Quadrilha de Sádicos 2 (1984)

Quadrilha de Sádicos 2 (1984)

Quadrilha de Sádicos 2
Original:The Hills Have Eyes Part II
Ano:1984•País:EUA, UK
Direção:Wes Craven
Roteiro:Wes Craven
Produção:Barry Cahn, Peter Locke
Elenco:Tamara Stafford, Kevin Spirtas, John Bloom, Colleen Riley, Michael Berryman, Penny Johnson, Janus Blythe, John Laughlin, Willard E. Pugh, Peter Frechette, Robert Houston, Suze Lanier-Bramlett

Numa daquelas ironias que volta-e-meia acontecem no mundo do cinema, o mesmo Wes Craven que revolucionou o horror de baixo orçamento norte-americano com o clássico moderno A Hora do Pesadelo em 1984 – dando origem a um dos mais famosos vilões daquela geração, Freddy Krueger – havia recém dirigido uma bomba monumental, um retrocesso na sua carreira e no próprio gênero, uma continuação maldita e ingrata de um dos clássicos da sua primeira fase como cineasta, Quadrilha de Sádicos, lançado em 1977. A sequência, batizada “criativamente” de Quadrilha de Sádicos 2, é presença garantida em qualquer coletânea das piores continuações da história, e uma amostra de como até um cineasta visualmente criativo, como Craven, pode cair nas armadilhas do dinheiro fácil.

Sim, porque o próprio Wes Craven declarou que fez Quadrilha de Sádicos 2 apenas para faturar um cheque com alguns milhares de dólares, pois estava numa fase de vagas magras pós-fracasso de O Monstro do Pântano (1982) e praticamente não recebia ofertas de trabalho. Por isso, declarou Craven, se naquela época lhe oferecessem um roteiro chamado Godzilla em Paris, ele filmaria sem pensar duas vezes. Um cara de princípios, não é mesmo?

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Com roteiro do próprio diretor, e produção do mesmo Peter Locke responsável pelo original, Quadrilha de Sádicos 2 é um filme dirigido sem qualquer vontade, criatividade ou ousadia. Custou muito mais que o original (cerca de US$ 1 milhão) e, em comparação, vale muito, muito menos. O roteiro segue a “cartilha para sequências desnecessárias” de cabo a rabo: traz de volta alguns personagens sobreviventes do original (mesmo um que tinha morrido no original!), utiliza cenas do primeiro em flashback, ressuscita os vilões sem explicar o que eles fizeram no tempo que separa um filme do outro, etc etc, sempre deixando no ar a sensação de que estamos vendo uma produção sem a menor necessidade de existir – até porque é bem diferente da proposta do original, sendo que o original já terminava de maneira bastante satisfatória, sem deixar gancho para uma sequência. E Craven erra a mão mesmo quando segue fielmente os passos da cartilha anteriormente citada. Ele traz de volta alguns sobreviventes do primeiro filme, mas raramente os coloca fazendo parte da trama principal (!!!), preferindo criar um novo e descartável grupo de personagens – que está lá apenas para morrer. Ele utiliza cenas do original em flashback, mas o faz de maneira insuportavelmente amadora e repetitiva. Talvez consciente de que o original é muito superior a esta bombástica Parte 2, Craven simplesmente foi colocando uma sequência infinita de cenas de Quadrilha de Sádicos (que acabam sendo a melhor coisa da sequência!) como se os personagens estivessem se lembrando dos traumas que viveram no passado. E, em determinado momento, no que já se transformou num verdadeiro “momento trash clássico“, até o cachorro da família do filme original tem um flashback!!! Vê se tem cabimento!

A trama de Quadrilha de Sádicos 2 situa-se oito anos após os eventos da primeira parte. Para quem não lembra, o primeiro Quadrilha de Sádicos mostrava como a família Carter, uma típica família americana, se perdia no deserto de Mojave, com seus integrantes sendo perseguidos, caçados e mortos por uma família de canibais mutantes que vivia nas colinas. No final, os Carter sobreviventes davam o troco e dizimavam os canibais, ajudados por uma dissidente dos vilões, a “boazinhaRuby (Janus Blythe). Se você não lembra do original, não se preocupe: esta sequência inicia com um letreiro chupado do clássico O Massacre da Serra Elétrica, onde um narrador com voz tétrica anuncia que “a história foi baseada em fatos reais“, e faz um breve resumo da trama do primeiro filme. O texto finaliza assim: “E os que sobreviveram jamais poderão esquecer que naquele deserto desconhecido, longe das cidades e estradas, as colinas ainda têm olhos…“, numa citação ao título original da película.

