
![]() Além.da.Vida
Original:After.Life
Ano:2009•País:EUA Direção:Agnieszka Wojtowicz-Vosloo Roteiro:Agnieszka Wojtowicz-Vosloo, Jakub Korolczuk, Paul Vosloo Produção:Bill Perkins, Brad M. Gilbert, Celine Rattray Elenco:Alice Drummond, Celia Weston, Chandler Canterbury, Christina Ricci, Doan Ly, Jack Rovello, Josh Charles, Justin Long, Liam Neeson, Luz Alexandra Ramos, Malachy McCourt, Prudence Wright Holmes, Rosemary Murphy, Sam Kressner, Shuler Hensley |
Vida após a morte é um tema sempre fascinante, em qualquer forma artística. O medo do que possa acontecer ou encontrar do outro lado faz com que as pessoas alimentem suas esperanças numa continuidade. Cada religião a seu modo procura trazer respostas a essas questões, que sempre são envoltas de discussões intermináveis e, muitas vezes, intolerância. Será que as atitudes em vida determinarão seu destino após a morte? Há uma próxima vida, um Paraíso ou Inferno?
O gênero fantástico faz uso frequentes dessas questões de formas variadas. Seja na forma de uma assombração presente numa casa nas proximidades de um cemitério, de passageiros de um acidente aéreo, de uma produção de zumbis, de uma vingança sobrenatural, ou de um fantasma que não aceita o seu destino e procura dar pistas do que aconteceu a ele…, a ideia é sempre explorada com resultados no mínimo curiosos. Com tantas teorias sobre a outra vida, principalmente aquelas que apontam para uma continuação idêntica, como saber se você está realmente morto se há uma linha tão tênue entre os dois lados?
Além.da.Vida trabalha com essa pergunta, ainda que evite satisfatoriamente trazer a resposta. É uma produção de 2009, dirigida por Agnieszka Wojtowicz-Vosloo, a partir de um roteiro de sua autoria em parceria de Paul Vosloo e Jakub Korolczuk. Com exceção deste último, em sua estreia no cinema, o grupo só tinha trabalhado antes num curta apocalíptico chamado Pâté. Apesar da bagagem tímida, eles conseguiram convencer produtoras (Lleju Productions, Harbor Light Entertainment e Plum Pictures) a bancarem o seu projeto, distribuidoras pelo mundo a lançarem seu filme nos cinemas e em DVD (Anchor Bay Films) e ainda trazer para o elenco nomes conhecidos como Christina Ricci (Speed Racer, Amaldiçoados, A Família Addams), Liam Neeson (Fúria de Titãs, A Casa Amaldiçoada, Darkman) e Justin Long (Arraste-me para o Inferno, Duro de Matar 4.0, Olhos Famintos).
Não é à toa que todos esses envolvidos tenham decidido participar do filme de Agnieszka: a ideia é realmente muito boa e original, embora esbarre em outras produções com estilos similares. A claustrofobia, a impotência diante do desconhecido…já foram trabalhadas anteriormente (Awake – A Vida por um Fio e Menina.Má.Com…), mas nunca de um modo tão inteligente e único, abordando questões filosóficas e metafísicas. É impressionante como é um conceito simples, sem grandes pretensões, e ainda assim permite uma reflexão profunda e debates longos em aulas de filosofia e até em conversas triviais sobre o desconhecido em torno de uma fogueira.
Em Além.da.Vida, Anna Taylor (Ricci) é uma professora de uma escola de ensino primário que sofre um acidente violentíssimo após um mal-entendido com o noivo Paul (Justin Long) e tem a morte confirmada. Seu corpo é levado ao Deacon’s Funeral Home, conduzido unicamente pelo sinistro Eliot Deacon (Liam Neeson), um homem que diz ter o dom de conversar com os mortos, o que justificaria os diálogos com Anna depois que ela acorda no necrotério. A garota não entende sua nova situação e tenta aos poucos procurar explicações que justifiquem os acontecimentos tão reais, mas o frio Eliot diz que está ali para preparar os corpos para os velórios, assim como os espíritos para a passagem para o outro lado. No entanto, algumas pistas levam Paul, Anna e o próprio espectador a questionarem se Eliot não poderia ser um psicopata macabro que drogaria suas vítimas, realizaria uma tortura psicológica lenta e sutil e as enterraria vivas.
Anna Taylor: Por que nós morremos?
Eliot Deacon: Para tornar a vida importante.
