Críticas, Quadrinhos

Corpos (2017)

Si Spencer guia o leitor pelas ruelas físicas e psíquicas de Londres durante a investigação de um assassinato atemporal.

Corpos
Original:Bodies
Ano:2017•País:EUA
Páginas:215• Autor:Si Spencer, Dean Ormstom, Phil Winslade, Meghan Hetrick, Tula Lotay, Lee Loughridghe•Editora: Panini

 

O cadáver de um homem caucasiano é encontrado na East End em Londres coberto de estranhos e ritualísticos ferimentos. Sua origem e a identidade de seu assassino são um mistério que um grupo de detetives precisa desvendar. Esta seria mais uma história de mistério se não fosse por um “pequeno” detalhe: o mesmo corpo, com os mesmos ferimentos, foi encontrado no mesmo local por pessoas diferentes ao nos últimos séculos. A primeira vez, em 1890, logo após os assassinatos de Jack, o estripador; a segunda em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial; a terceira em 2014, durante conflitos raciais; e a última, em 2050 após a explosão de uma bomba capaz de embaralhar as sinapses e causar amnésia e confusão mental na população.

Esta é a complexa premissa de Corpos, mais recente título Vertigo publicado no Brasil pela Panini, escrita por Si Spencer, de Hellblazer: Cidade dos Demônios, e ilustrada por um time bastante diversificado de artistas. Dean Ormstom, de Lúcifer, é responsável pela arte do período de 1890, Phil Winslade, de Goddess – A Ira dos Deuses, ilustra as passagens de 1940, Meghan Hetrick, de Red Thorn, cuida da arte de 2014 e Tula Lotay, de Supreme Blue Rose, cuida da arte do período de 2050. Cada um dos artistas possui estilo e características próprias que casam muito bem com o período que representam na história, mas o destaque fica por conta de Tula Lotay e Deam Ormstom, donos de traços mais particulares que enchem os olhos durante suas passagens.

Corpos é uma HQ difícil de se avaliar. Tecnicamente, Si Spencer divide muito bem os quatro períodos da história, costurando cada um deles em uma grande colcha de retalhos através das similaridades e pontos em comum. Porém, ao ousar com uma narrativa complexa demais, cronologicamente não linear e recheada de subtexto, o autor não consegue prender a atenção do leitor durante as mais de duzentas páginas do gibi. Publicada originalmente nos EUA como uma minissérie mensal de oito partes, Corpos poderia muito bem ser condensada em seis edições. Se para o leitor brasileiro, que tem seu primeiro contato com a história em um encadernado único, a leitura já se estende e se perde demais, imagino a dificuldade para o leitor americano.

Si Spencer até tem uma história interessante para contar. E isso fica claro para o leitor ao término da HQ, quando são dadas pistas sobre a identidade do cadáver e começamos a juntar as peças do quebra-cabeça percebendo as conexões entre os diversos períodos retratados em Corpos e como o autor está falando de muito mais do que um assassinato atemporal. A história é recheada de símbolos e elementos míticos e psicogeografia da Inglaterra, além de conflitos e problemas mostrados do ponto de vista dos ingleses e, embora isso atribua mais qualidades ao texto de Si Spencer, para o leitor brasileiro, alheio a tais detalhes, boa parte dos méritos da HQ podem passar desapercebidos.

Se você é um leitor que procura uma boa história de mistério, Corpos pode não ser uma boa pedida, pois se estende demais e esconde as pistas até o final, chegando a uma conclusão que pode não ser aquilo que você espera. Mas se você é um daqueles leitores que pesquisa referências e gosta de ler e reler suas HQs tentando encontrar detalhes que não percebeu na leitura anterior, o intrincado romance gráfico de Si Spencer sobre as origens da Inglaterra e as características que moldaram o país e seu povo pode render boas horas de leitura explorando as ruelas que se espalham pela paisagem física e psíquica de Londres.

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