por Matheus Ferraz
O período entre a década de 70 e o comecinho da década de 90 foi precioso para os fãs do cinema fantástico italiano. Nesta época, mestres como Dario Argento, Michelle Soavi, Mario Bava, Lucio Fulci, Antonio Margheriti, entre outros, fizeram o grosso de sua filmografia, entre obras-primas e filmes menores. Mesmo filmes de diretores menos conhecidos da época, que não raro contavam com produções pobres e efeitos especiais risíveis, ainda hoje atraem a atenção do cinéfilo curioso. Foi um tempo em que o cinema exploitation viu de guerreiros nórdicos a naves espaciais, de artes marciais a filmes de guerra, de duelos de pistoleiros a assassinos de luvas negras. E uma atriz chamada Malisa Longo teve a oportunidade de experimentar de tudo um pouco neste maravilhoso mundo de peripécias cinematográficas.
Esta belíssima veneziana já trabalhou com uma diversidade impressionante de cineastas, como Frederico Fellini, Lucio Fulci, Tinto Brass e até Bruce Lee. Sua performance mais famosa, aliás, foi no filme O Voo do Dragão, onde faz o papel de uma italiana que seduz o personagem de Lee, com resultados hilariantes. Mas ela também esteve em produções de ficção científica, peplums, nazi-exploitations, polizieschi e, é claro, filmes de horror
Malisa, hoje uma escritora, jornalista e pintora de sucesso, conversou com o Boca do Inferno sobre seu trabalho nas telas e fora delas, revelando curiosidades sobre o cinema da época e aproveitando para alfinetar o mundo cinematográfico de hoje, bem diferente daquele em que fez sua carreira. Então, sem mais delongas, aqui está a entrevista.
Boca do Inferno: Um de seus primeiros papéis importantes foi em Perversion Story dirigido por Lucio Fulci, que ainda não era conhecido como o grande diretor que se tornaria. Vinte anos depois, você voltou a trabalhar com Fulci, que já havia se tornado célebre, naquele que seria o seu último filme, A Cat in the Brain. Foram experiências muito diferentes?
Malisa Longo: Sim. Perversion Story, foi um dos meus primeiros filmes com atores famosos. Pode imaginar a emoção. Me confrontar com eles, mesmo tendo um papel muito pequeno, foi excitante. Foi, sem dúvida, uma experiência fantástica, seja como vivência, seja como aprendizado. Naquela época eu não tinha ainda tido aulas de atuação, então para mim, qualquer coisa, mesmo os pequenos detalhes, eram importantes. A Cat in the Brain, por sua vez, foi como um epílogo, um cerco que se fechava, na experiência como atriz. Uma consolidação de carreira.
Boca do Inferno: Você teve um pequeno – mas importante – papel em A Cat in the Brain, que é, para mim, a obra-prima do mestre Fulci. Ele lhe deu este papel por que já tinham trabalhado juntos?
Malisa Longo: Um papel pequeno… mas como que de protagonista! Não acho que ele tenha me escolhido porque já tivéssemos trabalhados juntos. Creio que ele nem ao menos se lembrasse. Lucio Fulci não era um homem que se deixava levar por sentimentalismos, nem que trouxesse amigos para trabalhar. Isso não lhe interessava em nada. O que lhe interessava era o personagem dentro da harmonia do filme. Creio que tenha me escolhido porque eu era a atriz certa. Eu o deixava à vontade. E ele a mim. Este filme, aquele com Bruce Lee e Ilsa (nota: mais conhecido como Elsa: Fraulein SS) são aqueles que mais me fizeram conhecida no mundo. E também se, a parte Ilsa, nos outros dois não tive papéis grandes, de certo modo tenho orgulho deles.
Boca do Inferno: Olhando para a sua filmografia, se vê que você foi uma atriz prolífica. Entre 76 e 77 por exemplo, você atuou em cerca de 12 filmes, ou seja, um filme a cada dois meses. A maior parte foi em pequenas produções de ficção científica e cinema de gênero, e algumas participações em filmes maiores, como Salon Kitty. Como eram estas filmagens, em termos de tempo e recursos financeiros?
Malisa Longo: Bah, foi um momento muito bom profissionalmente, porque fiz filmes também como protagonista. A maior parte era de produções pequenas, e por isso o dinheiro não era muito. Se trabalhava muito, isso sim, até dez horas por dia. Já em Salon Kitty, o filme de Tinto Brass, tive um papel pequeno. Para mim mesmo assim foi um filme muito gratificante, porque atuei com atores do calíbre de Ingrid Thulin e Helmut Berger. Depois daquele filme, trabalhei mais duas vezes com Tinto Brass: em Miranda e Snack bar Budapest.
Boca do Inferno: Você foi dirigida por cineastas tão diversos como Brass e Bruce Lee, Antonio Margheriti e Frederico Fellini. Como conseguiu seguir caminhos tão diferentes?