Quando Anna começa a se convencer de que está a mercê de um possível sequestrador, Eliot mostra a ela uma imagem sua num espelho em estado cadavérico, o que poderia se a prova crucial de sua atitude correta, mas ainda assim a dúvida se mantém: seria um espelho modificado ou efeitos da forte droga a qual ela é submetida constantemente? Nesse momento, um outro elemento aumenta ainda mais a dúvida na pele de um garoto que consegue testemunhar Anna acordada, mas Eliot logo o convence de sua habilidade em também conversar com os mortos. No contraponto, a trama deixa empatado os lados e o espectador curioso sobre os acontecimentos quando mostra a mãe do menino e coloca em questão se ela estaria viva mesmo (por que ela não foi buscá-lo na escola? A aparência estranha dela é normal?)
Eliot Deacon: Os outros? Eles apenas veem você como um cadáver deitado no necrotério. Somente eu posso vê-la como você realmente é.
Outras pistas da trama são mostradas de forma sutil através do veículo no momento do acidente de Anna – que parece ser o mesmo de Eliot -, o comportamento estranho de seu sequestrador que tem o costume de fotografar os corpos que arruma para o velório (não é a atitude de um assassino colecionar vítimas?) e alguns pesadelos e ilusões que acompanham a narrativa. Esse constante jogo dos dois lados permite a reflexão do espectador, o que é raro e sempre bem-vindo em qualquer gênero.
O roteiro também trabalha com outra questão interessante: quando a pessoa deixa de estar viva, quando para de respirar ou deixa de viver? Desde a primeira cena, durante um ato sexual sem emoções, ou no simples fato de não aceitar um relacionamento mais sério com o apaixonado Paul, nota-se que Anna parecia já estar morta no filme há muito mais tempo. Nas palavras de Eliot: Eu imaginava que vocês fossem diferentes. Vocês dizem temer a morte, mas a verdade é que vocês temem a vida. Ou durante uma conversa com o garoto no cemitério diante da cova de Anna:
Eliot Deacon: É apenas um buraco no chão. É para…
Jack: …a Sra. Taylor?
Eliot Deacon: Exatamente. Para Anna. Ela pertence a ele.
Eliot Deacon: Por que ela está morta?
Jack: Não. Porque não há mais vida nela.
Além.da.Vida se destaca como a produção mais sensual de Christina Ricci, que aparece nua quase o filme inteiro para deleite dos fãs da atriz. Aliás, a eterna Vandinha não faz feio em seu papel dúbio, trabalhando com a amargura e a tensão de maneiras iguais, enquanto desfila com sua beleza jovial e provocante. Também se saem bem Justin Long, como o apaixonado Paul, capaz de qualquer loucura para resgatar a mulher de sua vida, e, principalmente, o excelente Liam Neeson, numa frieza incômoda e intrigante. Talvez o menino Chandler Canterbury em seu triste Jack deixe um pouco a desejar, embora suas feições não sejam muito exigidas.
A fotografia do longa – a cargo de Anastas N. Michos – é simples, mas mantém a atmosfera purgatória de forma eficiente, apesar de que se tivesse usado mais a neblina e uma aparência de fim de tarde teria tido um resultado ainda melhor; também é quase falha a montagem com algumas repetições desnecessárias entre os velórios, tentando mostrar a rotina de Eliot e levantando a dúvida sobre outras vítimas que teriam passado por ali.
Para aqueles que buscam uma narrativa mais acelerada, Além.da.Vida pode incomodar um pouco – embora, não seja essa a proposta do filme. Há boas cenas de tensão, mas o horror psicológico, os diálogos fortes e as mensagens escondidas são o carro-chefe do longa de Agnieszka Wojtowicz-Vosloo. É aquele tipo de produção que continuará com você depois que os créditos surgirem na tela – fator indispensável para a Sétima Arte.





Spoiler: O homem devia ter dito a ela que seu corpo estava morto, mas seu espírito não, porque espíritos não morrem. Isto explicaria a ela sua situação e a acalmaria.
Vi as cinco caveiras e, sendo um filme da minha atriz favorita (gosto das atuações da Christina Ricci, embora não de todos os seus filmes), fui conferir: comprei o filme que chegou semana passada, e já assisti duas vezes – virou um dos meus filmes favoritos.
Ah, sim: obrigado pela indicação!
Ótimo filme, no meio de tanta porcaria por aí, elenco acima da média, e história fantástica.
E, no fim, “Exit Music (for a film)” enquanto “sobem as letrinhas”. Irônica, de tão bem escolhida, a música faz todo aquele sentimento desperto ao longo do filme voltar de uma só vez, enquanto você ainda está com o pensamento preso na sequencia final.
Melancólico. Ótimo Filme.
cinco caveiras? será que vale a pena tanto assim mesmo? sei não em Marcelo,depois eu vejo.
Vale, sim, Vanessa!