![]() Bruxas e Bruxaria – Contos das Ilhas Britânicas
Original: Ano:2026•País:UK Autor:James Hogg, Thomas de Quincey, William H.G. Kingston, Robert Louis Stevenson, Speranza (Lady Wilde), Anna Kingsford, Baillie Reynolds•Editora: Clepsidra, Ex Machina |

Durante séculos, mulheres que não seguiam à risca normas impostas pela sociedade ou, melhor dizendo, o que a igreja chamava de bons costumes, eram mal vistas, julgadas, excluídas e até mesmo condenadas, chamadas de bruxas. Houve um tempo em que pessoas que usavam ervas e outras misturas para curar enfermidades eram consideradas detentoras de um dom benéfico, curandeiras sábias e inestimáveis, responsáveis por operarem verdadeiras mágicas e milagres. Entretanto, nem sempre isso foi bem-visto, especialmente com a chegada da Igreja, que afirmava que magia era coisa do diabo e apenas seres divinos a serviço do verdadeiro e único Deus poderiam operar milagres. Mulheres que não eram submissas aos seus maridos também deviam estar sob influência demoníaca, ou até mesmo enfeitiçadas por bruxas. As lendas e crenças populares cresceram, se espalharam e se entranharam na imaginação das pessoas, retratando bruxas ora como seres monstruosos e concubinas do próprio diabo, ora assumindo diferentes formas para promoverem as mais diversas maldades, como assassinar bebês e corromper homens de bem. Cada país possui diferentes representações de bruxas, e muitas dessas lendas podem ser encontradas nas ilhas britânicas. Não é à toa que as editoras Clepsidra e Ex Machina escolheram justamente esse recorte geográfico para inaugurar a coleção Cadernos Escarlates, dedicada a contos sobrenaturais de diferentes países e tradições, com essa primeira edição dedicada às bruxas. Como é costume das editoras, temos aqui clássicos do gênero e raridades inéditas no Brasil de diferentes autores e autoras da Irlanda, Inglaterra e Escócia escritas entre os anos de 1829 e 1909, com prefácio, tradução e notas por Felipe Vale da Silva e curadoria, edição e mini-introduções por Cid Vale Ferreira.
As Bruxas de Traquair, do escocês James Hogg, nos apresenta a Colin Hyslop, natural de Traquair. O local era habitado por diversas bruxas em todos os lugares, sendo sua própria tia uma delas. O pobre jovem estava em desespero, pois havia recebido um ultimato e deveria ceder à bruxaria e renunciar ao cristianismo, e decide fazê-lo para enfim ter a mulher que ama em seus braços. Entretanto, a poucos minutos de selar sua sentença, curiosas figuras interrompem-no, fazendo Colin repensar seu destino. Há a presença de alguns seres fantásticos nesse conto, além da clássica representação de bruxa na visão cristã, e mesmo assim o autor consegue criar uma história fora do comum, instigante e satisfatória com diferentes elementos. Uma excelente escolha para abrir essa antologia.
Seguimos com um conto do inglês Thomas de Quincey, Levana e as Nossas Senhoras da Dor. Aqui, somos apresentados às Dores, que são três – assim como as Parcas que regem o destino, assim como as Fúrias que são a personificação da vingança e justiça, assim como as Graças -, e são chamadas de Nossas Senhores da Dor: Nossa Senhora das Lágrimas, Nossa Senhora dos Suspiros e Nossa Senhora das Trevas. A inspiração aqui vem da mitologia grega, sendo um conto muito bem escrito e preciso. Anos depois, as Nossas Senhoras da Dor inspiraram um certo diretor italiano a criar a “Trilogia das Mães”, levando-as da mitologia grega para o âmbito da bruxaria. Estamos falando, é claro, de Dario Argento e sua esposa, Daria Nicolodi. O clássico Suspiria (1977), Mansão do Inferno (1980) e O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas (2007) são filmes que modernizaram o tratamento dado às bruxas no cinema de horror.