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Quando a Parte 2 realmente inicia, vemos Bobby Carter (Robert Houston), o caçula da família, contando sua história para um psiquiatra (David Nichols); neste momento, entra o primeiro de uma série de flashbacks com cenas do filme original – mostrando como Bobby e sua irmã Brenda mataram Júpiter, o patriarca do clã de vilões. Depois, Bobby explica que faz parte de um grupo de motociclistas que vai disputar uma corrida no deserto (claro…), onde os pilotos querem testar um novo combustível desenvolvido pelo próprio Bobby, o “Super Formula” (ai, ai…). Entretanto, a simples menção da palavra “deserto” fez com que Bobby remoesse seus traumas e medos mais profundos. Como todo psiquiatra de produção classe B, o doutor convence o rapaz de que o pesadelo já terminou, que os psicopatas estão mortos e que não há problema algum em ir ao deserto, que ele deve combater seus conflitos internos e traumas, enfim, aquela baboseira de sempre. “O que mais é preciso para convencê-lo? Eles estão todos mortos. O bicho-papão está morto!“, diz o psiquiatra. Sim, claro!

Vale ressaltar que Brenda, a irmã de Bobby vista no flashback (e interpretada por Susan Lanier lá em 1977), simplesmente desapareceu da trama, assim como seu cunhado Doug e a bebê Katy (os outros sobreviventes do original), sem que qualquer menção ou explicação razoável seja feita pelo roteiro. É que a história prefere apresentar o tal novo grupo de personagens – desta vez, adolescentes bobalhões, no estilo Sexta-Feira 13. Eles fazem parte do grupo de motociclistas e mecânicos comandado por Bobby. Primeiro, numa tentativa de suspense ridiculamente amadora, o filme nos apresenta Roy (Kevin Spirtas, que apareceu na série podreira Subspecies). Pois Roy, usando uma máscara monstruosa, escala a janela do quarto da namorada Cass (a gatinha Tamara Stafford) para dar-lhe um susto. O detalhe, conforme ficamos sabendo em poucos segundos, é que Cass é CEGA! Então por que motivo, razão e circunstância Roy estava tentando dar um susto na moça usando uma máscara monstruosa que ELA NÃO PODERIA ENXERGAR???? Grrrrrrrrrr!

Uma cena de sexo off-screen depois, e o roteiro rapidamente apresenta os outros integrantes da equipe, um grupo de jovens tão imbecil e descartável que nem valeria a pena citá-los, mas vamos lá: temos Harry (Peter Frechette), o piadista do grupo, sempre pregando peças nos demais (um clichê surgido com o personagem Ned, do primeiro Sexta-Feira 13); sua namorada Jane (Colleen Riley); o casal negro Foster (Willard Pugh, que fez o prefeito em Robocop 2) e Sue (Penny Johnson, recentemente vista no seriado 24 Horas), além do piloto metido a hippie chamado Hulk (John Laughlin). Também integram a equipe a namorada de Bobby, Rachel (Janus Blythe), e até o cachorro pastor-alemão sobrevivente do original, Beast (que, pela idade canina, oito anos depois, deveria ser um caco-velho de cão, mas continua em plena forma física, força e voracidade). Não é preciso ser muito observador para perceber que Rachel é muito parecida com Ruby, a única sobrevivente da família canibal no primeiro filme – até porque a personagem é interpretada pela mesma atriz. E embora o roteiro subestime a inteligência do espectador, fazendo com que esta revelação seja uma espécie de “surpresa” apresentada mais adiante na trama, Rachel e Ruby são exatamente a mesma pessoa. Aparentemente, os Carter sobreviventes resolveram levar a moça para a civilização, e Bobby começou a namorar com ela tão logo Ruby/Rachel esqueceu certos hábitos do passado – tipo comer carne humana. hehehehe

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Preguiçoso que só ele, o roteiro logo arruma uma forma de sacar Bobby fora da trama principal – chorando e amedrontado, ele tem mais alguns flashbacks do original (desta vez, do ataque dos canibais ao trailer da sua família) e se recusa a ir para o deserto com receio de enfrentar seus traumas. E cabe a Rachel escoltar o grupo na viagem. Aí entra um outro furo do roteiro vergonhoso de Craven: enquanto os outros personagens acham que a história da família de canibais do deserto é uma lenda urbana, tudo bem; mas, caramba, Rachel/Ruby sabe, com certeza absoluta, que a história é real, já que era uma integrante da família!!! E sabendo que o clã existiu mesmo, por que Rachel/Ruby guiaria um novo grupo ao local, sabendo que eles poderiam correr perigo de vida??? Grrrrrrrr! Como não adianta esperar muita lógica da trama, logo o grupo está todo num velho ônibus escolar a caminho do local da corrida. Só que, em mais uma prova da “extrema inteligência” do roteiro, eles descobrem que estão uma hora atrasados para o evento – por causa do “horário de verão” dos gringos, que por lá tem outro nome (“Daylight Savings” ou algo do gênero). Assim, para chegar a tempo no local da corrida, a única solução – claro… – é cortar caminho pelo meio do deserto, deixando a rodovia para trás. Inteligente, não? No caminho, um deles ainda comenta a suposta lenda urbana envolvendo o local: “Vocês já ouviram aquela história da família que vivia na área militar e comia todos que passavam por lá?“. Neste momento, Rachel dorme e tem um flashback de quando era Ruby, a filha caçula do clã canibal… Sim, mais um flashback!

Mal o ônibus começa a transitar pela estradinha secundária, uma pedra convenientemente atinge o tanque de combustível, abrindo um rombo que inicia um vazamento de gasolina. Este contratempo obriga o grupo a parar e pensar em uma solução, já que não terão combustível para chegar à “civilização“. Embora tenham litros e litros do “Super Formula” criado por Bobby no bagageiro, eles não podem encher o tanque do ônibus pois o veículo supostamente “não aguentaria o tranco”, mas o roteiro não se preocupa em explicar a razão – e, pior, as motos suportam perfeitamente o combustível! A solução encontrada pelos baiacus é dirigir até uma velha mina abandonada para discutir o caso, onde Harry, o brincalhão da turma, prefere ficar dando sustos gratuitos em todo mundo (mais assustador que suas brincadeiras, só mesmo o horrendo óculos estilo “Ambervision” que ele usa). E é na velha mina que Rachel/Ruby tem seu primeiro encontro com um integrante de sua família original, o feioso Pluto (novamente interpretado pelo deformado Michael Berryman). Nesse ponto, você pára e pensa: “Calma lá! Beast matou Pluto no primeiro filme, rasgando sua garganta!”. E foi isso mesmo. Mas, como eu escrevi anteriormente, o roteiro desta sequência não se preocupa muito com a lógica: usando cenas do original em flashback, reeditadas de maneira conveniente, tenta mostrar que Pluto não foi morto por Beast, e sim salvo na última hora por Júpiter!!! Grrrrrrrrr! E então Pluto ameaça Rachel/Ruby, mas é agredido, consegue escapar e, acredite se quiser, rouba uma das motos e sai pilotando velozmente pelo deserto!!! Sim, é isso mesmo: Pluto, um canibal que nasceu e cresceu nas colinas do deserto sem qualquer contato com a civilização, consegue, de uma hora para a outra, pilotar uma veloz motocicleta que nem motoristas com certa prática conseguem!!!!! Grrrrrrrr!

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Pior mesmo é que o restante do grupo trata aquele invasor sem o menor sinal de preocupação. Roy e Harry simplesmente saltam em suas motos e começam a perseguir Pluto pelo deserto, ignorando o perigo que correm. O psicopata é alcançado, toma uma sova de Roy e só não é morto porque o “herói” do filme é mesmo muito burro; enquanto isso, Harry cai numa armadilha preparada por um personagem misterioso e morre esmagado por um enorme bloco de pedra. Epa! “Personagem misterioso”? É isso mesmo! Acredite se quiser, mas nesta sequência temos a aparição de um novo integrante da família de canibais, um grandalhão com uma testa enorme chamado Reaper (John Bloom, morto em 1999), e que vem a ser (ai, ai, ai…) IRMÃO MAIS VELHO do Júpiter do primeiro filme (logo, tio de Pluto e de Rachel/Ruby). Além de a família não fazer qualquer citação ao tal Reaper no original, tem uma outra pegadinha: quando o velho Fred conta sua triste história a Big Bob Carter, no começo de Quadrilha de Sádicos (lembra?), ele diz que sua esposa não teve nenhum outro filho deformado antes ou depois de Júpiter. Então de onde diabos o Reaper nasceu? Será que foi trazido pela cegonha??? Grrrrrrrr!

