
![]() Futuro Futuro
Original:Futuro Futuro
Ano:2025•País:Brasil Direção:Davi Pretto Roteiro:Davi Pretto Produção:Paola Wink, Jessica Luz Elenco:Zé Maria Pescador, João Carlos Castanha, Carlota Joaquina, Clara Choveaux e Higor Campagnaro |
Como imaginar o futuro quando nem mesmo o passado existe? É dessa ausência que nasce Futuro Futuro. Ao acompanhar um homem sem memória em um centro urbano brasileiro suspenso entre o real e o fantástico, o filme tenta discutir pertencimento, afeto e desigualdade social. A proposta é instigante, mas sua execução acaba se perdendo em uma narrativa contemplativa demais para o pouco que desenvolve.
O filme começa e vemos “K” (Zé Maria Pescador, Sonhos de Peixe, 2006), um homem que desperta sem lembranças e passa a vagar por uma cidade que parece incapaz de lhe oferecer qualquer sensação de pertencimento. O longa pouco se interessa em explicar as regras de seu universo ou as implicações de sua premissa de ficção científica, preferindo concentrar seus esforços na jornada emocional do protagonista. A escolha seria válida se esse drama tivesse a força necessária para sustentar a narrativa. K permanece mais como uma ideia do que como um personagem plenamente desenvolvido, e sua busca por identidade dificilmente cria a conexão emocional que o filme parece esperar do espectador.
Essa mesma sensação de incompletude aparece na relação entre K e o homem mais velho que o acolhe, interpretado por João Carlos Castanha (Castanha, 2014). Existe delicadeza na convivência entre os dois, e Castanha entrega a atuação mais calorosa do filme, funcionando como um contraponto à apatia do protagonista. Ainda assim, o vínculo permanece apenas esboçado, como tantas outras ideias do roteiro, que parece sempre interromper seus conflitos antes que eles encontrem alguma profundidade.
Visualmente, porém, Futuro Futuro demonstra personalidade. A fotografia de tons frios e a direção de arte minimalista ajudam a construir uma atmosfera melancólica e reforçam o constante deslocamento de K. As sequências de sonhos e visões, criadas com imagens geradas por inteligência artificial, dialogam com a fragmentação de sua memória e ampliam o estranhamento da narrativa. Em alguns momentos, o recurso funciona como extensão do estado mental do personagem; em outros, a textura artificial das imagens chama mais atenção do que seu significado, comprometendo parte da imersão.
Embora utilize a ficção científica como ponto de partida, o filme também encontra espaço para comentar a divisão de classes. A cidade retratada é marcada por desigualdades perceptíveis na ocupação dos espaços e na condição errante de K. Enquanto alguns personagens ainda podem pensar no futuro, outros parecem condenados a sobreviver apenas ao presente. É uma leitura social interessante, embora também permaneça mais sugerida do que efetivamente desenvolvida.
Outro elemento recorrente é o polvo, cuja presença nunca recebe uma explicação objetiva. Talvez represente a memória fragmentada de K, talvez simbolize sua capacidade de adaptação ou apenas funcione como uma imagem onírica destinada a provocar estranhamento. A ambiguidade não incomoda; o problema é que o roteiro deixa essas imagens apenas no campo da sugestão.
No fim, Futuro Futuro deixa a impressão de que havia um filme muito mais interessante escondido sob sua própria proposta. A fotografia, a direção de arte e algumas escolhas simbólicas revelam um projeto ambicioso, mas o excesso de contemplação transforma boas ideias em uma narrativa morosa, incapaz de dar peso dramático aos personagens ou às questões que levanta. Quando os créditos sobem, permanece a sensação de que o filme confia demais na força de suas metáforas e de seu visual, esquecendo que, antes de tudo, precisa envolver o espectador. Talvez suas ideias encontrassem mais força em um formato mais conciso — quem sabe um média ou até um curta-metragem, onde a atmosfera prevalecesse sem ser diluída por um ritmo tão arrastado. Com apenas 86 minutos, Futuro Futuro parece bem mais longo do que realmente é. O resultado é uma obra tecnicamente competente, mas dramaticamente frustrante, que desperta curiosidade pela premissa e termina deixando mais perguntas do que reflexões.




