3.2
(6)

Batalha dos Mortos
Original:I Am Omega
Ano:2007•País:EUA
Direção:Griff Furst
Roteiro:Richard Matheson, Geoff Meed
Produção:David Michael Latt
Elenco:Mark Dacascos, Geoff Meed, Jennifer Lee Wiggins

Primeiro vamos a uma rápida definição de Mockbuster. Sinal do fim dos dias, um Mockbuster é uma produção realizada com poucos recursos e muita, mas muita cara-de-pau; com a intenção clara de confundir os menos avisados e se passar por um arrasa-quarteirão (os chamados Blockbusters). Lançados diretamente em vídeo, pouco antes da estreia nos cinemas do “original”, os Mockbusters acabam conseguindo grande retorno financeiro, viabilizando assim a continuidade deste fascinante fenômeno que antigamente chamávamos de picaretagem.

Dentro deste novo gênero cinematográfico (tudo bem, a picaretagem é antiga no cinema, mas agora ela é industrializada e tem nome próprio), uma produtora americana vem se destacando (e por mais incrível que pareça, conquistando uma pequena legião de fãs): é a The Asylum.

Embora a produtora independente já tenha mais de dez anos, ela acabou se destacando em 2005, quando lançou a sua versão de Guerra dos Mundos (pouco antes do lançamento do longa homônimo de Spielberg, estrelado por Tom Cruise). Em seguida vieram versões genéricas de King Kong (The King of The Lost World, lançado no Brasil como King, O Rei das Selvas), Alien vs Predador (AVH: Alien vs Hunter), A Profecia (666 – The Child), uma genial mistura de Código da Vinci e A Lenda do Tesouro Perdido (The Da Vinci Treasure), Serpentes a Bordo (Snakes on a Train, neste caso trocando o avião por um trem) e Transformers (Transmorphes), entre outros (visite o site oficial da produtora).

Uma das pérolas da produtora é I Am Omega, adaptação do clássico de Richard Matheson, e que por coincidência chegou às locadoras norte-americanas no dia 20 de novembro de 2007, vinte dias antes do lançamento de Eu Sou a Lenda, versão de Hollywood para o mesmo livro, que foi lançado no Brasil pela FlashStar com o título Batalha dos Mortos.

Desta vez, a Asylum investiu alto e, pra fazer frente a Will Smith em Eu Sou a Lenda, contratou o astro havaiano Mark Dacascos (de Crying Freeman e Pacto dos Lobos). Dacascos vive Renchard, um homem que sobreviveu a uma catástrofe inexplicada que transformou a população em zumbis-mutantes. Atormentado pela morte da esposa e do filho, Renchard tenta manter a sanidade e sobreviver ao ataque das criaturas.

Em I Am Omega, o protagonista não é um cientista em busca da cura pra doença que assola a humanidade, como nas outras versões. Renchard parece mais um soldado lutador de kung fu, ainda que em nenhum momento se toque no assunto de sua profissão. Afinal, se o mundo acabou mesmo, pra que trabalhar?

Ao invés de vampiros como nas versões Eu Sou a Lenda (2007) e Mortos que Matam (1964), na leitura da Asylum os infectados são seres deformados parecidos com zumbis, mais próximos dos personagens de A Última Esperança Sobre A Terra (versão de 1971, com Charlton Heston). O problema está no modus operandi destas criaturas. Como não são sugadores de sangue, podem andar a luz do dia (embora as primeiras sequências nos dê a impressão que eles só aparecem à noite). O problema é aquele que atormenta a existência de todo e qualquer zumbi: a velocidade. Ok, eles não são zumbis, mas parecem. Eles correm como qualquer pessoa viva e com saúde conseguiria correr, mas quando se aproximam de suas vítimas, viram bobões cambaleando como os zumbis de Romero.

E surpreendentemente Dacascos leva algumas vantagens sobre os atores que protagonizaram as outras versões (Vincent Price, Charlton Heston e Will Smith). Dacascos sabe lutar, usar facões, granadas, metralhadores e pistolas. Isto o coloca um passo a frente de qualquer mutante que cruzar seu caminho. Mas também torna o filme um pouco monótono, já que as criaturas não representam perigo algum. Mas como devem imaginar, o último homem sobre a Terra não está sozinho, pois em determinado momento do filme aparecem outras pessoas não infectadas, inclusive uma linda garota com o mesmo rosto da mulher falecida de Renchard. Ao contrario das outras adaptações do livro de Matheson, é ela quem é imune a pestilência que transformou a humanidade em mutantes, e não o protagonista. E mais um detalhe bizarro sobre o desempenho de Dacascos: em algumas sequências, ele até tenta… chorar.

O cenário é um outro exemplo da “criatividade” da Asylum. Como os recursos são limitadíssimos, poucas cenas foram rodadas num ambiente urbano. Quase toda a ação transcorre em estradas desertas e construções isoladas. É lógico que tal artifício estraga o impacto de ver uma grande metrópole totalmente vazia. Mas melhor assim do que os CGIs desenvolvidos em 386s, característicos de outras produções da Asylum. Falando em economias, assim como Will Smith tinha um companheiro canino em Eu Sou a Lenda, Renchard também tem um. Mas ele só aparece num porta-retratos (imagino que o preço de um adestrador de cães esteja fora do orçamento de I Am Omega).

O próprio título I Am Omega é uma oportunista junção de I Am a Legend e The Omega Man (título original da versão de 1971). O ômega é a vigésima quarta e última letra do alfabeto grego etem aqui o significado de derradeiro, de único e último. Um outro detalhe é a capa do DVD americano, que mostra Dacascos em cima de um caminhão rodeado por milhares de zumbis; é óbvio que esta cena não existe no filme.

O roteiro foi copiado… ops, escrito pelo ator-lutador, astro de Kickboxer 5, Geoff Meed. E não é o primeiro trabalho do rapaz como escritor. Geoff traz em seu currículo o roteiro de Universal Soldiers (adivinhem cópia de qual filme?), também da Asylum. A direção ficou a cargo do jovem Griff Furst, que atualmente trabalha num projeto chamado Girls Gone Dead, uma “homenagem” à série Sexta-Feira 13.

Paradoxalmente, Batalha dos Mortos não é de todo ruim, principalmente quando consideramos todo o seu mecanismo de criação e produção. Apesar do roteiro ruim, elenco limitado, diretor fraco, trilha sonora irritante e poster muito mais interessante que o próprio filme, I Am Omega é, de certa maneira, uma diversão masoquista.

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