![]() A Última Casa
Original:The Last House
Ano:2026•País:UK, França, EUA Direção:Louis Leterrier Roteiro:Matthew Robinson Produção:Louis Leterrier, Peter Chernin, Jenno Topping, Kori Adelson e Oly Obst Elenco:Greta Lee, Wagner Moura, Riley Chung, Emma Ho, Noah Alexander Sosnowski, Gabriel Barbosa |
Não posso negar que sinto imenso orgulho ao ver um ator brasileiro participando de uma produção internacional, ainda mais como um dos protagonistas. Isso não significa que fazer cinema nacional tenha menos valor — muito pelo contrário. Mas ver o talento dos nossos artistas sendo reconhecido lá fora é algo que me deixa especialmente feliz.
Em A Última Casa, Wagner Moura (O Agente Secreto, 2025) vive Jason e brilha ao lado da talentosa Greta Lee (Tron: Ares, 2025), no papel de Ann. As crianças também merecem destaque: Riley Chung e Emma Ho (Home Bodies, 2026) interpretam Ruth em diferentes fases da vida, enquanto Noah Alexander Sosnowski e Gabriel Barbosa (Segredos de um Escândalo. 2023) fazem o mesmo com Graham. O elenco funciona muito bem e passa a sensação de uma família realmente vivendo aquele absurdo, e não apenas de personagens colocados ali para sofrer.
Partindo de uma premissa simples, a história dá margem para muitos desdobramentos: uma família acorda e descobre que está presa dentro da própria casa. Enquanto os recursos começam a acabar, uma ameaça misteriosa do lado de fora transforma o confinamento em uma luta pela sobrevivência.
Pode conter spoilers.
Uma das coisas que mais me angustiou foi acompanhar o que acontece com os vizinhos. A família consegue vê-los do lado de fora, também presos naquela situação, e, aos poucos, eles começam a definhar por falta de comida e medicamentos. O pior é saber que estão ali, tão perto, e não poder fazer absolutamente nada para ajudá-los.
Para mim, essa é uma das partes mais cruéis da história. Não é apenas o medo de morrer, mas ter de assistir alguém morrer sem poder fazer nada. Você vê a pessoa enfraquecendo, sabe o que está acontecendo e, mesmo assim, não consegue atravessar aquela barreira. É uma sensação de impotência que a produção transmite muito bem.
O que também vale para os animais.
Passei boa parte da exibição tapando os olhos e os ouvidos para não ver nem ouvir o sofrimento dos bichinhos sendo caçados. Ainda que não existam cenas muito gráficas, a sugestão me choca muito mais do que mostrar o que aconteceu. Nem consigo falar do cão da família, o Cassidy.
Um ponto positivo é a forma como as criaturas são mostradas, quase sempre de relance. São sombras, movimentos rápidos e aparições breves, que nunca parecem suficientes para matar a nossa curiosidade. Talvez seja justamente essa falta de informação que ajude a criar a tensão. Afinal, aquilo que não vemos costuma ser muito mais assustador do que o que está diante dos nossos olhos.
A origem desses seres também não é explicada de maneira muito clara. Segundo o diretor, os “monstros” (uma combinação de efeitos práticos e CGI) — despertam depois de testemunharem os humanos destruindo o meio ambiente e “fervendo os oceanos”. A ideia é interessante, mas poderia ter sido melhor explorada. O longa prefere deixar as coisas no ar e permitir que cada espectador tire suas próprias conclusões.
E aí ficam aquelas perguntas inevitáveis: de onde vieram? Por que apareceram justamente agora? O que realmente aconteceu com o mundo? E o que existe do lado de fora?
A Última Casa está longe de ser espetacular e, para mim, peca justamente por não explicar melhor o motivo do surgimento desses seres. Ainda assim, quando o assunto é tensão, não há do que reclamar. A sensação de confinamento funciona muito bem, principalmente porque a casa, que deveria ser o lugar mais seguro para aquela família, vai se deteriorando junto com a esperança de quem está lá dentro. Quanto mais o tempo passa, mais aquele espaço se torna sufocante, precário e ameaçador, e a possibilidade de escapar parece cada vez mais distante.
Diante disso, confesso que esperava que Jason, num impulso desesperado para evitar um sofrimento ainda maior dos seus entes queridos, fizesse algo parecido com o que acontece em O Nevoeiro (2007).
Quem viu sabe do que estou falando.
No filme de Frank Darabont, o personagem de Thomas Jane, acreditando que não existe mais saída, toma uma decisão terrível envolvendo o próprio filho. Poucos minutos depois, descobre que tudo poderia ter sido diferente. É uma das cenas mais traumatizantes que já vi, daquelas capazes de derreter o coração até dos mais empertigados.
Talvez por causa desse trauma, fiquei o tempo todo esperando que algo parecido acontecesse em A Última Casa. A cada nova dificuldade, eu pensava: “Pronto. Agora vai.” E essa expectativa ajudou a manter minha apreensão até o final.
Mas nem tudo funciona em A Última Casa. Algumas questões poderiam ter sido melhor explicadas, e a própria ideia por trás dos seres merecia mais atenção. Existe ali um conceito interessante, principalmente pela relação com a destruição do meio ambiente, mas ele acaba ficando um pouco perdido no meio da narrativa.
Por outro lado, o filme faz aquilo que, para mim, um bom terror precisa fazer: provocar angústia. Não apenas pelo perigo do lado de fora, mas pela impotência daquela família, obrigada a assistir pessoas morrerem, a caçar animais para sobreviver e, pior ainda, sem saber se existe alguma possibilidade real de escapar.
Talvez A Última Casa não seja o filme que entrará para a história do gênero, mas oferece bons momentos de tensão e algumas situações que continuam na cabeça depois dos créditos.
No meu caso, provavelmente também vai deixar a lembrança nada agradável de alguns animaizinhos fofos cujo destino eu preferia não ter visto — e muito menos imaginado.






