Engrenagens do Terror #1 – Conflito, dilema e o menor de dois males

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Qual é a força que move uma história?

Já que essa coluna tem a palavra “engrenagem” no título, decidi falar hoje justamente sobre a engrenagem-mestra de um roteiro, aquela que faz girar todas as outras: o conflito. É o conflito que irá alimentar os problemas a serem solucionados, que colocará os personagens em situações complicadas e que irá manter o público envolvido.

Mas como pode ser criado o conflito em uma história?

Ele pode ocorrer de duas maneiras. Uma delas é quando dois ou mais personagens possuem o mesmo objetivo: se um deles atinge esse objetivo, o outro consequentemente perde. Em Batalha Real (Batoru Rowaiaru, 2000) – roteiro de Kenta Fukasaku, baseado no livro de Koushun Takami -, todos os alunos forçados a participar de uma disputa mortal em uma ilha remota querem ser o vencedor – entenda-se, o único sobrevivente – a fim de poder voltar para casa. Mas só pode haver um vitorioso. Conflito.

A outra maneira é quando dois ou mais personagens possuem objetivos opostos: um quer algo que é o contrário do que o outro quer. Pode ser um objetivo muito básico, primitivo – e, por isso mesmo, extremamente humano. Em Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978) – roteiro de John Carpenter e Debra Hill -, Laurie Strode deseja sobreviver, ao passo que Michael Myers deseja sua morte. Pode ser também algo mais sutil, subentendido. Em Os Inocentes (The Innocents, 1961) – roteiro de William Archibald e do lendário Truman Capote (com cenas e diálogos adicionais de John Mortimer), adaptando a novela A Volta do Parafuso, de Henry James -, Miss Giddens, governanta em uma mansão aparentemente assombrada, luta para proteger a inocência – e, em última instância, a alma – das duas crianças sob sua tutela, enquanto os fantasmas buscam corrompê-las (falando nisso, Laurie Strode também tentava proteger as duas crianças sob sua guarda de uma ameaça que poucos além dela conseguiam perceber…).

Porém, é possível ir ainda mais fundo e transformar o conflito em um dilema. Um bom dilema eleva as apostas em uma história, pois ele implica uma decisão complexa por parte dos personagens. Segundo o teórico de roteiro Robert McKee (falaremos muito dele nesta coluna), um dilema também pode ocorrer de duas maneiras.

Uma delas são os bens inconciliáveis: há duas coisas boas que o personagem deseja, mas se ele escolhe uma, automaticamente abre mão da outra. Só que estamos falando de terror, e nós não queremos dar essa moral pros nossos personagens oferecendo a eles duas coisas bacanas, concordam? Não, no terror, o que costuma funcionar melhor é o outro tipo de dilema: o menor de dois males.

Aqui, há duas coisas terríveis, mas o personagem terá que escolher uma delas (e ele torce para escolher a menos pior, se é que ela existe). Todo o fascínio exercido pela franquia Jogos Mortais (Saw, 2004 – 2023) – cujo primeiro filme tem história de James Wan e Leigh Whannell, com roteiro deste – advém principalmente desse tipo de dilema. Você está acorrentado em um banheiro abandonado, onde irá morrer aos poucos de sede e fome. Horrível, não? Porém, você tem uma serra à sua disposição. Não dá para serrar a corrente com ela, mas dá para cortar o seu pé fora e sair dali se arrastando, perdendo sangue, e procurar ajuda. É o famoso “vão-se os dedos, ficam-se os anéis”, ou mais ou menos isso. Horrível também, certo? Ao longo da franquia, os roteiristas pensaram em uma infinidade de variações desse mecanismo, mas o dilema sempre permaneceu basicamente o mesmo.

Em Animais Perigosos (Dangerous Animals, 2025) – roteiro de Nick Lepard -, as vítimas se encontram num barco, encurraladas entre um psicopata perigosíssimo e o oceano repleto de tubarões famintos. O que fazer?

Imagine que seu personagem é uma boa pessoa que se descobre à beira da morte. Como a maioria de nós, ele não está preparado para dizer adeus à vida. Mais do que isso: ele não pode deixar seus entes queridos completamente desamparados. Então, um vampiro cruza seu caminho e oferece-lhe a vida eterna. Subitamente, seu personagem se vê tendo que escolher entre a morte iminente e a imortalidade movida a consumo de sangue humano. E agora? Temos um dilema (a não ser que seja o mundo de Crepúsculo, onde dá para ser vampiro e ainda continuar levando uma vida relativamente normal, frequentando o ensino médio, casando-se em uma cerimônia cristã e passando a lua de mel em Paraty sem ter que se preocupar com cruzes ou com o sol tropical e até tendo uma linda bebê de CGI).

Essa foi a coluna Engrenagens do Terror de hoje, mas ainda temos muito papo pela frente, então fique sempre de olho aqui no Boca do Inferno. E, se você tem o desejo de se aprofundar ainda mais na escrita de roteiros, eu te convido a conhecer os meus cursos, bem como alguns dos meus trabalhos, clicando aqui. Ali você não precisa escolher o menor de dois males: só tem conteúdo saudável!

Até a próxima.

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