por Matt Ferraz

O nome K-Tzenik é acrônimo das letras KZ, que são a sigla de Kozentrationlager, ou “campo de concentração” em alemão. Já o número 135633 estava tatuado no braço do autor, e era a única identidade que ele possuía em Auschwitz. Assim, assinando os livros como K-Tzenik 135633, o autor procurava escrever não em nome de um indivíduo, mas de todos os que foram vítimas dos campos.
Em seus livros, K-Tzenik exorcizou sua experiência de uma forma catártica. Suas histórias não tiravam o pé do acelerador quando se tratava de representar o sexo e violência presentes nos campos. Seu primeiro livro, Salamandra (1946), se passa numa versão fictícia do Gueto de Varsóvia, e envolvem momentos de puro brilhantismo literário, como aquele em que o protagonista descreve um forno do lado de dentro. Em uma obra posterior, The Called Him Piepel (1961) o autor conta história de um garoto usado como escravo sexual por um kommando dentro de um campo de concentração.

Ironicamente, foi esse julgamento que deu popularidade à chamada literatura Stalag. Essas eram novelas baratas, vendidas como sendo traduções de originais americanos, mas que eram na verdade redigidas primeiramente em hebraico. Os Stalags contavam histórias de campos nazistas onde prisioneiros americanos eram feitos reféns por voluptuosas oficialas, loucas para levá-los para a cama. Os livros Stalag já circulavam há algum tempo, mas suas vendas cresceram exorbitantemente com o julgamento de Eichmann, e por sua vez iriam gerar o que conhecemos como cinema nazi-exploitation.
Lançado em 1961, Stalag 13, o livro Stalag de maior popularidade durante o julgamento, possui uma trama bastante parecida à de Ilsa, She Wolf of the SS, na qual um piloto inglês é feito prisioneiro e submetido a diversas práticas sexuais bizarras, incluindo estupro e sadomasoquismo. Assim como em Ilsa, os prisioneiros conseguem reverter o jogo. O livro alcançou vendas exorbitantes que chegaram a 80 mil cópias vendidas, e várias imitações se seguiram.

Isso não impediu o sucesso dos Stalags, que continuaram com toda força até 1965. Assim como a obra de K-Tzenik, os Stalags foram a porta de entrada para muitos jovens judeus para conhecerem o que havia acontecido ao seu povo durante a guerra. Não se pode também subestimar o fato de serem a única literatura erótica amplamente disponível no país na época, o que sem dúvida contribuiu para sua popularidade. A partir do banimento de Colonel Schultz, os livros Stalag foram declarados ilegais em Israel, mas continuaram circulando por muito tempo em cópias piratas. Algo semelhante aconteceria mais tarde quando os filmes do subgênero nazi-exploitation foram declarados ilegais na Alemanha.
O relacionamento entre o Coronel Schultz e a vítima protagonista foi a base para diversos filmes nazi-exploitation. Pode-se fazer um paralelo com o relacionamento possessivo entre Tania Nobel e Herr Erner em Deported Women of the SS Special Section; ou a obsessão maligna e destrutiva que o Comandante von Starker nutre por Lise Cohen em Gestapo’s Last Orgy. Nos dois casos, as heroínas fazem uso desse poder sobre seus captores, senão para reconquistar a liberdade, ao menos para dar o troco por todo o sofrimento causado pelos nazistas.

