4.5
(4)

O Retrato de Dorian Gray
Original:Dorian Gray
Ano:2009•País:UK
Direção:Oliver Parker
Roteiro:Toby Finlay
Produção:Barnaby Thompson
Elenco:Ben Barnes, Ben Chaplin, Colin Firth, Emilia Fox, Rachel Hurd-Wood, Rebecca Hall, Fiona Shaw, Caroline Goodall, Maryam d'Abo

Existem os contos clássicos e existe O Retrato de Dorian Gray. Escrito por Oscar Wilde – seu único livro – e publicado pela primeira vez em 1890, causou furor entre os críticos literários e jornais da época e o autor teve de escrever cartas aos seus detratores em resposta. No ano seguinte o romance foi revisado e ampliado e mesmo após cinco anos depois o fantasma de Gray assombra seu autor, quando de seu julgamento por “cometer atos imorais” trechos da obra foram usadas pela acusação contra Wilde.

Desde sua publicação, segundo o IMDB já foram 19 filmes diferentes adaptando o clássico (vinte, se considerarmos que A Liga Extraordinária traz Dorian Gray como um personagem) sendo que a mais famosa delas é indiscutivelmente a versão de 1945, que foi nomeada a três prêmios da academia levando o Oscar de fotografia.

A versão mais recente é a produção britânica dirigida por Oliver Parker (ator numa ponta em Hellraiser) e lançada na Inglaterra no cabalístico dia 09 de setembro de 2009 (nos Estados Unidos saiu direto em DVD), mas a premiàre brasileira só se deu mais de um ano depois na edição de 2010 do Festival Internacional de Cinema do Rio. A conclusão é que não supera a versão de 45, contudo é um excelente exercício de tensão e demonstra de forma atemporal a degradação da personalidade humana quando, por algum motivo, descobre-se que não há consequências para seus atos.

Dorian Gray (Ben Barnes, As Crônicas de Nárnia: Principe Caspian) chega novo e inexperiente a Londres da era vitoriana. Dono de uma fortuna herdada, o inocente e agora cobiçado Dorian, que sofreu traumas de infância, é rapidamente dragado pela luxúria da alta sociedade burguesa pelo carismático (e em certas vias, maligno) Lord Henry Wotton (Colin Firth). Ainda assim, Dorian permanece impassível e continua sendo o mesmo rapagão gente boa que veio do interior.

Para decorar a mansão em que Dorian agora reside, seu amigo Basil Hallward (Ben Chaplin) é chamado para capturar em uma pintura de Dorian todo o poder de sua beleza juvenil. Quando o retrato está completo, o resultado é tão impressionante que o rapaz acaba fazendo um “pacto” meio sem saber e dá a sua alma para ser eternamente como o retrato. E o resto é história: Dorian não envelhece nunca, mas todas as suas atitudes acabam se refletindo na imagem.

Pouco tempo depois, Dorian encontra e se apaixona perdidamente pela atriz amadora Sibyl Vane (Rachel Hurd-Wood). Depois de algumas semanas, ele a propõe em casamento, contudo é alertado pelo “diabinho no ombro” Henry que consegue convencê-lo de que o rapaz é muito jovem e bonito para se amarrar com uma garota só e que ter filhos é o “começo do fim” da vida. Após uma noite de sexo e drogas, Dorian começa a se entregar ao escárnio e larga Sibyl. A garota fica tão deprimida que se joga da ponte e morre afogada, a notícia é contada a Dorian pelo irmão dela James (Johnny Harris), que coloca o agravante de que Sibyl estava grávida.

Dorian parece arrasado, porém é consolado pelo próprio Henry de tal forma que entra na esbórnia de vez, agora Gray não tem mais limites e busca experiências em intensidades cada vez maiores de prazer e dor capazes de fazer o Marques de Sade corar de vergonha, e, enquanto isso, está disposto a qualquer atitude (mesmo que isso inclua assassinato) para manter seu segredo intacto, de que sua imagem no retrato pintado por Basil está se tornando uma criatura horrenda.

Bastante fiel ao conto de Wilde o diretor Oliver Parker tem méritos por explorar tão realista quanto o possível a deterioração do caráter de Dorian Gray, incluindo aí suas relações homossexuais que tanto causaram problemas ao autor e que muito provavelmente nas mãos de um outro poderia ficar apagado. Grandes elogios também podem ser feitos na edição e a ambientação na velha Londres que exala aquele clima igualmente atraente e assustador que podemos ver em maior escala em Do Inferno, por exemplo.

Agora, a película sofre com dois problemas, o primeiro e maior de todos é a redundância de muitas passagens e como o diretor estica cenas sem muito propósito na trama – assim, alguns diálogos que deveriam ser tensos, acabam se tornando monótonos e tiram um pouco de interesse do espectador, especialmente na etapa final que precisa ser acelerada para conter toda a informação que o roteiro tem a oferecer. Agora, o segundo não foi exatamente um problema para mim, mas nos comentários de alguns que estavam na sessão sim: o próprio quadro em si acabou se tornando um MacGuffin no filme. Ele quase não aparece na projeção e na maioria das vezes é de relance; não podemos ver a transformação física da alma de Dorian Gray retratada. Bom, para mim isso acabou sendo um ponto positivo.

Explico, quem vai ao cinema ver O Retrato de Dorian Gray e pensa que o sujeito da sentença é “O Retrato” sai perdendo, quando na verdade é “Dorian Gray”. Quero dizer com isso o que eu introduzi mais acima no texto: O Retrato de Dorian Gray é mais do que um filme fantástico sobre a alma de um homem presa em um quadro ou um conto sobre a imortalidade da beleza que o mundo moderno busca tanto com plásticas e botóx. É uma reflexão sobre as limitações da personalidade humana e de suas ações quando ele vê que todos seus movimentos trazem consequências e ao privá-las acaba anulando as barreiras psicológicas e mentais dos desejos desta pessoa. Significa que no final, uma vida totalmente “sem limites” pode envenenar de forma irremediável nossas almas.

Oscar Wilde pode até não ter pensado desta forma quando escreveu Dorian Gray (o que eu duvido), mas esta adaptação reflete muito esta característica. Só não é tão ajudado por Ben Barnes, que aparentemente não consegue ser assustador de forma convincente. Ao final das contas, assistir a mais esta transposição do livro para as telas é prazerosa e de certa forma reflexiva. Um passatempo bem ao estilo britânico de ser, ou seja, tenso e bem feito, porém as vezes parado demais.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 4.5 / 5. Número de votos: 4

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Sobre o Autor

5 Comentários

  1. Assisti à
    versão dos anos 40 na televisão. Chamou minha atenção a elegância do filme e sua belíssima fotografia. Gostei dessa nova versão, também vi na tv (a cabo), tem aquela classe típica dos filmes britânicos.

  2. O ator bonito, eu gostei dessa adaptação é bastante divertido e, certamente, me faz lembrar de uma nova série chamada Penny Dreadful que leva esses personagens clássicos como Dorian Gray e Frankenstein o que o torna mais interessante.

  3. Não chega aos pés do livro, mas é interessante. Só não gostei das liberdades tomadas na relação entre Dorian e Basil. Não que o livro não dê a entender isso, mas no filme ficou tudo muito escancarado,rs

  4. curioso pra assistir, ate por se tratar de um remeke dos anos 40

  5. um dia assistirei,só não sei quando hahaha,é sério 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *