Críticas

Encaixotando Helena (1993)

A despeito de seu final asqueroso o que sobra é um filme mórbido e muito interessante!

Encaixotando Helena
Original:Boxing Helena
Ano:1993•País:EUA
Direção:Jennifer Lynch
Roteiro:Jennifer Lynch, Philippe Caland
Produção:Philippe Caland, Carl Mazzocone
Elenco:Julian Sands, Sherilyn Fenn, Bill Paxton, Kurtwood Smith, Art Garfunkel, Nicolette Scorsese, Carl Mazzocone Sr.

Poucos filmes me deixaram com um sentimento tão dúbio quanto Encaixotando Helena, película de 1993 cujo VHS eu desprezei por anos nas prateleiras da locadora e só agora resolvi dar uma chance. Pela opinião geral, o filme é uma bomba, e é só procurar pela internet para encontrar um milhão de críticas furiosas sobre ele. Mas se continuar procurando, vai encontrar um pequeno grupo que realmente acha que o filme merece ser assistido com mais boa vontade. Então, procurando assistir com olhos mais gentis, fica esta sensação esquisita de não saber se gostou ou não do filme.

Não me entendam mal, entretanto: quando digo em gostar do filme, não me refiro de forma alguma à sua famigerada conclusão. É impossível não odiar os últimos cinco minutos do filme, que simplesmente tapeiam completamente o espectador, avacalhando com qualquer boa vontade que se possa ter tido em relação ao que veio antes dele. Acredite, são cinco minutos que vão fazer você gritar de ódio na frente da TV e amaldiçoar até a quinta geração dos envolvidos no filme.

Mas, aparte este final asqueroso (e pode continuar a ler sem medo, que eu não vou entregar) o que sobra de Encaixotando Helena é um filme mórbido e muito interessante, mesmo com uma penca de defeitos. A trama é intrigante, e mantém bem a atenção do público na maior parte do tempo. É certo também dizer que nem tudo que veio antes da conclusão seja assim uma Brastemp. Além da surpresa final, ele também sofre com um terceiro ato bem chulé, digno de qualquer Cine Privê, reações nada convincentes por parte dos personagens e com algumas atuações no limite do ridículo. Chegaremos nisso num instante.

Antes vamos falar um pouco da novela envolvendo Madonna e Kim Basinger nos bastidores do filme. Ambas estavam no auge da carreira cinematográfica na época: a rainha do pop vinha se provando como atriz, e Basinger ainda estava no embalo do sucesso de Batman, mas vinha fazendo algumas escolhas não muito felizes na carreira (O Mundo Proibido, alguém?). Madonna havia sido considerada para estrelar o projeto quando estava começando a ser desenvolvido (e ainda se chamava Encaixotando Hanna), mas abandonou o barco nos primeiros estágios de desenvolvimento. Já Basinger caiu na besteira de firmar um acordo verbal para assumir o papel título, e quando resolveu pular fora, sofreu um processo e teve que pagar 9 milhões de doletas de indenização aos produtores, fato que quase arruinou a sua carreira.

Se Basinger se arrependeu de desistir ou preferiu torrar o dinheiro para se ver livre de Encaixotando Helena, só podemos especular. O que se sabe é que o filme foi um tremendo fracasso de público e crítica da época. O pessoal que tinha ido assistir um filme de horror simplesmente não engoliu o tom romântico que impera a maior parte do tempo, e se alguém tivesse ido para ver um filme de romance, pode ter certeza que não ficaria muito feliz com o que veria na tela.

A trama trata de Nick (Julian “Warlock” Sands, se esforçando ao limite), um médico rico e bem sucedido que vive um romance estável com Anne (Betsy Clarck). Nick tem uma bela casa, uma carreira promissora, uma namorada gentil e um bom amigo, o também médico Lawrence (interpretado por Art Garfunkel. Isso mesmo, Art Garfunkel!). Mas apesar de tudo isso, ele não consegue ser feliz por conta de sua obsessão por Helena (a delícia Sherilyn Fenn, que, me perdoem, é muito mais atriz do que Kim Basinger), uma moça com quem teve um caso de uma noite, mas que não consegue esquecer.

Uma noite, enquanto Anne prepara um jantar romântico, Nick dá uma escapada para espiar Helena. A promíscua moça está, naquele momento, transando com Ray (Bill Paxton). Ray é um bad boy de subúrbio, sempre usando calça de couro, camiseta colada e sem nunca piscar os olhos, numa atuação que não faz justiça à capacidade de Bill Paxton.

Nick fica arrasado ao ver Helena com outro, e decide dar uma festa para convidá-la, para ver se consegue ter uma palavra com ela. Mas durante a festa Helena não dá a mínima bola para o médico, e prefere se banhar na fonte da mansão usando apenas a roupa íntima, para depois fugir com Russel (Bryan Smith, que trabalhou com Sands também em Warlock II), um dos outros convidados.

Mas para a sorte de Nick, Helena telefona na manhã seguinte, pedindo que ele lhe entregue a bolsa que ela esqueceu na festa. Nick consegue trazer Helena para a sua casa, enquanto a moça, furiosa, só quer se livrar do doutor para poder pegar um avião.

Fala a verdade, surgiu algum elemento de horror até o momento? Isso tudo está soando mais a um melodrama de quinta do que alguma coisa que merecesse estar sendo criticado no Boca do Inferno, certo? Bem, você vai ter que aceitar minha palavra: a coisa engrossa a partir daí.

Sem querer entregar muito, Helena sofre um acidente e fica a mercê de Nick. Para não deixá-la escapar, o médico realiza algumas operações extremas nela, e a trama vai ficando cada vez mais doentia ao mostrar a obsessão dele atingindo proporções assustadoras. A estátua da Vênus de Milo que Nick guarda no seu saguão serve como metáfora para a forma como ele quer e quer manter Helena só para si. Os momentos que mostram esta interação entre os dois personagens são o ponto alto de Encaixotando Helena, principalmente pela forma como Nick mutila sua adorada para deixá-la cada vez mais submissa.

E quando o filme parece ter atingido o seu auge grotesco, a coisa desanda monstruosamente. Imagine se você estivesse assistindo Louca Obsessão e de repente o seu cotovelo apertasse o controle remoto e mudasse para 9 1/2 Semanas de Amor. O filme vira de repente um romance erótico bem cheesy e improvável. A trama começa a resgatar um pouco do tom perturbador quando Bill Paxton entra em cena novamente, e parece que vamos ter uma conclusão corajosa… mas aquilo acontece.

Você então apanha a primeira coisa que vê e atira na televisão, puxa os cabelos e dá um chute no sofá com a sensação de ser o maior idiota do mundo. Acredite, você não é o único. Este é um final que não apenas encerra mal o filme, mas despedaça qualquer credibilidade que pudesse ter existido até o momento.

Depois de ver aquilo, poucos tiveram a boa vontade de olhar os bons aspectos do filme (como as boas atuações de Sands e Fenn, além da pequena e efetiva participação de Kurtwood Smith), ou lhe dar um crédito pela maneira competente como a primeira hora é conduzida.

Farpas sobram também para alguns detalhes como a atuação hilária de Paxton (ele nunca consegue convencer com sua pose de fodão) e a trilha sonora. Fala sério, que tipo de filme de horror teria a cara de pau de trazer cenas de sexo ao som de Woman in Chains e Sadeness? Se bem que, para ser honesto, a diretora Jennifer Chambers Lynch (isso aí, filha de David Lynch) diz que o roteiro, que escreveu aos 19 anos, nunca teve a intenção de ser um filme de horror, e sim um romance “diferente“. Ou, segundo ela mesma:

Eu o vejo como uma história de amor, não um filme de horror. A imagem da Vênus de Milo é tão poderosa. Amor obsessivo é como uma série de amputações enquanto se rouba um do outro.
Isso redime os rumos que o filme toma? Não completamente. Mas faz ver a coisa de uma forma um pouco diferente. Talvez seja muito pouco para salvar Encaixotando Helena como um todo, mas prova que a diretora tinha boas intenções ao fazê-lo. O problema é que, em se tratando de cinema, o que importa não é só a intenção.

Leia também:

1 Comentário

  1. Terei que dizer que esse filme é um dos meus guilty pleasures!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *