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Godzilla Minus Zero
Original:Godzilla Minus Zero
Ano:2026•País:Japão
Direção:Takashi Yamazaki
Roteiro:Takashi Yamazaki
Produção:Gô Abe, Minami Ichikawa, Kazuaki Kishida, Keiichiro Moriya, Taichi Ueda
Elenco:Minami Hamabe, Jun Kunimura, Ryûnosuke Kamiki, Masami Nagasawa, Sakura Andô, Yuki Yamada, Hidetaka Yoshioka, Munetaka Aoki, Kuranosuke Sasaki, Min Tanaka

Em 2023, Godzilla Minus One (Gojira Mainasu Wan) surpreendeu o mundo com sua trama séria, realista e carregada de política, ambientando-se no Japão pós-Segunda Guerra Mundial e, de certa forma, retomando o espírito do longa original, Godzilla (Gojira, 1954), o filme sobre a bomba atômica por excelência. Também chamou a atenção pela qualidade dos efeitos visuais, especialmente considerando-se seu orçamento modesto em comparação com produções similares de Hollywood. Ter sido lançado entre os abacaxis ocidentais Godzilla vs. Kong (2021) e Godzilla e Kong: O Novo Império (Godzilla x Kong: The New Empire, 2024) apenas fez acentuar essas qualidades. O resultado: aclamação global, um lucro de cerca de 100 milhões de dólares e um merecido Oscar de Efeitos Visuais, além de diversos outros prêmios ao redor do mundo.

Com tudo isso, é natural que a expectativa para seu sucessor, Godzilla Minus Zero (2026), seja enorme. Também por isso, o novo filme tem potencial para desagradar muita gente. Começa pelo fato de que ele não é, e nem tenta ser, tão realista quanto o anterior (mas será que faz sentido cobrar realismo de uma franquia de ficção científica/fantasia/terror)? Ele expande, sim, a mitologia dessa versão do lagartão, e para isso toma caminhos que o distanciam da narrativa mais contida de Godzilla Minus One. Bem, isso é o que de praxe acontece com sequências – maior, mais caro, mais complexo! -, e o orçamento agora parece ter sido bem mais generoso. Ao mesmo tempo que isso possibilita voos maiores, também tira um pouco da qualidade “artesanal” – por falta de palavra melhor – vista no antecessor.

Se, por um lado, tínhamos uma economia de sequências de destruição em terra firme no longa de 2023, com boa parte das aparições de Godzilla limitando-se ao oceano, agora são as cidades o principal cenário da devastação provocada por ele e pelo segundo kaiju presente (nota: o próprio diretor do filme, Takashi Yamazaki, fez diversos apelos antes da sessão para a imprensa a fim de que não entregássemos spoilers, portanto estou sendo ainda mais cauteloso do que de costume). Com isso, a sombra das bombas atômicas das quais Godzilla é alegoria se faz ainda mais evidente. Por outro lado, fiquei surpreso com o quão pouco do Godzilla temos no filme.

Outro tema também muito presente é sacrifício. Enfrentar o medo e abrir mão da sua felicidade e segurança em nome da felicidade e segurança coletivas é uma mensagem poderosa, essencial em uma era de tamanho individualismo como a nossa, e é muito bem trabalhada aqui. Kôichi Shikishima (Ryûnosuke Kamiki), o piloto kamikaze hesitante e atormentado do filme anterior, precisa decidir se volta a voar, arriscando-se a não retornar à sua família. Sua esposa, Noriko (Minami Hamabe), vê seu próprio corpo se tornar primordial para a salvação do Japão após a inesperada ressurreição de Godzilla. Biólogos, estrategistas e até a meteorologista Makoto Aoyama (Masami Nagasawa) enfrentam dilemas morais ao terem que lidar agora com dois kaijus. Por mais que seja para ver os monstros que nós pagamos o ingresso, nenhuma história como essa se sustenta apenas com as criaturas: é o drama das pessoas que ancora nossa empatia na ficção. Foi principalmente nisso que os dois últimos filmes ocidentais do Godzilla falharam, ao apresentarem personagens humanos insuportáveis.

Passando-se em 1949, período em que o Japão estava sob ocupação dos EUA e proibido de possuir um exército, Godzilla Minus Zero não poupa críticas aos americanos. Pedir ajuda aos responsáveis pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki é o equivalente a fazer um pacto com o diabo, e uma hora ele irá cobrar.

Godzilla Minus Zero é mais um caso de filme que deveria ser mais curto do que é. Poderia ter um ritmo mais bem equilibrado e evitar certas passagens morosas. Já a trilha sonora continua certeira: clássica, épica, ilustrando com perfeição o sentimento de maravilhamento misturado a pavor que um monstro gigante é capaz de provocar.

Agora, precisamos falar da fotografia. Uma das muitas maldições que o advento da IA lançou sobre artes visuais feito o cinema é que agora qualquer imagem em tom meio sépia fica com cara de algo gerado por ChatGPT. Isso é gritante aqui. Mas, quer saber? Se isso acabar forçando os cineastas a não aplicarem essa manjadíssima paleta de cores toda vez que vão retratar a primeira metade do século XX, até que vai ser benéfico.

O trailer anuncia que “tudo termina aqui”. A julgar pelos desdobramentos da trama, não parece que isso irá acontecer (inclusive, contrariando o apelo do diretor, porém a fim de evitar a decepção de vocês, preciso alertar que algumas imagens de divulgação se mostraram bastante enganosas). Independentemente do que o futuro reserva e de comparações com seu antecessor, Godzilla Minus Zero é mais um ótimo exemplar recente do lado oriental dessa franquia tão importante, amada e, aparentemente, atemporal.

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