![]() A Hora do Espanto
Original:Fright Night Ano:2025•País:EUA Autor:John Skipp, Craig Spector•Editora: DarkSide Books |
Uma década antes da franquia Pânico virar um fenômeno por, entre outros elementos, utilizar a metalinguagem, outro famoso filme de terror fez uso desse recurso, mas de uma forma um pouco menos óbvia. A Hora do Espanto é um clássico cult do horror dos anos 80, importantíssimo para o gênero por revitalizar o mito do vampiro em uma época em que os slashers estavam em alta, enquanto as bestas com sede de sangue estavam ficando ultrapassadas. O público queria sangue e mortes criativas, perseguições no subúrbio, sentir medo durante um acampamento, e não castelos empoeirados e distantes abrigando seres milenares. E, no meio de tantas lâminas e banhos de sangue, surge A Hora do Espanto, nos apresentando um adolescente fã de filmes de vampiros tendo que lidar com seu novo vizinho, que é nada mais nada menos do que um vampiro. Sem castelos imponentes, sem lugares longínquos, ele está logo ali, na porta ao lado. E quem vai ajudá-lo é justamente o apresentador do programa que exibe tais filmes. Charley passou a vida toda assistindo e cultuando filmes de horror com vampiros, ele sabe perfeitamente reconhecer um. Basicamente, podemos dizer que, no quesito metalinguagem, A Hora do Espanto andou para que Pânico pudesse correr.
Na novelização escrita por John Skipp e Craig Spector e publicado no Brasil pela DarkSide Books, seguimos a mesma história do filme. Charley é um adolescente com os hormônios explodindo, e seu maior sonho é finalmente conseguir tirar o sutiã de Amy, sua namorada. Quando esse sonho está prestes a se tornar realidade, o jovem vê que alguém está de mudança para a grande casa ao lado no meio da noite. Além do horário peculiar, Charley, fã do programa A Hora do Espanto, que exibe filmes de terror de vampiros, vê algo que o deixa apavorado: um caixão sendo colocado dentro da casa. Pelo resto da noite, é só nisso que ele vai pensar.
Logo após a chegada do misterioso vizinho, assassinatos brutais assolam a região e, convencido de que tem algo muito errado na casa ao lado, Charley decide vigiá-la pela janela de seu quarto. Todos os dias diferentes mulheres vão até aquela casa, e são justamente elas que aparecem mortas nas reportagens dos jornais matinais. O adolescente não precisa de mais provas, seu vizinho é um vampiro e faz uma nova vítima toda noite, mas ninguém acredita nele. Nem a namorada, nem seu melhor amigo e muito menos a polícia. Tempos sombrios exigem medidas desesperadas, e o adolescente pede ajuda do maior e mais experiente caçador de vampiros que conhece: Peter Vincent, o apresentador de A Hora do Espanto, e ex ator de filmes de vampiros.
O livro não aprofunda a história do filme ou seus personagens, nos entregando exatamente o que já conhecemos, com uma leitura fluida e divertida. Alguns momentos de tensão parecem funcionar até melhor aqui do que no filme, especialmente para quem nunca assistiu ao clássico e não sabe o que esperar. Para quem já viu – e gosta do longa, é claro -, é uma divertida experiência revisitar esses personagens e acompanhar a saga de Charley para desmascarar o vampiro Jerry Dandridge. Os autores conseguem passar para o papel todo o clima dos anos 80, celebrando a diversão que era assistir filmes de terror na TV e ver personagens caricatos e assustadores, nos deixando com vontade de alugar uma fita VHS na locadora mais próxima.
Apesar de não acrescentar nenhum novo elemento no desenvolvimento narrativo ou de personagens, Charley e Peter tem um desenvolvimento competente, especialmente Peter Vincent. Seu nome é uma homenagem a dois ícones do cinema de horror: Peter Cushing e Vincent Price, e representa toda uma época na qual caçadores de vampiros e seus filmes eram reverenciados e programas de terror que exibiam filmes estavam em alta (aqui no Brasil, temos como exemplo o Cine Trash, apresentado pelo eterno Zé do Caixão). Também presta homenagens aos lendários Bela Lugosi e Christopher Lee. Peter sente-se ultrapassado, e reencontra um novo propósito ao encarar o mal que pensou existir apenas na ficção frente a frente.
A Hora do Espanto fez algo que não tinha sido feito até então nas telas (vale ressaltar que isso é no cinema, já que na literatura temos alguns exemplos de vampiros vivendo em sociedade, como em Entrevista com o Vampiro, escrito por Anne Rice em 1976), que foi atualizar a figura mítica do vampiro e colocá-lo como um simpático e charmoso vizinho que não oferece riscos, sendo que na verdade é um predador impiedoso. Na época, o diretor Tom Holland tirou a lenda das sombras dos castelos do leste europeu e trouxe para uma vizinhança qualquer, transformando-a em uma ameaça palpável, mas sem perder algumas de suas características clássicas. Isso abriu portas para que produções como Buffy, a Caça- Vampiros, True Blood e até mesmo Crepúsculo colocassem esses ameaçadores predadores logo ali, ao alcance de uma campainha. Além disso, tirou o tom frequentemente sério e sombrio dos filmes de vampiros, unindo horror com comédia de uma forma descontraída e que funciona muito bem, tanto no livro quanto no filme.
Ainda nessa linha, algo muito interessante é notar o paralelo que Holland fez com o cenário cinematográfico dos anos 80, também presente na novelização de Skipp e Spector. Em dado momento, o ex ator e apresentador Peter Vincent diz a Charley que essa geração não se importa mais com vampiros, só querem saber de slashers violentos e dizem que ele está ultrapassado e virou uma chacota. Mais para frente na narrativa, as duas gerações unem forças para vencer o mal, representando uma nova era de vampiros no cinema. De uma forma respeitosa e divertida, A Hora do Espanto reinventou os filmes de vampiros, e o livro, com excelente posfácio de Gabriela Larocca, é uma homenagem a esse clássico do gênero que merece mais reconhecimento. No final das contas, em pleno 2026, os vampiros de fato seguem em alta, perdurando na imaginação popular das mais diversas formas e mídias possíveis.



