![]() Alien 2: sulla Terra
Original:Alien 2: sulla Terra
Ano:1980•País:Italia Direção:Ciro Ippolito, Biagio Proietti Roteiro:Ciro Ippolito Produção:Angiolo Stella Elenco:Belinda Mayne, Mark Bodin, Roberto Barrese, Benedetta Fantoli, Michele Soavi, Valeria Perilli, Danilo Micheli, Claudio Falanga, Donald Hodson, Ciro Ippolito, Peter Shepherd |
Bem antes dos famosos rip offs distribuídos pela notória The Asylum…
Já cabe aqui inserir uma primeira e pequena digressão destinada aos leitores mais desavisados: entre outras joias pouco lapidadas lançadas pela produtora The Asylum estão Transmorphers, 2007, cópia de baixíssimo orçamento de Transformers; The Terminators, 2009, variante de O Exterminador do Futuro; e até mesmo uma colaboração não-autorizada-ninguém-pediu Alien Origin, lançada em 2012, mesmo ano em que estreava nos cinemas o aguardado Prometheus.
De volta ao objeto deste texto, Alien 2 – Sulla Terra (em tradução livre, Alien 2 – Na Terra): décadas antes da Asylum, o cineasta italiano Ciro Ippolito (sob a marota alcunha de Sam Cromwell, mesmo nome de um famoso marinheiro executado nos EUA em 1842 por suspeita de motim) rodou seu plágio-homenagem Alien 2: Sulla Terra, sequência não-oficial do clássico dirigido por Ridley Scott em 1979, Alien – O Oitavo Passageiro. Importantíssimo reforçar, para que não haja dúvidas, a única conexão entre Alien 2: Sulla Terra e Alien – O Oitavo Passageiro está no título e no uso de alienígenas no enredo.
Reza a lenda que, além de levar muita gente enganada aos cinemas, a produção de Ippolito teria forçado os realizadores da continuação oficial (Aliens – O Resgate, rodada 6 anos depois) a evitar o título Alien 2, prevenindo assim qualquer confusão que favorecesse o ripp off italiano.
O fato é que a 20th Century Fox entendeu que os responsáveis por Alien 2 – On Earth (título adotado nos cinemas americanos) agiram de má-fé e infringiram as leis de direitos autorais ao utilizar o termo alien no título. No entanto, Ciro Ippolito e seus amigos saíram vitoriosos no processo judicial movido pelo estúdio americano, pois foi comprovado que a nomenclatura já havia sido utilizada anteriormente, sendo pela primeira vez na literatura em The Alien Intelligence, de Jack Williamson, novela publicada em duas partes na revista Science Wonder Stories, no ano de 1929.
The Alien Intelligence marca a primeira utilização da palavra alien para definir entidades extraterrestres na ficção científica. Antes disso, a palavra era mais associada a estrangeiros, enquanto seres de outro planeta eram chamados de martians ou venusians (marcianos ou venusianos). Anos depois, o termo alien se popularizou com a explosão do sci-fi na literatura pulp e o boom dos filmes do gênero em Hollywood.
Mas curiosa e, ironicamente, Ciro Ippolito chegou a declarar em entrevistas que os realizadores de Abismo do Medo (The Descent, 2005) haviam plagiado o seu enredo que colocava um grupo de pessoas em uma caverna sendo caçadas. Um possível processo judicial por suposta similaridade dos roteiros chegou a ser cogitado, porém, não prosperou. O que fica aqui é uma dica para os infernautas, se ainda não viram, assistam imediatamente o ótimo Abismo do Medo, de Neil Marshall.
Segundo Ciro Ippolito, a inspiração para Alien 2: Sulla Terra teria surgido quando o diretor viu um pôster de Zombi 2 (também conhecido como Zombie, 1979). Obviamente pesou a informação de que o longa-metragem, dirigido por Lucio Fulci e apresentado como uma continuação do americano Despertar dos Mortos (dirigido por George Romero em 1978), havia alcançado um bom resultado nas bilheterias italianas. Ippolito então arriscou uma jogada semelhante, tentando se beneficiar da enorme popularidade de Alien – O Oitavo Passageiro. Cabe aqui outra ponderação: apesar do fator oportunismo, Zombi 2 permanece, sem exagero, a melhor sequência não oficial da história do cinema de horror.
Em relação à trama, escrita pelo próprio Ippolito, ela é simples e tenta ser funcional – o que consegue, pelo menos em partes. Tudo começa em um período em que o mundo todo espera ansioso a volta de uma sonda espacial que teria viajado até as profundezas do espaço, alcançando as extremidades do universo conhecido pelo ser humano. Enquanto isso, a exploradora Thelma Joyce (interpretada por Belinda Mayne) explica em um programa de televisão os motivos que a levam a desbravar, junto com sua equipe, ambientes selvagens e perigosos como cavernas e abismos. E eis que, de maneira abrupta e sem qualquer explicação, a jovem sofre um mal-estar e entra em uma espécie de transe premonitório, alertando todos ao redor sobre uma tragédia iminente.
Quando a sonda cai no oceano, a humanidade é surpreendida pelo desaparecimento dos astronautas. Enquanto isso, uma rocha de coloração azul e origem desconhecida é achada por uma criança que brinca em uma praia próxima. Passam alguns instantes e vemos uma mulher desesperada encontrar a mesma criança, ainda viva, mas com o rosto completamente desfigurado. Por um acaso do destino e conveniência de roteiro, Burt, um membro da equipe de Thelma, também se depara com uma destas pedras. Ele decide levar com ele o objeto em sua próxima exploração: uma gigantesca e milenar caverna. Além da escuridão e dos desafios esperados da expedição, o perigo que o grupo está prestes a enfrentar está longe de ser uma ameaça natural.
Contudo, mesmo considerando todo o pacote decorrente do baixo orçamento que faz de Alien 2: Sulla Terra uma produção genuinamente B, algumas decisões do roteiro chamam atenção pela falta de lógica. Uma destas decisões está relacionada a uma condição essencial para o enredo: a localização das pedras azuis. Aliás, pedras estas de onde emergem as criaturas extraterrenas, em uma referência direta aos ovos esverdeados da franquia oficial Alien. O esperado seria que essas pedras fossem encontradas no fundo da caverna, e não levadas até lá, sabe se lá o porquê, como acontece na trama.
Já a proposta central do enredo, o confronto entre um monstro de outro planeta e um grupo de humanos em um ambiente claustrofóbico como os túneis de uma gruta não é ruim; nas mãos certas, poderia sim render um bom filme.
Outra decisão um tanto questionável diz respeito a escolha do cenário para o ato final. Alerta de spoilers:
…após escapar da criatura, o casal protagonista retorna à cidade. O nonsense é que em vez de buscar qualquer ajuda, seja do exército, da polícia, dos bombeiros ou simplesmente se esconder em casa, o casal segue para o clube de boliche, local onde a equipe costumava se reunir antes. E justamente ali, no ambiente mais improvável, que o filme decide encerrar sua história.
É um ponto negativo também o uso de sequências quase documentais que nada acrescentam a narrativa. São trechos que mostram personagens simplesmente se deslocando de carro ou explicam, de maneira didática e desnecessária, o funcionamento dos equipamentos do boliche – tanto no início quanto no encerramento. É possível supor que essas passagens foram incluídas apenas para inflar a duração do longa, que em seu corte final não chega sequer aos 90 minutos. O resultado é um ritmo irregular, marcado por alguns momentos um tanto enfadonhos.
De positivo, ao menos duas cenas mais violentas se destacam. A primeira delas é o impactante rosto destruído da garotinha na praia – uma cena breve em que o gore extremo está em apenas um frame, mas que é muito eficiente na antecipação do horror que estaria por vir. Já entre uma dúzia de aliens explodindo cabeças humanas, há uma sequência particularmente interessante: dentro da gruta, um dos personagens permanece pendurado no teto, de cabeça para baixo, enquanto a criatura o devora lentamente. O pescoço é corroído até que a cabeça se desprende e despenca no chão, num efeito simples, porém inventivo e original.
Ainda vale ressaltar as inesperadas composições musicais que estruturam a trilha sonora. Arranjadas e produzidas pelo grupo de rock progressivo Goblin – parceiro recorrente do cineasta Dario Argento, responsável pelas marcantes trilhas sonoras de Suspiria (1977) e Phenomena (1985) – as canções misturam sintetizadores e instrumentos de corda mais tradicionais, como o violão. É uma combinação que consegue ser atmosférica em alguns momentos e provocar estranhamento em outros, quando soa claramente deslocada.
Como curiosidade, temos também a presença no elenco do jovem Michele Soavi, como Burt (o rapaz que encontra a pedra). Soavi se tornaria diretor de grandes filmes do gênero, como O Pássaro Sangrento (1987), A Catedral (1988) e o extraordinário Pelo Amor e Pela Morte (1994). Já Ciro Ippolito tem em Alien 2: Sulla Terra seu trabalho mais conhecido e o único dentro do gênero horror. Em tempos, originalmente, o cineasta Biagio Proietti deveria dirigir Alien 2, mas acabou substituído por Ippolito pouco antes do início das filmagens.
Apesar de conhecido entre os fãs mais dedicados do gênero horror, Alien 2: Sulla Terra acabou relegado a um certo limbo cinematográfico, especialmente no Brasil. Não há registros que ele tenha sido projetado nas telas grandes por aqui, tampouco distribuído em VHS ou lançado oficialmente em mídias digitais (DVD ou Blu-ray).
Por outro lado, a sua reputação de polêmico – graças à autodenominação sequência de Alien, O Oitavo Passageiro – e de raro, já que só pode ser encontrado por meios pouco convencionais (importar uma mídia física, descumprir alguma lei e caçar um download pela internet ou ainda, assistir em dublado em inglês no Youtube) , acabou conferindo ao longa uma aura de clássico obscuro, tornando-o uma obra que sobrevive mais pela controvérsia do que pela qualidade, um tanto discutível, é claro.
Enfim, por mais questionável que soe, Alien 2 é um filme ruim que vale ser visto por quem curte o gênero fantástico e horror, principalmente as produções italianas do final dos anos 70 e início dos anos 80. Este que vos escreve até se divertiu, mas pode ser que como avisa a mensagem antes dos créditos finais, ele já esteja contaminado:
Ora puó colpire anche te!
(Agora você também pode ser contaminado!)







