Críticas, Literatura

O Escravo de Capela (2017)

Nesse cenário de horror entre o canavial, a senzala e a casa grande se desenrola uma narrativa assustadora

O Escravo de Capela
Original:
Ano:2017•País:Brasil
Autor:Marcos DeBrito•Editora: Faro Editorial

“Quando a morte é apenas o começo para algo assustador”

Não há dúvidas de que Marcos DeBrito vai solidificar seu nome no cenário do terror nacional. Seu nível de profissionalização é algo pouco visto na nova geração de escritores e ele tem, em minha opinião, algo indispensável para ocupar o status de se ser um dos melhores escritores nacionais de sua geração. Marcos DeBrito te convence que a história dele é real.

Ganhar a confiança do leitor é algo difícil, demora certo número de páginas para convencer que o seu texto diz a verdade, não importa quão absurda ela seja. O tema abordado nesse livro requer muita pesquisa, pois retrata do período colonial, folclore, escravidão e uma fazenda açucareira, mas aviso que já nas primeiras páginas estamos completamente convencidos de que a ficção de O escravo da Capela é real e a verossimilhança assusta.

“Cada página é como um golpe cruel de chicote. E sai muito Sangue!” (Raphael Montes – Autor de Dias perfeitos e Jantar Secreto)

A escolha de palavras beira a perfeição e o vocabulário é um dos elementos utilizados para inserir o leitor dentro da história. Esse poder de convencimento que o escritor exerceu sobre mim criou um clima de muito suspense e se o cotidiano brutal dos escravos era verdade o sobrenatural também podia ser.

O livro se passa no final do século dezoito, auge da era colonial brasileira, em uma fazenda de cana de açúcar. A fazenda Capela, controlada pelas mãos sádicas da família Cunha Vasconcelos, é mantida pelo abominável regime de escravidão.

“A ponta do látego abriu a primeira estria de sangue no dorso desnudo do jovem prostrado. Seu berro foi sentido por todos os negros já marcados por aquele mesmo chicote. O estalo antecedia cada nova chaga que era cavada.”

Nesse cenário de horror entre o canavial, a senzala e a casa grande se desenrola uma narrativa assustadora. Tive que tomar cuidado para impedir que lágrimas manchassem as páginas, pois não são raras as cenas onde a brutalidade humana é usada como fonte de terror e é impossível não se emocionar diante do sofrimento dos escravos.

Além de senhores de engenho cruéis, a fazenda Capela abriga segredos de família, rivalidade entre irmãos e um improvável relacionamento amoroso, e nela a lenda do Saci é remontada. Esqueça a figura travessa das histórias infantis, esse Saci é forjado a partir da brutalidade humana e é movido pela vingança.

“Um clarão trepidante, tal qual o de labaredas flamejando, veio do lado de fora da janela e devorou repentinamente as sombras impregnadas nas paredes. Irineu, mais próximo à moldura de madeira, virou-se assustado e pôde ver o animal maldito a poucos metros de si.”

No penúltimo capitulo achei que as explicações para os acontecimentos foram em excesso e para mim não eram necessárias. Mas tenho orgulho em dizer que o melhor livro que li esse ano, até o momento, é nacional. Poucos livros de terror têm o poder de emocionar como O Escravo de Capela, e ainda conseguir manter o suspense ao longo da narrativa.

Marcos DeBrito já é um cineasta premiado e, com a publicação de seu terceiro livro pela Faro Editorial, reafirma seu talento já visto no cinema e em outras obras literárias. A qualidade gráfica do livro impressiona e o resultado final é muito bonito. A capa e a diagramação são de Osmane G Filho e o livro traz também ilustrações do talentoso Ricardo Chagas.

O autor me enviou um livro autografado para sortear entre os leitores do Boca do inferno. Para participar compartilhe a resenha no facebook com a #EscravodeCapela na postagem e marque três amigos amantes de terror.

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