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Gótico Profundo
Original:Tennessee Gothic
Ano:2019•País:EUA
Direção:Jeff Wedding
Roteiro:Jeff Wedding, Ray Russell
Produção:Katie Groshong
Elenco:William Ryan Watson, Jackie Kelly, Victor Hollingsworth, Wynn Reichert, Jason Christ, Christine Poythress, Jim Ousley, Chip Ramsey, Harry Walker

Não sei se esse filme me enganou diversas vezes ou eu apenas fui distraído demais e sem muita intenção nele pra captar a “magia” da coisa. A primeira cena de Gótico Profundo é repugnante: um estupro em meio aos pântanos sombrios do Tennessee. A filmagem em 16mm faz parecer um daqueles filmes brutais da década de 1970. Eu jurava que esse filme era de, no mínimo, 1979. Mais um pouco, a vítima reage e mata seus dois abusadores, num arroubo catártico e intenso.

Momentos depois, Sylvia (Jackie Kelly), a vítima, encontra uma dupla de fazendeiros, pai e filho, enquanto caminha ensanguentada pela estrada em busca de ajuda. Ao levá-la para a fazenda, a dupla conclui que o melhor a fazer é “mantê-la em casa sob seus cuidados”, visto que o hospital mais próximo fica a duas cidades de distância e a moça provavelmente não tem ninguém a sua procura.

Os olhares insinuantes do pai e a avidez do filho pela moça (a matriarca morreu há anos) levam a pensar que um novo ciclo de violência está prestes a se iniciar, e que estamos, talvez, frente a um “rape and revenge” indigesto, quando a coisa muda de “tom”.

Gótico Profundo, ou Tennessee Gothic, para começar, é um filme de 2019 (!!!), para minha grande surpresa. É apenas o segundo longa do diretor Jeff Wedding, e pode-se dizer que é um trabalho que surpreende “de alguma maneira”, visto que até os momentos finais nada parece ser o que aparenta. Isso poderia ser um mérito, mas até o tom do filme é enganoso, ao sair de um eficiente e cru thriller ambientado nas entranhas do “deep south” americano, para uma comédia quase pastelão estilo Família Buscapé, com direito a muitas cenas de sexo, gags e algo que pode murchar quem espera uma continuidade da deixa inicial.

O sexo, em particular, vira o motor da trama, visto que a moça surge escapando de uma violência sexual e se mantém em uma dinâmica similar, agora “consentida”, com os três personagens masculinos centrais, enquanto somos distraídos do plot de sua identidade.

O mistério envolvendo a identidade de Sylvia, por sua vez, é o que prende o espectador até o fim, e, próximo ao clímax, a coisa toda muda de tom mais uma vez, agora, se aproximando mais do que os fãs de horror gostariam de ver (mas ainda distante da agressividade do início). No ato final, se destacam algumas similaridades com o clássico Olhos Famintos, outra referência dentro da estética “southern gothic”, o gótico sulista americano. Falar mais que isso é spoiler.

Gótico Profundo é um filme curioso, e talvez até perigoso. Você é capturado pela estética, fica pelo absurdo, e o espectador desavisado pode deixar passar batido, entre uma gargalhada e outra (ou não), as violências estruturais validadas pelo “costume”, mais mortais que muitos monstrengos metafóricos com asas. Anticlimático em muitos momentos, ainda vale a conferida pelo “conjunto da obra”.

Tá disponível no Darkflix+.

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