maníaco. Ambos acabam indo juntos ao necrotério. Como já sabemos não foi Marlis a vítima e por isso Terry cria um caso com a polícia.

A polícia representada por um inspetor “anônimo” e que, como muitos filmes, se mostra incompetente e incapaz, pois neste caso simplesmente por Peggy ser loira como Marlis e estar usando as suas roupas, deduziu que era Marlis a vítima, sem ao menos checar as impressões digitais como foi bem observado por Fred.

o-rato-humano-1988-5

Então durante uma conversa entre Fred e Terry, descobrimos que Marlis, desaparecida há três dias, é a filha rebelde de um Senador dos Estados Unidos (caraca!!) e em seguida o escritor resolve leva-la para o local do crime onde ele busca mais ideias para sua nova história – sabemos então que Peggy não morreu pelos cortes, mas de, vejam só, ataque cardíaco (medo? leptospirose? hahaha..)! Fred deduz pelos cortes que se trata de algum bicho, então alguém se aproxima e os dois se escondem; é Tônio, que está provavelmente procurando o bichinho fujão. Tônio sai e o casal vai procurar o inspetor.

o-rato-humano-1988-9O inspetor pede que ela reconheça mais um corpo que foi encontrado e, que, mais uma vez não se trata de Marlis. Na realidade Marlis está fotografando na floresta com Mark e sua assistente Monique (talvez acampando o que justificaria o desaparecimento, mas nada é esclarecido), e fatalmente acabaram encontrando outro corpo. Mark, Monique e Marlis vão para a cidade mais próxima buscar ajuda, mas a cidade está deserta, todos morreram nas garras do roedor ou fugiram, só que o trio ainda não sabe disso. Monique vai encontrar um telefone, mas pela sua demora Mark vai buscá-la enquanto Marlis fica no carro (não por muito tempo, é claro).

Então temos uma sequência de cenas antológicas: Monique está revirando um banheiro velho (procurando um telefone?!), o rato humano sai de dentro de uma privada (?!) sem que Monique perceba; corta para Marlis que caminha pela cidade abandonada; Monique ergue a cabeça e vê o rato, o rato então dá uma patada na garota que cai sangrando no chão; Mark ouve os gritos e se desespera por não conseguir abrir uma porta (?!), Nelson, ou melhor, o rato pula sobre Monique e a mata arranhando seu rosto (uma mulher de mais ou menos 1,70m subjugada por um nanico de 72 cm ?!). Marlis aparece assustada e Mark finalmente consegue abrir a porta (você não vai acreditar a facilidade com que a porta se abre…), tarde demais é claro. Não consegui enxergar direito e tive que voltar várias vezes porque meus olhos vertiam lágrimas de tanto rir.

Enfim, Marlis e Mark se envolvem em um acidente de carro com Tônio (que é apenas comentado, mas não filmado) e são levados para a casa do doutor maluco Oben, que trata de seus ferimentos. Como um filme trash não ficaria completo sem aparecer uma mulher pelada, Marlis está tomando banho enquanto o rato safado está espiando pela janela, com o diretor Carnimeo usando todas as câmeras e ângulos possíveis para enquadrar a nudez de Eva Grimaldi.

o-rato-humano-1988-7

Oben convida os dois a dormir na casa sem saber que o rato está por perto, e Marlis acaba vendo um vulto pela porta. Então Oben alerta Tônio para que o capture, mas o bichinho é esperto e não pretende ser capturado tão facilmente. Mark é encontrado morto e o rato corta a energia elétrica roendo os cabos. Marlis está apavorada. Oben explica a ela o que aconteceu com Mark, enquanto Tônio se encarrega de pegar o bicho. Contuo ele acaba surpreendido e morre de maneira bem violenta.

Enquanto isso, Fred e a irmã de Marlis continuam investigando e chegam também à cidade fantasma de San Martin, mas Oben resolve fugir dali com Marlis na caminhonete de Mark, porém na típica cena “esqueci algo, já volto“, Oben também é atacado e morre. Agora é só Marlis contra o rato, enquanto sua irmã Terry e o escritor Fred vão coletando pistas até chegarem à casa de Oben. Mas será que eles chegarão a tempo de salvar Marlis, ou será que todos padecerão ante o poder do rato assassino?? Só posso adiantar que é uma das sequências finais mais esquisitas e picaretas que eu já tive contato.

o-rato-humano-1988-6

Se o roteiro é bastante furado e não ajuda a construir um clima de suspense, a direção menos ainda: todas as sequências de perseguição e assassinato são filmadas com o máximo de seriedade, e talvez até metessem um pouco de medo se o assassino fosse um gigante com uma motosserra, tipo o Leatherface, e não um tampinha feio e dentuço. E isso acaba atrapalhando um pouco da diversão, pois se Giuliano Carnimeo resolvesse descambar de vez para o humor negro sem dúvida seria um filme bem mais interessante, mas mesmo assim acredite, certas situações são para chorar de rir.

Algumas cenas são arrastadas e cansativas, como a perseguição de Peggy e as seções de fotos de Marlis, ou servem só para encher linguiça e por vários momentos a escuridão toma conta da tela e não se enxerga nada do que acontece. Outro problema é na insistência em dar closes nos olhos do rato, talvez para tentar criar uma tensão ou simplesmente esconder a maquiagem tosca de Nelson de la Rosa. No entanto, fazendo uma média geral, Carnimeo faz um bom trabalho. Tem uma boa quantidade de sangue, mas não tanto quanto poderia ter, e a trilha sonora de Stefano Mainetti, mesmo não sendo marcante, não irrita os ouvidos.

o-rato-humano-1988-8

Quanto ao elenco, todos fazem o trivial à exceção se faz a David Warbeck, com uma atuação canastrona e até certo ponto convincente, entretanto pode-se dizer que todos os méritos (e de certa maneira desméritos) do filme inteiro são de Nelson de la Rosa, o baixinho que já esteve no Guiness como o menor homem do planeta e era considerado o menor ator do mundo, com seus 72 cm, roubando todas as poucas cenas em que aparece mesmo sem dizer uma palavra, seja pelos atributos físicos ou pela maquiagem mais que artificial. Para ser sincero é tão tosco que foi difícil para eu me convencer que aquela coisinha feia e esquisita que matava as pessoas era um ser humano de verdade e não um bonecão. É a prova viva daquele ditado “tamanho não é documento”..hahaha…

A picaretagem extrapola a tela e até a distribuidora brasileira entrou na onda: a finada Live Home Vídeo tem no encarte nacional um aviso: “não recomendável para pessoas impressionáveis“… Portanto se você se impressiona com um anão mal maquiado e feio correndo pra lá e pra cá matando quem ficar na frente, corra como se fugisse do inferno, mas se esta é sua praia, esqueça qualquer traço de coerência, relaxe no sofá e bom divertimento.

Leia também:

2 Comentários

  1. gilson bloch

    filmaço trash de primeira tenho o dvd , comprei da continental filmes é muito bom o dvd por sinal e o filme é 10…

    • Tadeu dimas

      O DVD tem mesmo boa qualidade? É que a Continental tem fama de lançar DVDs com péssima imagem e som ruim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *