3.9
(9)

Anticristo (2007)

Anticristo
Original:Antichrist
Ano:2009•País:Dinamarca, Alemanha, França, Itália, Suécia, Polônia
Direção:Lars Von Trier
Roteiro:Lars Von Trier
Produção:Meta Louise Foldager
Elenco:Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg, Storm Acheche Sahlstrøm

Muitas vaias, algumas risadinhas nervosas e poucos aplausos. Boa parte da plateia formada pela crítica “especializada” abandonou a sessão onde era exibido um dos filmes mais aguardados do 62º Festival de Cannes, Anticristo (2009), dirigido pelo dinamarquês Lars Von Trier. Reação semelhante se em quase todas as apresentações do filme em nossas terras tupiniquins. Na capital paulistana, o público, agora formado por pessoas “comuns”, deixava o cinema com a expressão estupefata, variando entre o ódio e o deslumbramento. Algum pensador já alertou há algum tempo que toda a unanimidade não é lá grande coisa. Ou seja: agradar ou desagradar a todos é sempre um mau sinal.

Inegável também, até para os críticos mais ortodoxos, que Lars Von Trier é um dos últimos cineastas com colhões e autoria suficiente para propagar polêmicas e gerar discussões em torno de sua obra. Nestes tempos de originalidade escassa e cultura embalada para consumo imediato, parece inviável ao artista contemporâneo assumir qualquer posição ideológica que coloque em risco a postura politicamente correta.

(ALERTA: O TEXTO A SEGUIR APRESENTA UMA SÉRIE DE SPOILERS, ASSIM COMO INTERPRETAÇÕES PESSOAIS SOBRE O ENREDO)

O ENREDO
Von Trier repete o artifício de dividir a narrativa em capítulos, um recurso que soa um pouco didático e que contrasta em certos momentos com a profundidade da obra. “Luto”, “Dor”, “Desespero” e “Os Três Mendigos”, além do “Prólogo” e do “Epílogo”, são os capítulos que compõem uma trama surpreendentemente simples, sem grandes revelações ou reviravoltas. A virtude do roteiro (escrito pelo Von Trier) está nas entrelinhas e na expansão dos significados, de cada detalhe, de cada cena. No processo de construção de sentido, as possibilidades se multiplicam de forma intrigante, incitadas por um simbolismo que funde (e confunde) religião e razão, levando o espectador a re-pensar tudo o que ele vê na tela.

PRIMEIRO PLANO
Num primeiro plano, o longa narra o processo de enlouquecimento de uma mãe após a morte acidental do filho. Ela, consumida pela culpa (a criança cai da janela enquanto os pais faziam sexo), mergulha numa depressão profunda. O marido (em nenhum momento o casal é identificado por seus nomes), um experiente psicólogo, propõe um tratamento em que a mulher deve enfrentar todos os seus medos, não importando o quão obscuros sejam. Na teoria, a mãe estaria curada assim que compreendesse que mesmo os seus piores temores não representam uma ameaça verdadeira. O casal então se isola num local chamado por eles de Éden, uma espécie de cabana no meio de uma floresta. O isolamento, o sentimento de culpa e os demônios do passado desencadeiam na mãe reações desprovidas de lógica ou mesmo de sanidade. Aos poucos ela se torna extremamente violenta e uma ameaça real a vida do marido.

Mas a exumação do corpo do filho traz um detalhe que se transforma numa revelação importante: uma pequena imperfeição física nos pés do pequeno Nic. O pai descobre, revendo velhas fotos, que sabe-se lá por quê, a mãe sempre calçou no filho os sapatos invertidos (o direito no pé esquerdo e vice-e-versa). O sótão da cabana esconde outro segredo, ainda mais macabro. Centenas de anotações, por todos os lados, revelam o resultado de uma tese desenvolvida pela mãe meses antes. A mãe passara algum tempo no Éden, apenas com o filho, a fim de pesquisar sobre o sofrimento da mulher medieval, frequentemente acusada de bruxaria e perseguida pela Inquisição. A mãe chegou a uma conclusão oposta a intenção inicial do trabalho, ou seja, a Igreja Católica e a Santa Inquisição tinham razão em perseguir as mulheres, pois elas realmente carregavam no corpo o mal. O mal no sentido religioso, de manifestação diabólica.

Portanto, como justificaria os próprios manuscritos da mãe, ela poderia não estar apenas enlouquecendo, mas sim manifestando uma maldade inerente a toda a natureza e que se apresenta de forma acentuada nas mulheres. O mesmo estudo defendia ainda que a natureza fora criada por Satã e não por Deus.

Estas são as duas explicações mais evidentes para toda a violência desencadeada no Éden, a psicológica, onde a insanidade provocada pela dor da perda do filho ou a sobrenatural, que revelaria uma natureza diabólica da mãe – que poderia até ter sido omissa na ocasião da morte do filho (no desfecho, um flashback deixa dúvidas se a mãe não teria visto a criança se aproximando da janela).

Anticristo (2007)

PRÓLOGO – UMA PEQUENA OBRA-PRIMA
Rodado em preto-e-branco e em câmera lenta, a sequência inicial mostra de forma intensa e “poética”, o ato sexual dos pais. Enquanto a Ave Maria de Händel é tocada ao fundo – interpretada pela soprano norueguesa Tuva Semmingsen – uma corrente de ar abre a janela do quarto ao lado. As imagens de duas situações distintas se intercalam: a relação sexual dos pais e o filho vagarosamente caminhando até a janela aberta. O momento do orgasmo dos pais coincide fatalmente com a queda fatal da criança.

O TÍTULO E O SIMBOLISMO
Um dos primeiros enigmas propostos pelo filme é o próprio título. O que Von Trier quis dizer com Anticristo? Quem é o anticristo? Onde está o anticristo na trama? A interpretação mais facilmente aceita é a tese proposta pela mãe de que a natureza (plantas, animais, terra e as mulheres, principalmente) é o próprio Satã, ou o Anticristo.

O MANIFESTO ANTICRISTO
Outra possibilidade remete a interpretação simbólica de vários momentos do longa. Não seria, portanto, “o” Anticristo e apenas anticristo, apontando para uma postura ideológica da obra e quem sabe, do seu autor. O filme seria então nada mais do que uma espécie de manifesto contra o cristianismo, principalmente o cristianismo da forma opressora, preconceituosa e manipuladora como sempre foi disseminado, principalmente pela igreja católica.

Abaixo segue algumas possíveis relações entre o desenrolar da trama de Anticristo e o posicionamento da Igreja em algumas questões mais controversas:

O SEXO
Segundo a Igreja, o sexo é pecado quando o objetivo é apenas o prazer. A relação sexual deve acontecer apenas para a procriação – daí a condenação do uso dos métodos preservativos. No “Prólogo”, quando a mãe e o pai pecam – ou seja, fazem sexo – o filho acaba morto, revelando a face de um Deus Cristão punidor e vingativo. Posteriormente a eliminação total do sexo é representada com a castração do pai e da mãe.

A FIGURA FEMININA
A mulher sempre foi contemplada como impura pela Igreja, tanto que dentro da instituição católica as mulheres não ocupam posições importantes e mesmo as freiras não podem rezar missas. Durante a Inquisição, milhares de mulheres foram acusadas de bruxaria e queimadas na fogueira. E não nos esqueçamos da Eva, a mulher que conduziu a humanidade ao pecado. Em Anticristo, a mãe é a representante desta visão mulher impura/pecadora/portadora do mal.

Anticristo (2007)

OS DOGMAS CRISTÃOS
Os chamados três mendigos definidos no filme, representados pela Raposa, Corvo e Veado, podem ser uma alegoria aos Três Reis Magos, ou mais provavelmente a Santa Trindade: O Pai, O Filho e o Espírito Santo. Algumas das últimas palavras da mãe afirmam que “os três mendigos não existem” (esta frase poderia representar uma negação final do cristianismo).

O próprio cenário onde o pai e a mãe se isolam é chamado de Éden, remetendo ao Paraíso de onde Adão e Eva foram expulsos após o pecado original.

O ANTICRISTO DE NIETZCHE
É interessante ainda mencionar que Lars Von Trier, filho de ateus, ganhou aos 12 anos de idade um exemplar do livro O Anticristo, uma declaração contra o cristianismo escrita pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche. A obra foi o livro de cabeceira de Lars Von Trier durante muitos anos, até que, contraditoriamente, se converteu ao cristianismo.

Talvez o filme seja um grande manifesto antirreligioso e a mensagem – se é que ela existe – seja que o sexo não é pecado, que a mulher não é impura, que Deus não é uma entidade vingativa da forma quase maldosa como é descrito em alguns momentos da Bíblia cristã e a religião é só mais uma forma de manipulação de poder, como tantas outras.

DOGMA?
É irônico que Lars Von Trier venha subvertendo a estética naturalista que ele próprio defendeu, com o seu movimento Dogma, nos anos 90. Em Anticristo, a fotografia, impressionista e exuberante, é assinada por Antony Dod Mantle (do vencedor do Oscar Quem Quer Ser Um Milionário). A única herança dos experimentalismos da época do Dogma são as câmeras tremidas em alguns momentos, procedimento que de certo modo se opõe ao fino acabamento artístico das cenas.

FILME DE TERROR, SIM SENHOR
Outro questionamento, que certamente alguns leitores farão, é se Anticristo é realmente um filme de terror. A classificação em um único gênero (drama) mostra-se um grande equívoco, já que apesar do filme apresentar momentos de grande tensão dramática, também abusa da brutalidade nas sequências mais violentas.

Destes momentos, talvez excessivamente incômodos para o público que segue o cineasta, alguns se destacam:

Castração feminina – sem poupar o espectador, a mãe corta com uma tesoura o clitóris, tudo mostrado em detalhes (conselho: assistir com a namorada pode não ser uma boa ideia);

Castração masculina? – o casal interrompe uma relação sexual e a mulher, com um enorme bloco de concreto, atinge o pênis do marido. O homem desmaia, a mulher então o masturba. Tudo em on screen, inclusive a ejaculação de sangue!!!

Perna perfurada – não contente em provavelmente deixar o marido com sérios problemas sexuais, a mulher aproveita que ele continua sem sentidos e perfura a sua perna com uma furadeira. Ela então parafusa uma grande roda de pedra na em sua perna. O próximo passo é enterrá-lo vivo.

PORNOGRAFIA?
Parte das polêmicas geradas em torno do filme deve-se as diversas sequências explícitas, mostrando os órgãos sexuais masculinos e femininos. No prólogo, quando o casal está se relacionando, é mostrado em close o momento da penetração sexual. Entretanto, o sexo não é exatamente gratuito, ele dá ênfase ao emaranhado simbólico; e convenhamos, a censura é de 18 anos, e o filme não mostra nada que ninguém nunca tenha visto, e mais de uma vez.

A EXPLICAÇÃO DO RESPONSÁVEL
Quando questionado pela imprensa em Cannes, Lar Von Trier, sem nenhuma modéstia, declarou: “Não tenho que me justificar. Eu faço filmes e isto é fruto da vontade de Deus. Além disso, sou o melhor diretor de cinema do mundo”. O cineasta confessou também que Anticristo foi uma espécie de tratamento e a rotina das filmagens o ajudou a superar parte de uma depressão que sofria há anos, e que por isso considera o filme como o momento mais importante de sua carreira.

ELENCO
Outro ponto alto em Anticristo é o desempenho brilhante do casal, resultado da entrega de Willian Dafoe (A Sombra do Vampiro), que já havia trabalhado com Von Trier em Manderley, e da atriz inglesa Chalotte Gainsbourg (Lemming – Instinto Mortal). Gainsbourg recebeu, merecidamente, a Palma de Ouro em Cannes (2009).

DEDICADO A…
Uma curiosa e irônica dedicatória é apresentada antes dos créditos finais: “Dedicado a Andrei Tarkovsky (1932 a 1986)”. O cineasta russo é responsável por clássicos como Stalker e Solaris, mas é famoso também por abordar em suas obras temas espirituais e metafísicos.

INICIAÇÃO NO GÊNERO?
Ao contrário do que muitos afirmam por aí, Anticristo não é o primeiro filme dirigido por Lars Von Trier que pode ser classificado como terror. Um dos seus primeiros longametragens é um horror chamado Epidemic (1987) e ainda na TV dinamarquesa, o cineasta dirigiu e produziu a minissérie sobre o hospital mal-assombrado O Reino (1994 e 1997), adaptado para o público americano por Stephen King (Kingdom Hospital, 2004).

ENFIM
Anticristo é um filme para ser visto, amado e/ou odiado. Daí então você poderá escolher entre as centenas de adjetivos que foram associados ao filme: metafórico, incômodo, alegórico, simbólico, ambicioso, desagradável, gratuito, pretensioso, perturbador, desconcertante, polêmico, brilhante, sádico…mas nunca unânime.

