Duologia Não Mexa (2026)

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Não Mexa Neste Celular/Não Mexa Neste Arquivo
Original:Swipe Genkin: Henshi shita Daigakusei no Smartphone/Etsuran Genkin: Ryōki satsujinhan no seishin kantei Hōkokusho
Ano:2026•País:Japão
Autor:Mikito Chinen•Editora: Intrínseca

No folclore japonês há diversas lendas sobrenaturais interessantes, e uma delas é a de yokai de longos braços cobertos por centenas de pequenos olhos. Diz-se que essas criaturas, chamadas de Dodomeki – literalmente, “demônio de muitos olhos” -, eram mulheres comuns anteriormente, porém, foram amaldiçoadas por terem o hábito de roubar (em japonês, dizer que alguém tem “braços longos” significa que é uma pessoa que gosta de roubar, e na lenda isso se traduz literalmente na aparência da criatura). Trazendo essa figura folclórica para os dias atuais por meio de uma intrigante e assustadora história, a duologia Não Mexa, do autor japonês Mikito Chinen, chega ao Brasil pela editora Intrínseca.

Nessa duologia, os livros vêm juntos, sendo um complementar ao outro. O primeiro, Não Mexa Neste Celular, vem no formato de um smartphone e, conforme passamos as páginas, é como se estivéssemos de fato olhando o celular de alguém, enquanto a narração fica na página anterior. Nele, entramos no celular de Kazuma Isshiki, estudante que faz parte de um clube de ocultismo. Por meio de mensagens, descobrimos que o jovem está sendo cobrado por seu veterano de fazer uma pesquisa sobre a cidade-fantasma de Doumeki (sim, o nome faz propositadamente alusão às yokai do folclore), e isso poderá ajudar Isshiki a ter um bom emprego e, assim, começar uma vida com sua namorada. A cidade de Doumeki é uma lenda urbana de fóruns de ocultismo que diz que qualquer um que entre ali é amaldiçoado, sendo perseguido por uma misteriosa mulher de preto até não aguentar mais e pôr fim à própria vida. Por meio de registros fotográficos, pesquisas e mapas no celular de Isshiki, descobrimos que essa cidade existe, e uma perturbadora sensação de estar sendo observado a todo momento persegue quem entra lá. A tensão é crescente até a última página, até o celular ser desligado.

Em seguida, temos o segundo livro: Não Mexa Neste Arquivo. Começamos com um aviso sobre a leitura do documento e, logo após, a notícia de um massacre em um festival de Tama, onde 11 pessoas foram assassinadas. Nesse livro, vamos acompanhar a entrevista de Kasumi Uehara, psiquiatra responsável pela avaliação do assassino por trás do massacre. Shinya Yaegashi, o assassino, foi tido como esquizofrênico após os assassinatos, pois afirmava estar sendo observado a todo momento e estava apenas tentando matar a entidade que ele chama de…Doumeki. A doutora nos revela, logo no começo da entrevista, que Yaegashi cometeu suicídio na sua frente, mas não sem antes pedir que Uehara investigasse sobre a estranha cidade, e assim ela o fez. Ao longo de seu depoimento, a psiquiatra revela que começou a acreditar no que seu ex-paciente dizia, que ele não era esquizofrênico e a entidade Doumeki é real. A partir de então, nos vemos no meio de uma conspiração sobrenatural onde as coisas ficam cada vez mais e mais estranhas.

A atmosfera criada por Mikito Chinen é espetacular, bem como a imersão que o autor nos proporciona com o celular e com o arquivo. O primeiro livro é curto, podendo ser lido em pouquíssimo tempo, mas é importante fazer essa leitura antes do arquivo. No segundo, muitas coisas vistas no celular serão essenciais para se conectar com os mistérios que Uehara vai descobrindo. A narrativa é envolvente, deixando o leitor sedento por mais informações, mantendo sempre um terror crescente e alto nível de suspense. Em momento algum a leitura se torna enfadonha ou mesmo repetitiva, muito pelo contrário.

Dos personagens pouco sabemos além de seu interesse e até mesmo fascinação pela cidade de Doumeki, e curiosamente isso não afeta em nada na qualidade narrativa. Sabemos o básico sobre eles, e isso é o suficiente, com o foco sendo em todo esse horror nebuloso envolvendo a tal entidade de muitos olhos, o que traz um dinamismo muito apreciado para a história.

O que começa como uma lenda urbana de fóruns online começa a tomar forma, criando um enredo sobrenatural sufocante, afinal, ser observado a todo momento pode deixar qualquer pessoa paranoico. Inclusive, em dado momento nos perguntamos até onde realmente existe essa entidade onipresente de inúmeros olhos e até onde isso é fruto de uma imaginação alimentada por histórias assustadoras. Chinen mantém essa dúvida em suspenso até quase os momentos finais, e consegue nos surpreender até mesmo na última página. As revelações finais de ambos os livros são brilhantes e inesperadas.

Essa bizarra história de fantasma esconde uma crítica muito perspicaz por trás, sobre como a hipervigilância é algo nocivo de muitas formas diferentes. O autor traz uma antiga lenda do folclore japonês e coloca esse horror no cotidiano de pessoas comuns e, segundo ele, lendas urbanas existem por um motivo. Às vezes, tais histórias realmente aconteceram, mas são tão fantásticas que acabam sendo descreditadas. Outras vezes, possuem explicações que nem imaginamos.

Proporcionando uma leitura imersiva muitíssimo intrigante, a duologia Não Mexa é um ótimo exemplo da excelência do terror japonês na literatura. Uma lenda urbana pode ser mais real do que imaginamos, e Mikito Chinen nos lembra que podemos estar sendo vigiados a todo momento, em todos os lugares, pelas mais diversas criaturas. Talvez você esteja sendo observado neste exato momento, enquanto termina essa leitura.

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