Críticas

Blade Runner 2049 (2017)

A tão aguardada continuação do clássico absoluto da ficção científica não decepciona nas mãos de Villeneuve e ganha uma estética que condiz com a proposta!

Blade Runner 2049
Original:Blade Runner 2049
Ano:2017•País:EUA
Direção:Denis Villeneuve
Roteiro:Hampton Fancher, Michael Green
Produção:Ridley Scott
Elenco:Ryan Gosling, Robin Wright, Ana das Armas, Harrison Ford, Jared Leto, Carla Juri

A tão aguardada e badalada continuação do clássico absoluto da ficção científica Blade Runner, de 1982, não decepciona, nas mãos de Denis Villeneuve (A Chegada), e ganha uma estética que condiz com a proposta do roteiro que se passa 30 anos depois dos acontecimentos de 2019.

Em Blade Runner, em todas as suas versões, uma dúvida sempre ficou no ar: seria o detetive Deckard um replicante ou não? O final da versão Final Cut de 2007 (entre outras cenas) reforça essa questão. Replicantes, como o próprio nome sugere, são uma espécie de réplica dos humanos, criados para tarefas nocivas na terra e fora dela. Nesta continuação, vemos um novo personagem, um Blade Runner – o replicante K (Ryan Gosling), que tem a missão de ‘aposentar’, diga-se, eliminar outros replicantes que saíram dos padrões impostos pela nova geração, produzida por Niander Wallace (Jared Leto), teoricamente mais obedientes aos humanos. No meio de seu trabalho, K descobre pistas que vão ligar os acontecimentos com o filme de 1982, e consequentemente com o personagem de Deckard (Harrison Ford).

O roteiro, escrito por Hampton Fancher (responsável pela versão de 82) e por Michael Green (Alien Covenant), tem o cuidado de não se sustentar em seu antecessor e criar uma nova narrativa, com as ligações necessárias, porém com elementos totalmente novos na relação entre replicantes/humanos, criador e criatura, em uma evolução narrativa que acompanha o desenvolvimento dos novos personagens. A direção de Villeneuve é cuidadosa e sutil, sempre fazendo referência ao estilo noir, mas também com uma estética apurada que condiz com a evolução (pouco) tecnológica dos 30 anos que sucedem os acontecimentos do original. O mundo de Blade Runner 2049 está mais devastado, embora mais colorido pelas luzes de neon e por propagandas visuais. Villeneuve constrói pequenas referências, sutis ao filme anterior, funcionando não só como homenagem, mas pontos na narrativa que formam o elo entre os mesmos de forma sensível – sensibilidade esta percebida na maneira em que o cineasta trata o conceito de lembranças.

Enquanto no filme de 82, o personagem de Ford retrata um homem que parece perder sua humanidade, cada vez mais mecânico em suas ações, K, o personagem de Gosling, tem um olhar melancólico, e vemos o mesmo buscar essa humanidade em sua relação doce e virtual com Joi (Ana de Armas), uma espécie de replicante sem forma física, apenas um holograma, mas um conforto na vida vazia e sem alma de K. Alma, aliás, é o conceito que o personagem de Jared Leto, o Sr. Wallace, quer dar às suas criações – megalomaníaco – se comparando a Deus. Além desses personagens pontuais, Gosling consegue aliar sua inexpressividade à melancolia de seu personagem diante de tudo o que lhe acontece. Harrison Ford e Leto, mesmo com pouco tempo em cena, trazem a seus personagens o que se espera deles. Ford, já velho, o que de certa forma cai por terra a teoria sobre o mesmo ser um replicante, apesar de isso nunca ficar claro, está também amargurado, e apenas sobrevivendo na esperança de que algo ainda lhe aconteça. Leto faz o típico vilão poderoso, frio e forte em suas convicções, e por isso, perigoso para quem estiver contra ele.

O filme segue pontual em seu tom investigativo, onde acompanhamos o protagonista em sua busca por uma descoberta que pode mudar toda a concepção da relação entre humanos e replicantes. As cenas de ação do filme, que acontecem em poucos momentos, têm seu destaque, como o embate entre K e Luv (Sylvia Hoeks), a eficiente e letal secretária de Wallace.

Em paralelo a esta narrativa do filme, vemos a evolução da reflexão proposta no primeiro filme, onde o personagem Roy Batty, o replicante interpretado por Rutger Hauer, havia dito “Esses momentos vão se perder, no tempo, como lágrimas na chuva”, momento em que notamos características humanas no personagem e que são enaltecidas neste novo Blade Runner, que trilha para uma bela e sensível conclusão.

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