Anoitece e Roy e Harry não retornam à velha mina – Harry porque foi morto, e Roy porque foi desacordado por Reaper. E o restante do grupo nem se preocupa com o fato! Quer dizer: foi comprovado que existem psicopatas canibais morando nas colinas; um deles tentou matar Rachel/Ruby e ainda roubou uma moto do grupo; não há como sair dali e nem armas para eles se defenderem. E, mesmo assim, os jovens continuam levando tudo na brincadeira, caminhando sozinhos de um lado para o outro, no escuro, saindo para transar e até para tomar banho! Quer dizer, você está no meio do nada, cercado por canibais psicopatas assassinos, e se preocupa com a higiene corporal??? Tsc, tsc, tsc… É neste momento que Rachel confessa ao grupo que, na verdade, chama-se Ruby e é uma ex-integrante da família de canibais, Porém, surpreendentemente, ninguém acredita na sua história; na verdade, acham que ela está usando drogas!!! E isso que momentos antes todos viram Pluto circulando pelo local, o que em tese comprovaria a história de Rachel/Ruby… Grrrrrrrrrr!

A partir de então, seguindo a lógica tradicional dos slasher movies, sempre que os jovens se separam para fazer coisas cretinas (apesar da recomendação “Vamos ficar todos juntos“), Reaper ou Pluto aparecem para acabar violentamente com eles, no melhor estilo Sexta-Feira 13 – incluindo gargantas cortadas com facão e machadadas na cabeça. Claro que até lá rolam umas cenas gratuitas de sexo e nudez, com o casalzinho negro mandando ver no ônibus e Jane, namorada do falecido Harry, indo tomar banho de chuveiro – detalhe: ao ar livre, sem qualquer medo ou constrangimento de ser apanhada ou vista por alguém!!!!! Grrrrrrrr! Para sua sorte, Cass – que é a personagem normalmente chamada “final girl” (porque sobrevive até o fim) nos slasher movies – tem uma espécie de “sexto sentido“, que lhe permite ouvir os passos dos vilões a quilômetros de distância e até mesmo “sentir” a presença dos canibais nas redondezas. Porque, como todos nós sabemos, os cegos cinematográficos sempre têm os sentidos muito ampliados – neste caso, Cass chega a dar um baile no Demolidor dos quadrinhos, e podia muito bem vestir um colante vermelho e sair combatendo o crime. O problema é que este tal sexto sentido funciona muito bem… MENOS quando o roteiro quer criar cenas precárias de suspense e “susto gratuito“. Num momento, por exemplo, Cass está no interior de um casebre quando Reaper salta por um buraco no telhado… e a ceguinha, com sua audição extremamente sensível, não conseguiu escutar os passos do gigantesco Reaper no zinco do telhado!!!! Grrrrrrrrr! Pelo menos, se serve de consolo, a “final girl” do filme NÃO é virgem, o que contraria o clichê mais tradicional do gênero – mas não se assanhe porque a gatinha Tamara Stafford, ao contrário de suas colegas de elenco, NÃO mostra seus, hã, “atributos carnais” em cena…

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Com tamanha burrice dos personagens humanos da trama, tanto do lado dos “heróis” como dos vilões, a criatura mais inteligente do filme acaba sendo o pastor-alemão Beast, que, além de ter um flashback (hahahahaha), ainda demonstra consciência suficiente para lembrar-se de Pluto (mesmo oito anos depois dos eventos do original) e querer vingar-se do canibal. O “acerto de contas” entre o cão e Pluto é uma daquelas cenas tão cretinas que ficam no limite do trash – tipo, você vê aquilo, porém não consegue acreditar que realmente está acontecendo – o que nos leva a imaginar que, se o cão não estivesse junto, provavelmente todos os jovens seriam mortos com a maior facilidade pelos vilões! Quando o número de humanos diminui rapidamente, graças aos ataques-surpresa dos vilões, sobra para Roy e Cass a tarefa de combater Pluto e Reaper nos escuros túneis da mina abandonada – que, de certa forma, lembra a caverna onde se escondem os canibais de O Massacre da Serra Elétrica 2 (feito no ano seguinte, em 1986), incluindo dezenas de cadáveres e pedaços mutilados de corpos espalhados. Aparentemente, aquele ponto do deserto é visitado por dezenas de pessoas toda semana, para justificar a quantidade de cadáveres despedaçados na mina… hehehehehe

