Quando A Odisseia, de Christopher Nolan, chegou aos cinemas, os “haters” do diretor já estavam torcendo o nariz antes mesmo de ver o filme. Comentários sobre a língua sendo usada pelos personagens, a escolha do elenco — não queriam ver Elliot Page e nem Lupita Nyong’o por lá, mesmo em papéis secundários — e decisões do roteiro se espalharam entre críticos de ocasião e falsos influencers. E muitos estabeleceram comparações com a minissérie A Odisseia, lançada em 1997, com direção de Andrei Konchalovsky, dizendo que esta, sim, seria uma adaptação de verdade, com respeito ao material original e sem os excessos do enredo. Lembro de tê-la visto em alguma exibição de TV no final dos anos 90, provavelmente no SBT, com dublagem brasileira e vários cortes. Depois o filme foi lançado em VHS pela Alpha Filmes em uma versão condensada, sem as tais três horas de duração.
Em sua passagem pela TV aberta, o filme fez um sucesso absurdo, sendo considerado a primeira produção a ocupar o primeiro lugar de exibição durante quatro meses consecutivos. As críticas foram majoritariamente positivas, com elogios aos efeitos especiais e outros tratos técnicos. Ora, trata-se de uma aventura épica produzida por Francis Ford Coppola, e o elenco contava com rostos conhecidos como os de Isabella Rossellini, Eric Roberts, Vanessa Williams, Geraldine Chaplin e uma ponta de respeito de ninguém menos que Christopher Lee no melhor momento da produção, quando Odisseu (Armand Assante) atravessa o Rio de Fogo, em Hades, para encontrar o cego místico Tirésias.

Mas, afinal, A Odisseia, de Andrei Konchalovsky, é realmente melhor que a de Nolan?
Ambos os tratamentos são ótimos, com suas próprias versões do poema de Homero, sendo que nenhuma delas é absolutamente fiel à obra clássica — e isso não é um problema. É claro que a minissérie é datada, e os efeitos especiais, elogiados na época, já não vingam mais hoje em dia. Chroma key artificial, algumas técnicas de sobreposição de imagens ultrapassadas, o voo risível de Hermes (Frederick Stuart) e os recursos digitais pouco convincentes estão todos lá; o longa deixa transparecer em cada tomada que se trata de uma produção para a TV até mesmo em alguns “cenários de novela“. Mas também não são problemas que diminuem a qualidade da narrativa, no roteiro de Konchalovsky e Chris Solimine, ou afetam a satisfação pela aventura épica. Voltemos à comparação durante a descrição abaixo:
O longa começa no nascimento de Telémaco (posteriormente interpretado por Alan Stenson), filho de Odisseu e Penélope (Greta Scacchi). Antes mesmo de aproveitar os primeiros momentos de vida de seu herdeiro, Odisseu recebe a visita dos irmãos Agamenon (Yorgo Voyagis) e Menelau (Nicholas Clay), convocando-o para a batalha de Troia. O Rei de Ítaca despede-se da esposa e promete que retornará, ainda que isso demore e o filho apresente sinais de barba. Se até então não acontecer, ele pede que ela se case para que Telémaco possa ser bem orientado para no futuro assumir o reinado.
Ele parte para a guerra, apoiado em conversas com Atena (Rossellini), em confrontos que duraram dez anos sem sucesso à beira das imensas muralhas que circundam Troia. Quando os soldados já pensavam em desistir, Odisseu sugere a entrega de um gigantesco cavalo de madeira como prêmio pela vitória dos troianos. Um sacerdote troiano, Laocoon (Heathcote Williams), tenta avisar o rei Príamo (Alan Smithie) do golpe, mas é devorado por uma serpente marítima, em efeitos divertidos. Como o infernauta já sabe, os soldados se escondem no interior do cavalo e, durante a noite, saem em ataques de surpresa — o enredo deixou de lado a ideia de que os invasores estavam no interior do cavalo para abrir os portões para a entrada do exército grego. No entanto, toda a batalha é bem feitinha, destacando o que a versão de Nolan ignorou: o guerreiro Aquiles (Richard Truett) em um duelo pessoal com o herói Hector (Derek Lea).

Com o fim da Guerra de Troia, Odisseu pretende retornar para casa, mas erroneamente — algo que não acontece no filme recente — ele provoca os deuses, dizendo que não precisa deles, o que enfurece Poseidon (na voz gutural de Miles Anderson), que anuncia que o ajudou calando Laocoon e que, por essa provocação, ele jamais retornará para Ítaca. Na volta, a embarcação de Odisseu é consumida por uma névoa densa, sendo atraída a ilha dos Ciclopes. E é lá, quando encontram uma caverna com ovelhas e queijo, que alguns deles são devorados por Polifemo (Reid Asato). A aparição do gigante é razoavelmente bem feita, mas a de Nolan, pela condição claustrofóbica e algumas sequências ataque, é muito melhor. Inclusive, Konchalovsky dá um tom meio bem humorado ao episódio, o que diminui o horror dos soldados.
Por outro lado, a nova versão também ignora o contato de Odisseu com Éolo (Michael J. Pollard), deus do vento, de quem recebe um saco com o seu assopro para ajudá-lo a retornar, desde que o use adequadamente. Aliás, à exceção de Atena (representada por Zendaya na simbolização da culpa de Odisseu), Nolan optou por apresentar os deuses apenas como manifestações sobrenaturais, sem vozes e rostos. Um acerto. Quando a embarcação já avista Ítaca ao fundo, a ganância dos soldados faz com que um deles abra o saco de vento, levando o grupo para o outro lado, no encontro com a bruxa Circe. Tudo isso está na obra original mas não foi adaptado por Nolan. Ainda assim, o encontro de Odisseu com ela é bem melhor e mais assustador na nova versão, a partir da manufatura de transformação dos soldados em porcos, em efeitos práticos impressionantes.
A Circe de Konchalovsky, interpretada por Bernadette Peters, é atrapalhada pela ajuda que Odisseu recebeu de Hermes, dando-lhe a erva mágica moly, porém ela seduz o herói e seus soldados a ficarem em seu palácio — não uma casa rural — por cinco dias (que se transformam em cinco anos), sem que eles percebam. Quando Odisseu ameaça matá-la, ela indica o vidente Tiresias em Hades, precisando de um sacrifício. No texto original, Odisseu fica um ano por lá, por vontade própria, tornando-se seu amante, até decidir continuar a jornada.
A chegada ao Rio de Fogo, em bons efeitos, é mais interessante na versão noventista, e é quando se encerra o primeiro capítulo da minissérie. No submundo, descobrindo que sua mãe Anticleia (Irene Papas) se matou, Odisseu é orientado por Tiresias a atravessar o estreito do monstro Cila e sobreviver ao redemoinho Caríbdis. Sem encontrar sereias ou necessitar de seis sacrifícios, como na versão de 2026, após o ataque de Cila, bem feitinho, o barco é destruído pelo redemoinho, e Odisseu, único sobrevivente, chega a ilha de Ogígia, onde conhece Calypso (Williams), que o seduz a permanecer para sempre lá, sem envelhecer. Ele fica apenas dois anos, e não sete como no longa de Nolan, que não o faz ser ajudado por Hermes.
Nas duas versões, as ações são intercaladas com Penelope e a espera do retorno de Odisseu. Konchalovsky opta por uma narrativa linear, sem idas e vindas, mostrando o crescimento de Telémaco e a chegada dos pretendentes. Aqui se destaca Eurímaco (Roberts) e não Antinous (Vincenzo Nicoli), que, na nova versão, teve a interpretação de
Robert Pattinson. É Eurímaco, que conspira contra Telémaco, mas sem preparar uma emboscada. E não há o cãozinho Argos para reconhecer o mendigo Odisseu, como acontece no texto original e no filme de Nolan.
A minissérie também ignora os canibais gigantes Laestrygonianos, que aparecem no novo filme na localidade de Circe, e estão na obra de Homero. Mas os finais são bem parecidos em ambas as versões, como o desafio de montagem do arco e flecha de Odisseu e o confronto com os pretendentes. Antinous é o primeiro a morrer e está longe de ser o vilão covarde de Nolan, embora a caracterização seja boa. E em todos os materiais há a ideia de Penelope enrolar na produção da mortalha para não ter que se casar novamente. Homero colocou seu herói em aventuras românticas, com Circe e Calypso, enquanto sua amada se manteve preservada até seu retorno.
Como se nota, há diferenças entre as duas versões, o que não diminui a qualidade de nenhuma delas. Nenhuma segue à risca a obra, mas somente Nolan enaltece o papel do bardo como contador de histórias, sinalizando reflexões sobre a oralidade narrativa. Ora, nem mesmo o texto original é absolutamente atribuído a Homero, pois pesquisadores discutem influências, modificações e autorias anônimas até a Odisseia se apresentar como os leitores a conhecem. De toda forma, a essência foi mantida na apresentação do ponto de partida das aventuras épicas, quando os deuses eram temidos e os heróis enfrentavam criaturas mitológicas.
Em tempo, além das duas mais populares, mencionadas neste artigo, há mais uma que vale conhecer: a minissérie italiana, de Dino De Laurentiis, lançada em 1968, em oito episódios, contando com a direção de Franco Rossi, Piero Schivazappa e ninguém menos que Mario Bava. O papel de Odisseu (chamado aqui de Ulisses) ficou com Bekim Fehmiu, enquanto Penélope foi interpretada por Irene Papas — sim a Anticleia da versão de 1997.




