![]() Capitão Mistério Apresenta: A Múmia Viva (#1 a #4)
Original:Supernatural Thrillers: The Living Mummy Ano:1976•País:EUA Páginas:68 em cada edição• Autor:Steve Gerber, Rich Buckler, Tony Isabella•Editora: Bloch |
De um dos gêneros mais em alta no início da década de 50, o horror nos quadrinhos americanos sofreu com a repressão imposta pelo Comics Code Authority, um órgão censor que analisava todas as obras publicadas e excluía tudo aquilo que eles achavam fora dos padrões. Os censores eram realmente rigorosos e vetavam todas as publicações que possuíam cenas com sangue, mortes explícitas, representação de autoridades de maneira questionável e até algo bobo, como colocar um “morto-vivo” na capa de uma HQ, era proibido. Porém, graças a um pequeno relaxamento do órgão repressor, a Marvel Comics no final da década de 60 e começo dos anos 70 decidiu apostar numa linha de histórias com temáticas mais adultas e sombrias do que as de seu universo de super-heróis, e muitos personagens de horror foram criados. Alguns ganharam tanto reconhecimento que atravessaram décadas.
Blade, Motoqueiro Fantasma, Cavaleiro da Lua, Morbius, Homem-Coisa e Daimon Hellstrom são algumas das famosas figuras que surgiram nessa iniciativa, saindo das páginas de materiais como Tumba do Drácula, Contos Estranhos, entre outras antologias. E foi assim que, em 1973, de uma dessas publicações chamada Supernatural Thrillers, que temos a primeira história da pouco conhecida múmia da Marvel, A Múmia Viva, criada por Steve Gerber e Rich Buckley.
Mais de 3000 anos atrás, a tribo africana conhecida como swarili é derrotada pelos egípcios, sendo escravizada e forçada a trabalhar nos grandes monumentos que o faraó Aram-Set desejava construir. N’Kantu, chefe-guerreiro dos swarili, consegue organizar uma rebelião dos escravos contra seus captores, e o confronto violento entre as partes tem seu momento derradeiro quando N’Kantu mata o faraó. Quando decide ir atrás de Nephrus, o sumo sacerdote e principal conselheiro que incentivava a crueldade de Aram-Set, N’Kantu é derrotado e levado para um templo, onde Nephrus lhe injeta uma substância misteriosa que o torna imortal, mas também o deixa imóvel, em um estado de animação suspensa. A terrível punição que o feiticeiro planeja para o implacável guerreiro é nada menos do que enterrá-lo nas areias do templo como uma eterna múmia viva: consciente e incapaz de escapar.
Antes do processo de mumificação ser finalizado, um terremoto ceifa a vida do sacerdote e soterra N’Kantu. Milênios se passam até que a múmia finalmente consiga escapar de sua “tumba” no aterrado templo. Após vagar pelo deserto do Cairo, a confusa múmia acaba entrando em confronto contra um grupo de antropólogos e sendo aparentemente morta. Mas não foi esse o destino de N’Kantu, que acorda mais uma vez confuso e causando problemas, dentro de um museu em Nova Iorque. Pouco após recuperar suas memórias, a múmia é transportada para uma outra dimensão, onde se encontra com os Elementais, poderosas criaturas Trans-dimensionais que foram impedidas de se mudar para a Terra no passado. Ao encontrarem N’Kantu, decidem dá-lo a missão de destruir o escaravelho rubi, um poderoso artefato mágico.
Em sua busca pelo escaravelho, a múmia vai aprendendo rapidamente cada vez mais sobre esse novo mundo, e quanto mais aprende, mais a sua vontade de enfrentar opressores e socorrer aqueles que precisam de ajuda fica latente, pois quando líder dos swarili N’Kantu sempre prezou pela justiça e igualdade. Além disso, começa a desconfiar que os seus benfeitores Elementais podem não ser tão benéficos assim.
A narrativa da história de origem de N’Kantu, roteirizada por Steve Gerber, é um tanto convencional, pois tem inúmeras similaridades com as histórias de Kharis, a famosa múmia dos filmes da Universal da década de 40. Quando Tony Isabella assume o roteiro, traz um pouco de novidade com a jornada da Múmia Viva à procura do escaravelho rubi e até uma pequena conexão com o universo de heróis da Marvel – N’Kantu chega a digladiar com o Monólito Vivo, um vilão obscuro e pouquíssimo usado dos X-Men. Porém, algumas situações adversas que o personagem é colocado e suas resoluções são um tanto esperadas e óbvias (a própria escolha do Monólito Vivo é um exemplo disso, já que o antagonista tem a temática de se autointitular um faraó). Apesar da pouca originalidade no enredo e das diversas semelhanças ao monstro da Universal, é divertido acompanhar as aventuras de uma múmia justiceira.
Ainda assim, A Múmia Viva, apesar de pouco conhecida, é um personagem que tem sua marca importante na Marvel. Suas primeiras histórias, que duraram de 1973 a 1975 nas edições #5 e depois de #7 a #15 da Supernatural Thrillers – publicadas no Brasil de 1976 a 1979 pela Editora Bloch nas edições #1 a #18, mas a resenha apresentada aqui abrange apenas as histórias publicadas entre as edições #1 a #4 de 1976 -, surgiram num período importante de ousadia da editora, aproveitando o afrouxamento da censura e experimentando histórias com temáticas de horror e sobrenatural. Além disso, N’Kantu foi o terceiro personagem negro na história da Marvel a ser protagonista principal de alguma revista, atrás apenas do Pantera Negra e Luke Cage.
Vale citar que A Múmia Viva fez um sucesso considerável no Brasil, sendo publicada na revista “Capitão Mistério Apresenta” em uma época que os quadrinhos de horror estavam em alta. Infelizmente o personagem e suas publicações nacionais foram esquecidos e, hoje em dia, são vendidas como raridades a preços exorbitantes. Em 2019 a Marvel lançou um omnibus intitulado Marvel Horror, onde compila as histórias de horror que publicou nos anos 70 em uma edição com mais de 1300 páginas, incluindo na íntegra todas as aparições da Múmia Viva nos quadrinhos.



