![]() Por Trás da Máscara: O Surgimento de Leslie Vernon
Original:Behind the Mask: The Rise of Leslie Vernon
Ano:2006•País:EUA Direção:Scott Glosserman Roteiro:Scott Glosserman, David J. Stieve Produção:Scott Glosserman, David J. Stieve Elenco:Nathan Baesel, Angela Goethals, Zelda Rubinstein, Robert Englund, Scott Wilson, Bridgett Newton, Kate Miner, Ben Pace, Britain Spellings, Kane Hodder |
No universo de Leslie Vernon, Jason Voorhees, Michael Myers e Freddy Krueger são assassinos reais, figuras populares atuantes em Crystal Lake, Haddonfield e a Elm Street respectivamente. Como são de outra época — a tal dourada dos anos 80 —, Vernon acredita que seja o momento da ascensão de um novo psicopata, tendo em vista todo aprendizado adquirido com os clichês do estilo. Esse conceito genial partiu da mente absolutamente criativa de Scott Glosserman na realização de um mockumentary que acompanha o início de uma jornada de sangue.
Desde as ações de Ghostface, o subgênero passou a brincar consigo mesmo com mais intensidade. Essa metacrítica se fortaleceu pelas ideias que se repetiam em continuações oportunistas, principalmente dos slashers, na fórmula engessada do susto inicial, dos jovens com hormônios a mil, das vítimas que se isolam e desaparecem sem que alguém sinta falta e são dispostas para a final girl e o confronto com o assassino. Vernon (na ótima interpretação de Nathan Baesel, uma provável inspiração de Mark Duplass) conhece bem todo o processo, ainda mais com a tutoria do serial killer aposentado Eugene (Scott Wilson), uma referência a Billy, de Noite do Terror (Black Christmas, 1974), que, curiosamente, não teve sequência.
Como era comum em programas como True Life, em que uma equipe de jornalistas e cinegrafistas acompanhava todos os passos de uma celebridade, Taylor Gentry (Angela Goethals) e seus dois cameraman, Doug (Ben Pace) e Todd (Britain Spellings), estão dispostos a seguir a rotina de Leslie Vernon, um aspirante a serial killer, registrando todos os passos para o ponto de partida de sua carnificina numa pequena cidade em Maryland (uma referência À Bruxa de Blair, 1999). Extremamente simpático, Vernon apresenta seu modus operandi de maneira inteligente, como transmitir uma sensação constante de ameaça para a garota escolhida, Kelly Curtis (Kate Miner), uma garçonete que ele acredita ser virgem.
Ser um assassino em série exige um excelente preparo físico para que possa perseguir suas vítimas, aparentemente andando, para depois surgir à frente delas. E também alimentação controlada, técnicas teatrais para a construção de uma atmosfera de insegurança, organização das ferramentas que serão usadas por ele e pelas presas e até uma visita antecipada à ambientação. Ele também prepara o contexto de suas ações, ainda que fantasiosas, contando que faz parte de uma lenda urbana local sobre um garoto possuído, que matou os pais e foi supostamente morto pelos moradores da cidade. Assim, ele prepara uma falsa notícia de jornal que conecte o seu passado ao da final girl, fazendo com que o registro chegue às mãos de Kelly em uma de suas constantes idas à biblioteca, administrada pela Sra. Collinwood (Zelda Rubinstein, a eterna Tangina de Poltergeist, o Fenômeno em seu último filme. Propositadamente, as falas dela no filme seguem o mesmo acento de sua personagem no clássico de 82, em mais uma bem-vinda referência).
Leslie Vernon também apresenta seu abnegado, seu opositor. Trata-se de Doc Halloran (Robert Englund, em ótima performance) — nome em referência aO Iluminado, de Stephen King —, um antigo psiquiatra de Vernon e que emula sem discrição Dr. Loomis (Donald Pleasence), de Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978). Como ele conhece os traumas de Vernon, ele o acompanha e consegue impedir que Vernon inicie sua matança na biblioteca, passando a seguir os passos de Kelly, acreditando que seja uma potencial vítima.
Por Trás da Máscara: O Surgimento de Leslie Vernon é uma refeição completa e necessária para os fãs de slashers. Criativo e com participações especiais e referências — você pode flagrar Kane Hodder na Elm Street; uma citação ao carro de Sam Raimi, comum em suas produções desde A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1982), encontrar uma Configuração dos Lamentos na casa de Eugene; ver crianças pulando corda em frente a uma escola —, é impossível não se divertir com os clichês dos filmes de horror nas lições de Vernon, ainda mais se você gostou de O Segredo da Cabana (The Cabin in the Woods, 2011) e Nas Profundezas do Solo (Digging Up the Marrow, 2014).
Apesar do formato falso-documentário ocupar boa parte do filme, por vezes Glosserman o substitui pelo tradicional, principalmente no último ato, sem forçar a necessidade constante de registro, um dos erros mais comuns dos found footages. Outra boa ideia do roteiro, co-escrito por David J. Stieve, é exatamente quebrar as regras pré-definidas dos slashers: alterar a ordem das mortes, a falsa garota virgem, a verdadeira intenção do assassino. E também mostrar que a pupila Taylor parece não ter aprendido com as aulas do assassino, cometendo erros comuns das vítimas dos slashers, como não perceber que o próprio veículo pode também ter sido alterado para os propósitos do algoz.
Bem aceito na época de seu lançamento, por diversas vezes Glosserman teve que responder perguntas sobre uma possível continuação. Consciente que a brincadeira com o formato já não era mais novidade, o cineasta somente decidiu dar luz verde ao projeto no começo do mês passado. Em 2017, ele havia dito sobre a preocupação com o novo roteiro:
“O roteiro em si captura aquele período dos anos 2000, no meio dos gêneros torture porn/found footage. Tinha muitas coisas interessantes para dizer. Hoje, aquele filme é quase como uma história de época porque eu não quero necessariamente trazê-lo para os dias atuais, e ainda assim, certas coisas podem parecer um pouco antigas ou de época, dependendo de como você olha. Acho que capturamos a essência do que estava acontecendo há alguns anos. Se tivermos a oportunidade de fazer o filme, não sei se gostaria de tornar o roteiro mais atual. É um dilema.”
Essa dúvida parece ter sido sanada. Foi anunciado até mesmo o título do novo filme: Behind the Mask II: The Return of Leslie Vernon. O que se pode esperar dessa sequência? Além do retorno de Angela Goethals e Robert Englund, provavelmente teremos outras aparições de nomes conhecidos do cinema de horror! Vamos aguardar pelos próximos passos de Leslie Vernon, disposto a continuar sua trilha de sangue e morte.







