Críticas

O Túmulo Vazio (1945)

Além da direção de Robert Wise, conta com dois dos maiores ícones do horror de todos os tempos, Boris Karloff e Bela Lugosi, no último filme em que atuaram juntos

O Túmulo Vazio
Original:The Body Snatcher
Ano:1945•País:EUA
Direção:Robert Wise
Roteiro:Robert Louis Stevenson, Philip MacDonald, Val Lewton
Produção:Val Lewton
Elenco:Boris Karloff, Bela Lugosi, Henry Daniell, Edith Atwater, Russell Wade, Rita Corday, Sharyn Moffett

É através do erro que o homem se levanta. É através da tragédia que ele aprende. Todos os caminhos do aprendizado começam na escuridão e se dirigem para a luz.” – Hipócrates de Cós

Durante a década de 1940, um nome que se destacou dentro do cinema de horror foi o do produtor russo Val Lewton, da RKO, um especialista em trabalhar com orçamentos pequenos, filmes “B” com cenários aproveitados de outras produções, metragens curtas, e compensando a falta de recursos com criatividade e talento. Responsável por uma série de filmes de horror psicológico como Cat People (42), I Walked With a Zombie (43), The Curse of the Cat People (44), Isle of the Dead (45) e Bedlam (46), infelizmente sua morte prematura aos 47 anos de idade em 1951 o impossibilitou de participar de projetos maiores e com mais recursos.

Um dos principais filmes de sua curta carreira é O Túmulo Vazio (The Body Snatcher, 45), de pequena metragem (apenas 73 minutos), fotografia em preto e branco, e que já foi exibido na TV Cultura, de São Paulo, em versão original com legendas em português.

O filme apresenta alguns fatores diferenciais que o colocam como destaque do cinema fantástico produzido há mais de meio século. Além de ser dirigido por Robert Wise (1914-2005), o mesmo cineasta de clássicos como O Dia Em Que a Terra Parou (51) e Desafio ao Além (63), além de O Enigma de Andrômeda (71) e Jornada nas Estrelas – O Filme (79), o filme é baseado no conto “Ladrão de Cadáveres”, do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894), autor de “O Médico e o Monstro” (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde), e tem a participação ilustre de dois dos maiores ícones do horror de todos os tempos, Boris Karloff (1887-1969) e Bela Lugosi (1882-1956), no último filme em que atuaram juntos.

A história é ambientada em Edinburgo, Grã-Bretanha, em 1831, onde sepulturas eram profanadas e cadáveres eram roubados para serem utilizados em experiências científicas e demonstrações de aulas de anatomia do médico e professor Dr. Wolfe MacFarlane (Henry Daniell), conceituado chefe de uma escola de medicina. A matéria-prima para seu trabalho era fornecida ilegalmente pelo misterioso cocheiro John Gray (Boris Karloff), que possui uma história obscura e em comum com o Dr. MacFarlane, com quem também teve desavenças no passado.

Enquanto isso, um jovem médico chamado Donald Fettes (Russell Wade) é convidado para ser o novo assistente do Dr. MacFarlane, e ele intercede junto ao famoso professor para realizar uma operação complicada em Georgina Marsch (Sharyn Moffett), uma menina paralítica vítima de um acidente de carruagem, a pedido de sua mãe (interpretada por Rita Corday). Num primeiro momento, o Dr. MacFarlane rejeita o desafio da cirurgia, alegando priorizar seu trabalho como professor em vez de médico, onde teria que fazer antes da operação uma série de pesquisas científicas com dissecação, e não haviam cadáveres disponíveis para isso, uma vez que os cemitérios estavam mais bem guardados para evitar as profanações dos túmulos. Como o cocheiro Gray conseguiu um cadáver a força, assassinando uma cantora de rua, o médico foi convencido a operar a menina, num resultado que só seria conhecido próximo do desfecho da história.

Em paralelo, um ajudante do Dr. MacFarlane chamado Joseph (Bela Lugosi) descobre as ações criminosas de Gray e tenta suborná-lo. Porém, o cocheiro faz uma proposta enganosa de parceria, não para desenterrar corpos, mas para matar pessoas e vender seus cadáveres para os estudos científicos. A tentativa de acordo acabou resultando em uma briga mortal, numa cena antológica do cinema de horror, no último confronto direto entre os astros Boris Karloff e Bela Lugosi num mesmo filme.

O Túmulo Vazio ainda apresentaria um desfecho extremamente marcante quando numa terrível noite de tempestade, o Dr. MacFarlane é atormentado pelo fantasma de Gray no retorno para sua casa de carruagem, atravessando uma estrada escura e sinistra que lhe reservaria um destino trágico.

Curiosamente, o conto de Robert Louis Stevenson foi baseado num caso real onde a dupla de criminosos Burke e Hare vendiam cadáveres roubados para trabalhos científicos de um médico chamado Dr. Knox. Inclusive, esse fato real foi mencionado no filme, acrescentando que o Dr. MacFarlane foi preso no passado por ser o assistente do Dr. Knox, o médico que comprava os corpos profanados de seus túmulos, e que Gray testemunhou falsamente por dinheiro em seu favor no julgamento, livrando-o da prisão. A mesma história de O Túmulo Vazio foi também explorada em outros filmes seguintes como A Carne e o Diabo (The Flesh and the Fiends, 60), dirigido por John Gilling e com outro time de astros: Peter Cushing como o médico anatomista e Donald Pleasence como o ladrão de cadáveres, além de Burke and Hare (71), de Vernon Sewell, e de The Doctors and the Devils (85), de Freddie Francis, e com Timothy Dalton, Jonathan Pryce, Julien Sands e Stephen Rea.

O nome nacional escolhido para o filme até que não é ruim, pois O Túmulo Vazio tem relações diretas com a história, porém o ideal e mais correto seria apenas traduzir o original “The Body Snatcher” para “Ladrão de Cadáveres“.

“Você nunca conseguirá se libertar de mim…” – Gray (Karloff) para Dr. MacFarlane (Daniell)

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