Do inglês William H.G. Kingston, temos agora A Bruxa: Uma Lenda de Portugal. Na província abandonada por Deus chamada Beira Alta vivia uma senhora cuja sobrinha-neta, Maria, era casada com um homem que a odiava. Sabendo disso, a velha senhora resolve querer se vingar dele do jeito mais profano possível. Criando uma armadilha, consegue convencer Maria a encontrar um “galante cavalheiro” à noite, que acaba se revelando o próprio diabo e a pobre jovem agora tem um pacto com ele, sendo forçada a cometer as maiores atrocidades que aquele vilarejo já viu. Esse terceiro – e excelente – conto é o que possui mais elementos de horror até aqui, e com uma clássica representação de bruxas implantada pelo catolicismo: adoradoras de Satã dançando ao redor da fogueira, nuas e logo se transformando em algum animal asqueroso para cometer maldades na calada da noite.
A seguir, Janet, a Retorcida, do escocês Robert Louis Stevenson. O reverendo Murdoch Soulis chegou à cidade de Belweary pronto para ajudar a comunidade local, e precisava urgentemente de alguém para cuidar da casa paroquial e de suas necessidades, e assim ele contratou Janet. Muitos devotos foram contra isso, já que Janet não era vista com bons olhos – tinha um filho bastardo, não tomava a Comunhão, falava sozinha – e não parecia ser uma boa cristã, diziam que ela tinha parentesco com o próprio diabo. Soulis rejeitou esse absurdo e acolheu Janet de boa-fé após pedir que a velha senhora aceitasse o Senhor como seu salvador. Na manhã seguinte, Janet surge com uma aparência apavorante e não consegue mais falar, apenas ranger os dentes e babar. Soulis, convencido de que a pobre senhora havia sido alvo de maldades dos aldeões, fez várias pregações sobre tal crueldade. Logo, horrores indizíveis começam a se abater na região. Stevenson é mais conhecido pela sua obra O Médico e O Monstro, e esse conto, anterior à obra citada, também é um importante marco do terror escocês que merecia maior destaque mundo afora. Com uma atmosfera sombria e uma tensão crescente, temos realmente uma pérola daquela época. Horror corporal, histeria coletiva, aparições diabólicas e descrições de gelar a espinha fazem desse conto uma história excepcional em qualquer época.
De Lady Wilde, sob o pseudônimo de Speranza, As Mulheres com Chifres. Cada noite, uma mulher foi visitada por doze mulheres, todas com chifres, sendo a primeira com um chifre e a última com doze chifres, e precisa descobrir uma forma de se proteger dessas terríveis entidades. É uma narrativa bem curtinha, de apenas quatro páginas, e temos uma representação da figura da bruxa como ser místico do folclore irlandês, diferente dos contos anteriores.
O penúltimo conto é da inglesa Anna Kingsford, A Mulher Encantada. Ao acordar, uma mulher se encontra em lugares fantásticos com criaturas sobrenaturais. Um conto cheio de magia, misticismo, com uma leitura bem agradável que realmente nos dá a sensação de estarmos vivenciando um sonho.
Por último, A Queima de uma Bruxa, de Baillie Reynolds. Homens trabalhavam na construção de uma fogueira para executar uma bruxa, enquanto Gilbert Calton assistia impotente e cheio de raiva. Em um acesso repentino de fúria e coragem, decide ajudar a pobre mulher inocente prestes a ser queimada. Aqui temos a clássica representação da caçada e queima às bruxas, onde diversas mulheres inocentes, consideradas hereges, foram mortas pelos mais absurdos motivos. Muito bem escrito e com uma visão muito necessária da autora, o conto fecha a antologia com excelência.
Bruxas e Bruxaria – Contos das Ilhas Britânicas reúne algumas joias britânicas pouco conhecidas no Brasil, abordando as diferentes representações de bruxas nas mais diversas mitologias e tradições. Um trabalho que merece muito reconhecimento e seguramente uma preciosidade que merece estar na estante de qualquer estudioso ou amante de bruxas e boa literatura.


