Fantasma IV: O Pesadelo Continua (1998)

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Fantasma IV: O Pesadelo Continua
Original:Phantasm IV: Oblivion
Ano:1998•País:EUA
Direção:Don Coscarelli
Roteiro:Don Coscarelli
Produção:Don Coscarelli
Elenco:A. Michael Baldwin, Reggie Bannister, Bill Thornbury, Heidi Marnhout, Bob Ivy, Angus Scrimm, Christopher L. Stone, Chloe Kay, Sylvia Flammer

Don Coscarelli temia que precisasse fazer mais filmes para a franquia com o Homem Alto, ainda que tenha deixado o terceiro com um final aberto. Porém, a necessidade surgiu quando o cineasta Roger Avary, fã da série, apareceu com um roteiro pós-apocalíptico envolvendo os personagens, incluindo até mesmo uma aparição de Bruce Campbell como Ash. Para que o roteiro de um “Phantasm 1999 AD” tivesse luz verde, seria preciso um novo filme que o preparasse para tal, funcionando como uma transição para um grandioso final.

O problema é que Coscarelli não tinha orçamento para fazer mais um. Fantasma 2 e Fantasma 3 tinham custado dois milhões e meio cada, e o longa que seria a ponte para a ousada ideia de Avary só teria um orçamento estimado em U$650 mil dólares, pouco mais do dobro do filme original. Por essa razão, o roteiro de Fantasma 4: O Pesadelo Continua quase que inteiramente se passa no deserto, pela dificuldade em construir sets para a sua realização. Além disso, o diretor contou com favores, como da produtora KNB EFX e até de fãs da franquia, que produziram o efeito do enxame de esferas. Já o roteiro também fez sua parte, incluindo várias cenas não aproveitadas do primeiro filme, lembrando que foram rodados mais de três horas de filmagem.

Assim, não tinha como Fantasma 4 se sair bem. Os fãs até que curtiram o resultado final, mas uma avaliação mais cuidadosa não esconde seus vários problemas, incluindo a bagunça narrativa em que envolveu sua trama, com inúmeros flashbacks, viagens no tempo e interdimensionais, pesadelos, sem que você consiga entender o que está acontecendo. A franquia demonstrava um intenso desgaste, sem ter mais razão para continuar, e seus furos no roteiro passaram a ser mais evidentes.

Parece que houve uma intenção de Coscarelli de reiniciá-la já no terceiro filme, talvez colocando Mike (A. Michael Baldwin) como um novo Homem Alto. Ao notar que possui uma esfera dentro de sua cabeça, como se indicasse um futuro controle do vilão, o rapaz decide fugir dali, como se isso bastasse. E Reggie (Reggie Bannister), que estava preso à parede com inúmeras esferas ao seu redor, simplesmente é libertado pelo Homem Alto, dizendo que “o jogo final está começando” e deixando transparecer que precisa dele.

É provável que o Homem Alto o tenha deixado viver para que o ajude a encontrar Mike, certo? Mas não se explica porque momentos depois Reggie é atacado por um policial demoníaco, que tenta matá-lo na estrada. Não faz sentido. Assim como também não tem lógica tal atitude se posteriormente Mike será facilmente encontrado no deserto, entre idas e vindas por portais dimensionais que agora aparecem a qualquer momento. Antes era preciso uma sala especial para as viagens interdimensionais, construídas em mausoléus, e elas sempre conduziam ao que parecia ser um outro planeta onde os duendes eram vistos. Teria Mike agora o poder de fazer surgir tais portais, a partir da esfera colocada em sua cabeça?

Reggie salva uma moça de um acidente ocasionado pela tentativa dela de não atropelar uma tartaruga. Jennifer (Heidi Marnhout, de Bubba Ho-Tep) aceita a carona até um hotel abandonado em uma cidade próxima, esquivando-se mais uma vez dos galanteios de Reggie, para logo depois revelar duas esferas em seus seios e permitir que ele descubra que o som do diapasão pode ser uma arma contra os inimigos – uma ideia abandonada no restante do filme e também na continuação.

Enquanto isso, Mike tenta fugir de seu destino, mostrado pelo Homem Alto como próximo de acontecer. Relembrando de momentos de seu passado – os tais flashbacks -, o rapaz decide se matar no Vale da Morte se enforcando, despertando uma recordação de algo que teriam conseguido com o vilão, mostrando uma fragilidade do Homem Alto bem distante do poder de se reconstruir ou trazer novas versões suas. Por que o Homem Alto ficou preso na árvore, precisando da ajuda do jovem Mike, se ele tem o domínio das esferas? Simplesmente, não há explicações.

Em uma das viagens através dos portais, Mike retorna a 1860, época em que o Homem Alto aparecia numa carruagem, como vira no primeiro filme – um bom acerto do roteiro. Lá ele conhece um tal Jebediah Morningside, que seria, parece, o vilão antes de ter seus poderes, na construção de uma passagem interdimensional. Ali ele também reencontra a vidente cega do primeiro filme, sem que haja motivos para sua estadia ali.

Novas situações acontecem nessas travessias como a intenção de Mike matar Jebediah antes que ele se transforme no coveiro maldito. O enredo bagunçado também sugere que Jody (Bill Thornbury), que aparece ora na forma humana, ora como esfera, possa não ser confiável. No filme anterior, ele disse que não podia ser tocado, algo que Coscarelli basicamente abandonou nesse filme, provavelmente perdido entre as travessias.

O que não se pode negar é a ruindade absoluta de Fantasma 4. Nada mais faz sentido aqui. Coscarelli havia admitido nas entrevistas após o terceiro filme que não fazia ideia do que fazer com a franquia, simplesmente escrevendo cenas uma após outra sem que tenham qualquer lógica. Mike simplesmente adquire o poder da telecinesia, mexendo pedras para atacar os inimigos, e foi capaz até de criar uma esfera a partir de peças do carro. Tudo indicava que ela poderia ter uma importância imensa no combate ao Homem Alto, mas acaba sendo apenas um brinquedo, como o inimigo chama.

A falta de recursos para efeitos especiais, as tomadas excessivas no deserto, sequências de combate com monstros apenas para completar a narrativa, furos e mais furos… são tantos os problemas que impressiona a boa avaliação dada por muitos fãs da franquia. Se existe algo a ser enaltecido é, com certeza, a participação de Angus Scrimm agora com mais espaço para seu personagem ao mostrá-lo no passado.

Tão problemática se mostrou a produção que um quinto filme só viria ser feito em 2016, sem a direção de Coscarelli. Parece que o próprio não quis se envolver com essas esferas metálicas e viagens por dimensões. Fez bem, porque o quinto filme conseguiu ser ainda pior do que este.

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

2 thoughts on “Fantasma IV: O Pesadelo Continua (1998)

  • 06/06/2022 em 14:17
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    Eu gosto bastante deste quarto filme, todos os cinco filmes de Phantasm são legais.

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