A Deusa da Vingança (2016)

A Deusa da Vingança
Original:Sam Was Here
Ano:2016•País:França, EUA
Direção:Christophe Deroo
Roteiro:Christophe Deroo, Clement Tuffreau
Produção:Christophe Deroo, Gary Farkas, Clément Lepoutre, Katya Mokolo, Olivier Muller, Vixens
Elenco:Rusty Joiner, Sigrid La Chapelle, Rhoda Pell, Hassan Galedary

O ser humano passa sua vida com medo. Este sentimento pode ser generalista como o medo do escuro que temos quando criança e que em alguns casos seguem pela vida adulta. O medo do escuro representa o temor pelo desconhecido, aquilo que está impossibilitado de ser visto pela ausência de luz. Também podemos destacar alguns medos que dialogam com a vida cotidiana nas grandes cidades como a violência urbana. Atualmente, até novas tecnologias podem provocar temor nas pessoas. Basta imaginar um rumor espalhado via redes sociais e o estrago desta fofoca virtual na vida da pessoa.

O medo é a matéria prima para o cinema de terror. Não por acaso existem tantas possibilidades de reconhecimento deste sentimento nos mais diferentes tipos de produções. Um exemplo recente recebeu o título em português de A Deusa da Vingança. O título em inglês é Sam was here, traduzido literalmente como Sam esteve aqui, é algo não explicativo e em aberto. E extremamente funcional por se tratar de um filme de terror.

O filme acompanha a rotina de Sam (Rusty Joiner), um vendedor que chega em uma minúscula cidade no meio do deserto. Não demora muito para perceber que existe algo errado no lugar, que está completamente vazio. Não existem pessoas nas ruas, nas casas e até mesmo no motel no qual ele decide passar a noite. O único sinal de que existe vida nos arredores é através do rádio, que transmite o Programa do Eddy, no qual o locutor fala das últimas notícias enquanto as pessoas ligam para reclamar de qualquer coisa.

Um dos principais assuntos do Programa do Eddy daquele é uma caçada a um serial killer que foi visto pelas redondezas, o que poderia até justificar a ausência de pessoas que estariam escondidas do tal assassino. O primeiro ponto de destaque do filme é justamente esta ambientação na qual o personagem se encontra. Completamente deserta, existe algo de muito estranho naquela cidade e este sentimento apenas aumenta com o passar do filme. A direção e o roteiro de Christophe Deroo são extremamente eficientes e não se apressam em passar estas informações permitindo que o medo seja construído justamente na estranheza da situação.

O filme segue até que Sam finalmente encontra uma pessoa na cidade. Trata-se de um policial que atira contra ele para matar. Ferido, Sam consegue fugir. Sem entender o que está acontecendo, vai até uma das casas onde o policial consegue encontrá-lo. Não existe explicação e muito menos uma compreensão do que está acontecendo. Sam tenta fugir, mas suas tentativas são inúteis. Aliás, o público se compadece pelo personagem justamente pela sua situação. Desde o começo do filme ele se mostra uma pessoa do bem e esforçada querendo voltar para a família e deixar aquele emprego. O público passa a gostar de Sam, que é atencioso e educado, mesmo quando não encontra ninguém nos lugares. Ele deixa dinheiro no motel vazio com bilhetes dizendo que ele esteve naquele local.

Com o avançar do filme, Sam começa a receber mensagens ameaçadoras e de acusação no seu page. Ao chegar em uma das casas, encontra uma carta enviada pelo Programa do Eddy na qual a população local é alertada a fugir do protagonista uma vez que ele é bastante perigoso. A carta também diz para se possível matá-lo. De repente a cidade já não está tão deserta e todos querem matar Sam.

Para completar, o Programa do Eddy transmite ao vivo não apenas os detalhes da caçada ao protagonista, mas reforça o discurso de Sam ser uma pessoa extremamente perigosa e precisar ser morta o mais rápido possível. Esta segunda metade do filme também é mostrada de forma assustadora e bastante tensa por Deroo, que aposta agora no nosso medo pelo que está por vir em uma trama que parece caminhar cada vez mais para um final trágico.

Parte do resultado positivo de Sam was here vem justamente da facilidade em Deroo trabalhar com o elemento medo. Este está presente inicialmente na cidade vazia e na sensação de estranheza que existe algo errado acontecendo. Posteriormente temos o medo através do controle ou influência do Programa do Eddy nas ações tomadas pela população. Tudo segue orquestrado pelo medo do desconhecido uma vez que não sabemos quem são aquelas pessoas e do que elas são capazes.

O trabalho de Deroo também é eficaz em não trazer todas as respostas. Aqui o medo existe ao lado da dúvida e neste quesito Sam was here se mostra como um excelente trabalho. Claro que parte dos fãs do gênero pode não gostar de algumas pontas deixadas abertas como a identidade e motivação de alguns personagens e até uma estranha luz vermelha que aparece no céu.

SPOILER!!! SPOILER!!! SPOILER!!! SPOILER!!! SPOILER!!! SPOILER!!!

Uma das possíveis conclusões de Sam was here, mas que nunca foi confirmada pelo seu diretor é o fato de Sam estar morto, dele ser culpado e aquela ação se passar no inferno. Eddy seria uma figura representativa ao diabo e as pessoas da cidade apenas seus subordinados ou almas atormentadas a seguirem seus comandos. Existem dois pontos que podem sustentar esta leitura. O primeiro é referente a estranha luz vermelha que funcionaria como alusão ao inferno enquanto o segundo é uma gravação de uma entrevista feita por Eddy com a esposa de Sam que afirma que o marido está morto.

FIM DO SPOILER!!! FIM DO SPOILER!!! FIM DO SPOILER!!! FIM DO SPOILER!!!

O próprio Deroo simplesmente declarou que entender o longa não é o mais importante, e sim acompanhar sua atmosfera. E neste aspecto, estamos diante de um trabalho realmente interessante justamente por fugir de uma fórmula pronta e conseguir provocar sensações diante das ações mostradas. Sam é realmente inocente? Existe uma grande injustiça em tudo o que está sendo mostrado? Qual o segredo daquela cidade? Quem é Eddy? Ao final, cada um deve escolher pela sua conclusão ou possível interpretação.

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Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista com Mestrando em Comunicação. Fã de Cinema, mas com gosto especial para filmes de Terror. Para ele, o gênero vai muito além de sangue e morte.

7 comentários em “A Deusa da Vingança (2016)

  • 02/06/2018 em 20:42
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    Acabei de assistir. Muito bom. Te faz pensar. Certamente 4 caveiras.

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  • 23/03/2018 em 22:39
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    Esse filme é MUITO interessante e diferente, gostei muito! A minha teoria é que SPOILER ele realmente cometeu o crime (estupro e assassinato daquela garota no motel) e aquelas pessoas que ele mata no caminho foram pessoas mortas por ele de verdade, talvez em sua fuga, e ele foi morto ou cometeu suicídio e estaria no purgatório. O tal Eddy seria o próprio demônio. SPOILER Enfim, é um bom filme porque te induz a pensar e formular teorias.

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  • 22/03/2018 em 17:22
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    [COMENTÁRIO COM SPOILER]

    Excelente filme. No final, essa foi a minha teoria: ele esta no inferno

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  • 19/03/2018 em 13:17
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    Grande filme! Daria uma nota até melhor, 4 caveiras!

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  • 18/03/2018 em 16:50
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    ɴãᴏ ᴀᴄʀᴇᴅɪᴛᴏ ǫ ᴇxɪsᴛᴇ ɢᴇɴᴛᴇ ǫ ᴅá 3 ᴇsᴛʀᴇʟᴀs ᴇ ᴍᴇɪᴀ ᴘʀᴀ ᴇssᴇ ʟɪxᴏ ᴅᴇ ғɪʟᴍʀ! :\

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    • 18/03/2018 em 20:11
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      Não sei se notou: não são estrelas, são três caveiras e meia; e sim, o filme é bacana.

      Resposta

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