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Disponibilizada no Brasil pela Netflix antes do boom dos chamados doramas, a série Tudo bem não ser normal se mostra bastante instigante para pensar a saúde mental e possíveis caminhos para a superação de diferentes tipos de transtornos. Contudo, para além desse debate, um dos aspectos que mais se destaca em relação à série são as histórias fictícias escritas pela protagonista, que ganharam vida em animações exibidas ao longo dos episódios. Essas histórias, por conta do sucesso da série, no exterior e no Brasil, também foram publicadas em formato físico.

Na série, lançada em 2020, somos apresentados a Ko Moon-young, jovem escritora de livros infantis que sofre de transtorno de personalidade. Solitária, antissocial, muitas vezes com um comportamento violento, ao longo dos episódios vamos conhecendo sua trágica história e de sua família, marcada por violência e abandono, levando à construção de uma personalidade solitária e assombrada pelo passado. Moon-young evita o contato íntimo com as pessoas, como forma de proteção, evitando levar ainda mais sofrimento para seu já tão traumatizado ser. E, em cenas que vão do engraçado ao triste, vamos entendendo as razões de sua raiva em relação ao mundo.

Outros dois personagens se destacam na série. Um deles é Moon Gang-tae, cuidador na clínica psiquiátrica em que o pai de Moon-Young está internado. Par romântico de Moon-Young, ao longo da narrativa o espectador é apresentado a sua vida de sofrimentos e como isso o impacta o seu presente. Faz parte do trio de protagonistas também Moon Sang Tae, o irmão autista de Gang-tae. Sang Tae carrega o trauma de ter visto o assassinato da própria mãe, um mistério policial que constitui uma das linhas narrativas da série e que, de alguma forma, faz com que a história dos dois irmãos se cruze com a de Moon-Young.

Moon-young, uma personagem com tantos traumas e sofrimentos, escreve história para crianças, mas que tem um tom sombrio, se constituindo quase que em histórias de horror. Uma das histórias mais impactantes é a da Criança Zumbi, um menino de pele muito pálida e olhos bem grandes que nasceu num pequeno vilarejo. Conforme crescia, sua mãe percebeu que ele não tinha sentimentos e que tinha uma fome insaciável. Todas as noites, a mãe roubava animais das casas vizinhas para alimentar a criança, criando-a em segredo.

Um dia, roubava uma galinha… No outro, um porco… E então, uma cabra…

Quando uma pandemia atingiu o vilarejo, o que restava dos animais morreu e muitas das pessoas também. Os sobreviventes, para escapar, deixaram o vilarejo.

Mas a mãe da Criança Zumbi não podia deixá-la, sendo obrigada a tomar medidas drásticas para salvar o filho.

… então a mãe cortou uma de suas pernas e deu para a criança faminta

Parte por parte de seu próprio corpo, a mãe alimentava a criança, dando a ela todos seus membros.

Da mãe, só restou o tronco”.

Não havia, ao final, muito mais como alimentar a Criança Zumbi. Diante dessa situação, havia apenas uma solução.

Então a mãe se aproximou do filho e entregou-lhe o que restara do seu corpo

Essa foi a primeira vez que a criança abraçou a mãe.

Mãe, como você é quente

E então o pequeno livro deixa a pergunta:

Era alimento o que a criança queria? Ou o calor da mãe?

No contexto da história de Moon-young, ao longo da série, evidenciam-se alguns elementos em comum com a Criança Zumbi. Um deles passa por Moon-young ser vista pelos outros como uma pessoa sem sentimentos. Contudo, na série mostra-se que, na realidade, ela apenas os escondia diante de todos os sofrimentos vividos em um ambiente de profunda violência psicológica, sem afeto e nem carinho. O pequeno zumbi, no final das contas, também parecia ter sentimentos.

Outro elemento passa pelo abraço, tão comentado ao longo da série. Moon-young em diferentes momentos evidencia sua carência e o quanto deseja o reencontro (e o abraço) da mãe que havia desaparecida anos antes. Na série, a fome da Criança Zumbi é mostrada como uma metáfora para a busca desse calor humano. Não por acaso, em toda a série, Moon-Young parece estar sempre com fome e passa muitos momentos se alimentando. O pequeno zumbi em grande medida se confunde com Moon-Young.

No final das contas, ao longo da série, mesmo diante de todos os riscos de sofrimento, Moon-Young escolhe encarar a realidade a que foi submetida e aceitar que outras pessoas possam ajudá-la a enfrentar esse mundo. Para Moon-Young, a superação de seus traumas passa por tentar não odiar o mundo e as pessoas que a cercam e se aproximar de pessoas que possam amá-la.

Contudo, para tanto, isso passa por essas pessoas conhecerem e aceitarem a “floresta sombria” dentro da qual sua personalidade foi moldada. Essa imagem da floresta é recorrente ao longo da série, em especial quando trabalha o tema de outro livro escrito pela protagonista, O Menino Que Se Alimentava de Pesadelos. Nessa história, um garoto, assombrado por pesadelos terríveis, vai até uma floresta e faz um pacto com uma bruxa, a qual iria apagar todas as lembranças ruins de sua mente.

Na série, ao final, sabe-se que não há cura para os transtornos e traumas de Moon-Young, mas é possível para a protagonista aprender a lidar com eles. Para tanto, não pode fugir, mas deve escolher encarar a crueldade da realidade e os sofrimentos a que foi submetida. Em sua vida, uma sombra nunca deixaria de estar presente, mas isso não precisa definir Moon-Young nem servir para afastá-la dos outros que a cercam. Moon-Young deve, sem medo, escolher agir no mundo e viver a vida que seus medos e sofrimentos moldaram.

Moon-young ao longo da série precisa descobrir se ela própria precisa apenas se alimentar (ou sugar as forças de todos ao seu redor) ou se precisa de um abraço (ou construir relações de carinho e afeto). Como a Criança Zumbi sente o calor pela primeira vez, Moon-young precisa aprender o que é o afeto. Essa é a jornada da série, expressa neste e nos demais livros escritos pela fictícia Moon-young, e que valem a pena ler e assistir.

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