Como o leitor deve ter percebido, Quadrilha de Sádicos 2 é muito, mas muito ruim. Daquelas seqüências que, como o anteriormente citado O Massacre da Serra Elétrica 2, e também muitas outras (O Exorcista 2, Piranha 2, O Cemitério Maldito 2…), são uma mancha no currículo de seus realizadores, pervertendo e destruindo um excelente filme original com uma continuação caça-níqueis e sem propósito. No caso de Wes Craven, isso é ainda mais notável pelo fato de ele ser também o diretor do primeiro capítulo; e, portanto, deveria mostrar pelos menos um pouco de respeito com a própria obra. A única forma de encarar Quadrilha de Sádicos 2 é como comédia – e, de preferência, esquecendo completamente que estamos vendo uma sequência de uma excelente produção dos anos 70. Pois no intervalo de oito anos em que Craven dirigiu os dois filmes, ele parece ter desaprendido tudo o que sabia: enquanto o original era violento e tinha um clima de tensão e suspense quase insuportável, esta Parte 2 não passa do convencional. A falta de história é tamanha que o tempo de duração não chega nem aos 85 minutos. Graças a Deus!!!

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Se o diretor colocasse uma máscara de hóquei em Pluto, Quadrilha de Sádicos 2 poderia muito bem ser lançado como uma seqüência de Sexta-Feira 13 – até tem a música muito parecida com a desta franquia, já que o compositor da trilha sonora é o mesmo, Harry Manfredini. Em alguns momentos, quando Manfredini usa seus maneirismos habituais (tipo o “tchi tchi tchi” na música), o espectador chega a esperar que Jason pule de trás de uma moita para ajudar a matar os personagens bobalhões! Aliás, Quadrilha de Sádicos 2 foi uma espécie de treino para alguns participantes de sequências posteriores da franquia Sexta-Feira 13: Kane Hodder, que aqui foi apenas um mero dublê, logo se transformaria no “intérprete” de Jason Voorhees em quatro episódios da série (partes 7, 8, 9 e 10); e Kevin Spirtas, que sobreviveu aos ataques de Pluto e Reaper neste filme, aprendeu o suficiente para escapar também do próprio Jason como mocinho de Sexta-Feira 13 Parte 7. Mas, pior ainda do que na série estrelada por Jason, em Quadrilha de Sádicos 2 as mortes e supostas “cenas de suspense” são todas previsíveis. É alguém sair sozinho para você saber que ele já pode ser considerado morto; é alguém abrir um armário para você saber que dali de dentro vai cair algum cadáver; é parecer que tudo acabou para vir aquele tradicional “último susto“… Se no primeiro, quando a família canibal estava completa, era difícil matar as vítimas no deserto, de uma hora para a outra tudo virou moleza: os vilões são apenas dois, só que onipresentes, estão em todos os lugares ao mesmo tempo, sendo capazes de matar um personagem lá longe, nas colinas, e no minuto seguinte fazerem barulho do lado de fora da casa onde os outros estão escondidos. Ou então ficarem horas debaixo de um ônibus só para agarrar a perna de um desavisado que deu o azar de passar por ali bem naquele momento!!! Sentiu o drama?

Enfim, esta é uma produção extremamente convencional, onde nem mesmo o trabalho de Craven como diretor de cenas de horror se salva. Todas as cenas de violência já foram vistas antes – e melhor – em slashers tipo as séries Sexta-Feira 13 e Halloween, sem contar suas infinitas imitações. E, afora uma garganta cortada que jorra sangue, quase todas as mortes são off-screen, apenas vemos os cadáveres caindo do teto ou de dentro de armários nas cenas posteriores. Piorando ainda mais o conjunto da obra, Craven, neste filme, utiliza de maneira insuportável aquela sua velha obsessão por armadilhas caseiras. Lembra que em Last House on the Left o médico fazia armadilhas para pegar os assassinos da filha? Que no Quadrilha de Sádicos original os Carter faziam uma armadilha para pegar Júpiter? E que até em A Hora do Pesadelo Nancy preparava algumas armadilhas contra Freddy Krueger??? Pois neste Quadrilha de Sádicos 2 Craven abusa tanto do recurso que começo a achar que o homem tem alguma tara ou fantasia sexual por armadilhas (será que ele se excita ao cair em armadilhas?). Tanto vilões quanto heróis passam o tempo inteiro fazendo armadilhas para pegar uns aos outros. Eu não duvido que Chris Columbus tenha se inspirado em Quadrilha de Sádicos 2 ao dirigir Esqueceram de Mim… Se bem que a tática, em certos momentos, lembra mais os velhos desenhos do Papa-Léguas (Reaper e Pluto devem ser grandes clientes das Indústrias Acme, pois simplesmente encheram o deserto de armadilhas!). Pior: com toda aquela imensidão de areia e colinas para perambular, os personagens sempre conseguem pisar BEM NO LOCAL em que os vilões colocaram as armadilhas!!!!! Grrrrrr!