Malisa Longo: Houve casos que, mesmo que eu quase tenha conseguido papéis importantes, e que o diretor me quisesse, não pude realizar. Um destes projetos foi Zabrieski Point de Michelangelo Antonioni.
Boca do Inferno: Você trabalhou com Antonio Margheriti quando tinha apenas 18 anos no giallo Naked you Die. Tem alguma lembrança deste cineasta?
Malisa Longo: Naked you Die foi um dos meus primeiros filmes. Não tenho recordações especiais. Mas me lembro que frequentava a família de Margheriti. Muitas vezes eu e meu noivo (atual marido) éramos convidados para jantar na sua casa em uma vila na Appia Antica. Hoje, continuo amiga de seu filho Edoardo.
Boca do Inferno: Como chegou aos nazi-exploitations da Eurocinè? Lhe ofereceram estes papéis por causa da sua participação em Salon Kitty?
Malisa Longo: Provavelmente. De qualquer forma tenho muito carinho a estes filmes. Interpretei em muitos fimes franceses, com som direto, e devo dizer que sempre me saí muito bem.
Boca do Inferno: Como foi sua relação com Bruce Lee?
Malisa Longo: Profissionalmente irrepreensível. Ele levava seu trabalho como diretor muito à sério e era muito perfeccionista, um grande trabalhador! Fora do set era um pouco diferente, nunca se atrasava, a não ser em alguns jantares. Era muito preocupado com a realização do filme.
Boca do Inferno: Quais projetos tem para o futuro? Pensa em retornar ao cinema?
Malisa Longo: O meu futuro é como jornalista, mas ainda mais como escritora e pintora. Como escritora, escrevi alguns roteiros e publiquei alguns livros, entre os quais o livro de poesia Il cantico del corpo; o romance Così come sono e uma coletânea de entrevistas com políticos sobre culinária Aggiungi un seggio a tavola. Atualmente estou trabalhando em outros dois projetos: um livro de poesias e um romance erótico. Como pintora, voltei a alimentar uma velha paixão minha. Quanto ao cinema, foi a minha primeira paixão profissional, e sempre o será. Claro que poderia voltar ao cinema, mas com quem? Objetivamente, não sou vista nas telas há um bom tempo, e há ainda mais tempo estou fora de um certo star system – como festas, relações públicas, coisas mundanas- e nem tenho mais um agente. Com a passagem dos anos, adquiri uma certa sabedoria. Vejo o mundo do cinema com mais afastamento, e certas coisas eu não gostaria de fazer. Claro! Me agradaria interpretar um bom papel, com densidade, adaptado à minha personalidade; dirigida por um diretor importante, mas sei que é difícil ou quase impossível atingir este objetivo. Da minha parte, também, me tornei muito mais exigente e crítica, também comigo mesma, e não quero desperdiçar meu tempo.
Por outro lado, nunca atingi o topo do sucesso internacional, ainda por cima não tive amantes, maridos importantes, e nunca estive ligada a nenhuma corriola poderosa. Nem ao menos fiquei famosa por fofocas, então cheguei rápido ao esquecimento. Quanto a projetos, devo acrescentar, nem os procuro mais. Um pouco por preguiça, um pouco por dignidade pessoal. Exatamente em nome desta dignidade, e porque os tempos mudaram, não estou mais interessada em me expor a testes humilhantes, onde os coordenadores de elenco são todos rapazinhos ignorantes em matéria de cinema, que decidem aquilo que querem, sem me dar condições de encontrar o diretor.
Houve uma época em que não era assim. Agora, para os papéis importantes, na maioria das vezes se faz testes sem propósito, porque já se sabe quem conseguirá o papel. Pode-se pensar que estou sendo presunçosa, mas este tipo de abordagem me incomoda. Não me agrada esta maneira de trabalhar, a meu ver pouco séria, e nada profissional. Preferi voltar às minhas velhas paixões, que atualmente me dão muita satisfação: escrever e pintar. Todavia, o cinema, mesmo que virtualmente, está me dando ainda muita satisfação, como demonstram as várias cartas que recebo, no Facebook e no meu site www.malisalongo.com .
Boca do Inferno: Bem, muito obrigado pelas respostas, e esperamos que continue seu trabalho, seja na tela, seja como escritora e pintora. Muitas felicidades!
Agradecimentos especiais a Rosana Junqueira







Pretty face!!!!Era uma atriz muito bonita!!!! valeu!!!!
belissima atriz e muito inteligente e lucida! sabe que hoje em dia o Cinema é um jogo de cartas marcadas e que existem panelinhas e sensacionalismo barato pra se manter em alta em Hollywood! Malisa é inteligente e e perspicaz e não se sujeita a babaquice e mesquinharia do cinema atual!!