
Quando pensamos em horror, quase sempre a imaginação nos leva para os Estados Unidos, a Transilvânia ou alguma floresta perdida da Escandinávia. Portugal raramente entra nessa lista.
Por trás dos castelos, dos centros históricos e da imagem vendida aos turistas existe outro país. Um lugar marcado por sanatórios abandonados, casarões em ruínas, estradas envoltas por nevoeiro e histórias que atravessaram gerações. Algumas nasceram do folclore. Outras, de tragédias reais. Todas continuam alimentando um imaginário sombrio que o cinema português vem explorando cada vez mais.
É por esse lado obscuro que começa Portugal Macabro, a nova coluna do Boca do Inferno.
O silêncio do Sanatório de Valongo
Abandonado há décadas, o antigo Sanatório de Valongo continua sendo um dos cenários mais perturbadores de Portugal. Inaugurado nos anos 1930 para tratar pacientes com tuberculose, o prédio foi palco de incontáveis histórias de sofrimento, isolamento e morte.
Hoje, o concreto está tomado pelo mato, as janelas desapareceram e os corredores permanecem mergulhados em um silêncio desconfortável. Ainda assim, quem visita o local costuma relatar experiências difíceis de explicar: tosses que parecem ecoar entre os andares, mudanças repentinas de temperatura e a sensação constante de que há alguém observando.
Não é difícil entender por que esse ambiente lembra o clima do filme Coisa Ruim (2006), de Tiago Guedes e Frederico Serra. Assim como no filme, o horror não depende de monstros. Ele nasce do ambiente, do abandono e da impressão de que certos espaços absorvem tudo o que aconteceu entre aquelas paredes e se recusam a deixar o passado morrer.
A maldição da Quinta da Juncosa
Se Valongo assusta pelo abandono, a Quinta da Juncosa provoca arrepios pelo passado que carrega.
Segundo a tradição popular, o Barão da Juncosa, tomado por um ciúme doentio, amarrou a esposa à cauda de um cavalo e a arrastou até a morte. Quando percebeu o que havia feito, enlouqueceu. Assassinou os próprios filhos e, em seguida, tirou a própria vida.
Verdade ou não, a narrativa atravessou os séculos. Moradores da região dizem que, durante a noite, ainda é possível ouvir o galope de um cavalo cruzando a propriedade, seguido por gritos que parecem surgir do meio da escuridão.
É impossível não lembrar de The Eyes of My Mother (2016), do luso-americano Nicolas Pesce. O filme transforma o ambiente rural em um espaço sufocante, onde violência, isolamento e insanidade caminham juntos. A Quinta da Juncosa provoca exatamente essa sensação: a de que o horror nunca deixou aquele lugar.
Sintra e o nevoeiro que esconde muito mais do que árvores
Poucas cidades portuguesas carregam uma aura tão misteriosa quanto Sintra. O nevoeiro quase permanente, as florestas densas e os palácios centenários ajudam a construir um cenário que parece pronto para um filme de terror.
Entre suas histórias mais conhecidas está a de Palmira, uma criada do Palácio de Valenças que teria tirado a própria vida após viver um amor impossível. Até hoje, funcionários relatam ouvir choros, passos e sussurros nos corredores do edifício, especialmente quando o palácio está vazio.
Mas nenhuma lenda ganhou tanta projeção quanto a de Teresa Fidalgo.
Quem cresceu nos anos 2000 provavelmente recebeu aquele vídeo em que uma jovem pega carona em uma estrada de Sintra e, pouco antes do acidente, aponta para um ponto da pista e diz: “Foi ali que eu morri.”
O curta A Curva (2004), dirigido por David Rebordão, foi tratado durante anos como uma gravação real e acabou se tornando uma das maiores creepypastas da internet em língua portuguesa. Mesmo depois da revelação de que tudo fazia parte de uma obra de ficção, a personagem continuou viva no imaginário popular.
A floresta de Sintra também ocupa papel central no longa A Floresta das Almas Perdidas (2017), de José Pedro Lopes. O longa aproveita a beleza quase hipnótica da região para construir um dos cenários mais inquietantes do horror português recente, mostrando que nem sempre os lugares mais bonitos escondem as melhores histórias.
Portugal costuma ser lembrado pelos cartões-postais, pela gastronomia e pelos castelos. Mas, entre fatos históricos, lendas, crimes e cenários que parecem saídos do cinema, existe um outro lado do país que também merece seu lugar no mapa do horror. É por ele que caminhará Portugal Macabro.
Mais do que apresentar histórias sombrias, Portugal Macabro nasce para estreitar os laços entre Brasil e Portugal. Compartilhamos a mesma língua, mas carregamos imaginários moldados por experiências distintas, separados apenas por um oceano. Se somos países irmãos, por que não conhecer também os fantasmas, as lendas e os mistérios que habitam o outro lado do Atlântico? Que esta seja uma travessia feita pelas sombras, pelas histórias e pelo fascínio que o horror desperta em nossas duas margens.