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Se é extremamente ruim no seu desenvolvimento, Quadrilha de Sádicos 2 consegue ser ainda pior na conclusão, onde um dos personagens centrais (Rachel/Ruby) é simplesmente “esquecido” sem que o roteiro se preocupe em explicar se ela está viva ou morta. Em sua última aparição em cena, a garota cai, bate com a cabeça em uma pedra e apaga (desmaiou? morreu?). E, a partir de então, desaparece da trama sem que seu nome seja novamente citado. Na novelização do roteiro, lançada como livro nos EUA, descobrimos que Rachel/Ruby morre empalada ao cair num poço cheio de estacas de madeira (sim, mais uma armadilha dos canibais…). Como tal cena não existe no filme (se é que foi filmada…), o roteiro simplesmente deixa nas mãos do espectador decidir se Rachel/Ruby morreu ou se vai acordar a qualquer momento e sair vivinha para continuar sua vida ao lado de Bobby e, agora sim, nunca mais voltar ao deserto. Considerando a importância da personagem (que inclusive veio do filme original), é surpreendente o descaso desta continuação com o seu destino… E olhe que este é só mais um dos muitos problemas de Quadrilha de Sádicos 2!

A quantidade de furos no roteiro é imensa. Por exemplo: o que Pluto e Reaper ficaram fazendo no deserto nos oito anos que separam Quadrilha de Sádicos da sua Parte 2? É inadmissível que, após o retorno dos Carter à civilização, no final do original, policiais ou mesmo militares não tenham revirado aquela parte do deserto em busca dos criminosos. E mais: o que aconteceu com a matriarca da família, que sobreviveu à Parte 1, mas cuja existência nem ao menos é mencionada neste segundo filme? E o que o próprio Bobby Carter ficou fazendo nestes oito anos entre o original e a sequência? Quando o filme começa, ele é mostrado como um rapaz traumatizado que conta sua história a um psiquiatra. Como parece estar contando a história do seu trauma pela primeira vez, será que Bobby esperou OITO ANOS para ir ao psiquiatra? Ou estará contando a mesma história pela milésima vez ao pobre especialista? Argh! O roteiro simplesmente não tem lógica!!! Os personagens passam o tempo inteiro realizando atos que jamais fariam na vida real, como na cena em que Foster, logo após transar com Sue, vai espiar Jane tomando banho (!!!). Pois o taradão é apanhado no flagra por Sue, a mocinha sai correndo pelo deserto (alheia ao perigo, obviamente), e Foster começa a persegui-la… DE ÔNIBUS!!! hahahahahaha. E por falar em ônibus: por que é que os personagens simplesmente não pegam suas motos e fogem dali quando descobrem que o ônibus está imprestável e há canibais na região? Hmmmmm…

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Até entendo o fato de Wes Craven escrever e dirigir um filme somente pelo dinheiro… mas será que não poderia fazer algo com um pouquinho mais de vontade e empenho, pelo menos? O que parece é que todos os acertos de Craven em Quadrilha de Sádicos foram um mero acidente, pois ele não repete nada daqueles acertos aqui nesta sequência. Todo aquele interessantíssimo contexto de “família boa” contra “família malvada“, e a necessidade das vítimas descerem ao nível dos seus agressores em defesa própria, desapareceu completamente da sequência, que transformou-se em um slasher movie igual a muitos outros feitos no período. E ruim, ainda por cima. Se nos EUA, pátria em que foi produzido, Quadrilha de Sádicos 2 já foi devidamente defenestrado (recentemente ganhou uma reedição em DVD pobre, com imagem ruim, por uma distribuidora furreca), nós, brasileiros, podemos esquecer qualquer possibilidade de ele sair por aqui tão cedo, já que está esquecido no país há mais de 20 anos. E, agora, só resta torcer para que o cineasta francês Alexandre Aja, que revitalizou (e melhorou) o Quadrilha de Sádicos original com um excelente remake, não caia na burrada de refilmar também Quadrilha de Sádicos 2! Certas coisas deveriam permanecer apodrecendo no deserto…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

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