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Média da classificação 3.9 / 5. Número de votos: 9

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19 Comentários

  1. Filme tem muitas cenas de sexo. A todo instante o casal estava trepando e gozando gostoso.

  2. Tem muita trepação no filme. Colocava no SEXY HOT .

  3. Um monte de merda. Quem não viu aconselho que não suja sua mente com imagens degradantes de um diretor seriamente perturbado em suas faculdades mentais.

  4. Excelente resenha de um excelente filme. Filme este que deve ser visto e revisto.

  5. Não precisava dar uma de ridículo e escrever “politicamente correto” na resenha. Já parece um paspalho conservador só de escrever isso. Perde automaticamente 100 pontos de respeito usando jargão de bolsonete.
    Já que quis enfiar ideologia política sem sentido algum neste texto, vou deixar meu recadinho politizado também.
    Muita gente de ideologia de esquerda e liberal gosta desse filme sim, coleguinha. Quem gosta de censurar tudo e podar o que e enfiar na goela dos outros o que é arte não é a gente.

    1. Mas cara, esse trecho do texto fala justamente sobre se afastar do politicamente correto. Menos, né?

      1. Acontece que quem sugere se “afastar do politicamente correto” é justamente a galera conservadora. Quem é acusado de ser politicamente correto, no caso a esquerda, nunca tentou censurar a arte, muito pelo contrário. Entendo que provavelmente essa não era a intenção do autor. Mas foi isso que o rapaz do comentário quis dizer.

      2. Não assisti o filme, mas tbm fiquei com essa impressão do colega aí em cima quando li isso no texto.
        O ano que eu escrevo isso, 2024, posso dizer que gosto do politicamente correto, acho que é legal a sociedade estar aprendendo a respeitar certos limites, mas acho que há muito confusão sobre o que é o politicamente correto. Canso de ver no tiktok vídeos do tipo “essa cena nunca existiria hoje”(pessoa mirando o politicamente correto). O politicamente correto só procura eliminar ataques(intencionais ou não, é importante frisar isso) a minorias, grupos étnico-raciais, gênero etc…
        O politicamente correto tá cagando pra desmembramentos, litros de sangue, exorcismo, usos de cruzes, pentagramas e etc…
        Vou dar um exemplo: no filme “a invasora”(2007), já resenhado aqui no boca do inferno, posso dizer que a única coisa que eu mudaria, por conta do politicamente correto, seria o bandido dentro do carro da polícia ser de uma etnia que se assemelha muito a um árabe, mas, sendo ou não um árabe, qual o sentido disso? Não foi algo que causou alarde quando esse filme saiu, e é passável para a maioria das pessoas, mas eu não colocaria. Ficou parecendo o mesmo que os estadunidenses fazem aqui de sempre associar latinos com traficantes ou bandidinhos de segunda categoria.

        1. Sobre A Invasora, tem todo um contexto pra esse moço no carro da polícia ter essa aparência e faz parte do ciclo de horror extremo francês da época. Alguns filmes criticam, às vezes sutilmente, como nesse caso, as políticas anti-imigração do governo, e esse personagem tava sendo preso justamente por isso. A polícia claramente não é boa nem competente nesse filme, então de jeito nenhum vejo como um simples bandidinho. Em Frontière(s) essa questão anti-imigração é bem mais óbvia.

  6. Lars Von Trier Sabe o Dia que não existir mais Corrupção no Brasil esse cara produzira um filme bom pois filme chato cansativo é bem filme pra lunático de locadora de dvd lhe empurrar a Goela abaixo e nada mais sabe um filme entediante mas assisti um filme superior a esse me tédio chama-se a Bruxa 2016

  7. Eu queria muuuuito entender os calçados invertidos da criança…
    Se tiver alguma explicação ou suposição me manda um email!

    1. Acho que a idéia era torturar o filho mesmo. Ela era uma mulher desequilibrada.

    2. O pai percebe que a mãe vinha infligindo dor a criança por meio da troca dos sapatos antes mesmo da morte do menino, ela não queria a criança…por isso a deixou morrer…

  8. No meu caso uma das maiores porcarias que já assistí.

  9. interessante, fugi desse filme mas acho que vale ser visto.

  10. estou pasma até agora depois de ver esse troço,um dos filmes mais bizarros que eu já assisti,só isso.

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