Portugal Macabro #3: O mistério do lobisomem em Portugal

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Seja bem-vindo à nossa coluna Portugal Macabro! Hoje, voltamos a mergulhar nas lendas e superstições que povoam o imaginário português. E que melhor forma de prolongar o espírito do Halloween do que explorar uma das figuras mais enigmáticas e assustadoras do nosso folclore? Prepare-se para descobrir os mistérios e as histórias que envolvem o mito do lobisomem em terras lusitanas.

Em Portugal, ao contrário do que aparece em outras mitologias e do que conhecemos no Brasil, onde a criatura costuma ser associada às noites de lua cheia e aos uivos assustadores, a lenda tem características próprias. Por cá, o lobisomem pode ser visto como um cavalo branco ou até mesmo como uma criatura que corre pelas ruas durante a noite. Algumas dessas histórias, atravessam gerações e ainda despertam medo e curiosidade.

O mistério do som assustador de Rio Tinto (Gondomar)

Nas décadas de 1970 e 1980, a tranquilidade de uma rua residencial em Rio Tinto, no município de Gondomar, foi abalada por um fenômeno noturno que aterrorizava os moradores.

Quase sempre por volta das duas horas da manhã, os habitantes acordavam assustados com um som medonho, que parecia vir das profundezas da terra. O ruído misterioso ecoava pelas ruas desertas da freguesia (cidade) e, de maneira inexplicável, parava bem em frente à porta da igreja local. O medo era tanto que ninguém tinha coragem de abrir as janelas ou espiar para descobrir o que estava acontecendo.

Para a população, não havia dúvidas: era um lobisomem correndo o fado.

Curiosamente, correr o fado, nada tem a ver com o estilo de música fado. No contexto das lendas portuguesas, é o ato físico e místico de cumprir um destino ou uma penitência obrigatória. No caso do lobisomem, significa correr sem controle de madrugada, passando por sete adros (pátios) de igrejas ou encruzilhadas, para pagar a sua maldição. O termo “fado” aqui usa o sentido original da palavra em latim (fatum): destino imutável.

Segundo uma antiga crença do norte de Portugal, o lobisomem era um homem condenado a se transformar em uma criatura (não necessariamente um homem lobo) durante a noite e a percorrer determinadas localidades. Em algumas versões da lenda, ele assumia a forma de um cavalo ou de uma besta disforme e precisava atravessar sete freguesias em uma única noite (correr o fado). O tormento só chegaria ao fim se alguém tivesse coragem de ferir o animal com um objeto pontiagudo, fazendo-o sangrar e, assim, libertando o homem daquela condenação.

O mistério de Rio Tinto só teria terminado quando o pároco local ordenou a construção de uma pequena capela em um cruzamento próximo, onde foi colocada a imagem de uma santa (não consegui registros e nem saber qual o nome da santa). Depois disso, os ruídos teriam cessado.

Até hoje, a história alimenta diferentes interpretações. Para alguns, foi a fé que afastou a criatura; para outros, alguém pode ter conseguido, finalmente, romper a maldição. Há também quem relacione os barulhos à alma de pessoas que morreram na linha férrea, que ficava ali onde tinha sido construída a capela. Dizem que teriam encontrado a paz com a presença da imagem da Santa a velar por elas. O que realmente acontecia naquelas madrugadas continua envolto em mistério.

As sombras e o disfarce nas muralhas de Alenquer

Mais ao sul, na histórica vila de Alenquer, a lenda do lobisomem ganhou contornos diferentes. Em uma época em que a iluminação pública era precária ou inexistente, o medo da criatura influenciava os hábitos dos moradores e fazia com que muitos evitassem sair de casa depois do anoitecer.

Na parte alta da vila, o perigo não estava restrito às noites de lua cheia. Qualquer fim de tarde mais escuro já era motivo para recolher-se. Os moradores evitavam circular pelas antigas escadarias, pela Porta da Conceição e pelas ruínas próximas às muralhas do castelo.

Havia relatos de passos pesados, ruídos que vinham da vegetação e vultos que desapareciam rapidamente pelas esquinas. A criatura era descrita como um ser grotesco, uma mistura de homem, lobo, cavalo e burro, capaz de atacar quem cruzasse seu caminho.

Mas, com o passar do tempo, parte do terror que rondava as ruas de Alenquer ganhou uma explicação bem menos sobrenatural.

Ao que tudo indica, pelo menos alguns dos avistamentos mais conhecidos, tinham origem humana. Um rapaz da região teria encontrado uma maneira de se aproveitar da superstição dos moradores: cobria-se com um lençol branco e usava um pelego (manto de pele de animal), geralmente de ovelha — sobre a cabeça para se passar pelo lobisomem.

Seu objetivo, porém, não era espalhar o terror por diversão ou fazer mal aos habitantes. A intenção era manter as ruas vazias para encontrar-se às escondidas com uma rapariga (jovem), longe dos olhares curiosos e dos comentários dos vizinhos.

Assim, aquilo que muitos acreditavam ser uma criatura sobrenatural teria servido de disfarce para uma história de encontros secretos e astúcia.

Entre a maldição e a esperteza humana

As histórias de Rio Tinto e Alenquer mostram como a figura do lobisomem assumiu características próprias no imaginário popular português. Em uma região, o mistério estava ligado aos ruídos da madrugada, à transformação em uma besta e à crença de que a maldição poderia ser quebrada. Na outra, o medo da criatura teria sido usado por um homem para esconder seus encontros amorosos.

Apesar das diferenças, as duas lendas têm algo em comum: revelam os medos de uma época em que a escuridão, o isolamento e o desconhecido alimentavam a imaginação popular.

Entre a fé, a superstição e as explicações mundanas, o lobisomem continua vivo nas histórias contadas de geração em geração. Seja em Portugal, no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo, sempre haverá alguém que pense duas vezes antes de sair de casa em uma noite de quinta para sexta-feira, principalmente se for de lua cheia.

Se quiserem conhecer algumas outras histórias de lobisomem em Portugal, indico que pesquisem sobre:

  • A Lenda do Lobisomem de Mação (Vale da Mua)
  • A Lenda do Lobisomem de Freixo de Numão (Douro)
  • O Lobisomem de Cambra de Baixo (Vouzela)
  • O “Lobo da Gente” e o Cavalo de Figueira
  • O Sétimo Filho de Tragmontes (Trás-os-Montes) – Essa mais parecida com o que conhecemos da criatura no Brasil.

E você, Infernauta, conhece algum “causo” de lobisomem? Conta pra gente nos comentários!

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