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O Convento de Santa Clara; ou, O Espectro da Freira Assassinada
Original:Priory of St. Clair; or, Spectre of the Murdered Nun
Ano:1811•País:UK
Autor:Sarah Scudgell Wilkinson•Editora: Sebo Clepsidra

A popularização do horror gótico — e suas nuances na construção do gênero em todas as vertentes — se deve muito à influência feminina. Nomes como Ann Radcliffe, Mary Shelley, as irmãs Brontë, entre outras, fizeram a escola do estilo, mostrando grandiosas ambientações gélidas, de múltiplos cômodos, ossários e teias espalhadas, além de assombrações vagando através de lendas. Como a produção literária da época não era tão acessível para a população mais humilde, algumas editoras como Ann Lemoine (mais uma contribuição feminina) produziram em larga escala livretos com excertos e versões reduzidas de obras mais caras, no desenvolvimento dos chamados chapbooks ou bluebooks (devido a capa ser azulada). Custavam seis centavos ou um xelim, e o conteúdo se concentrava na essência de suas inspirações, espalhando histórias horripilantes em adaptações ou criações curtas. Uma desses autoras, de linguagem refinada, é Sarah Scudgell Wilkinson (1779-1831), que teve uma multifacetada carreira literária.

Escreveu cerca de 50 chapbooks, com versões adaptadas de romances conhecidos, mas também teve sua literatura própria, entre livros didáticos e infantis. Um de seus livretos se intitula “Convento de Santa Clara, ou O Espectro da Freira Assassinada“, publicado em 1811, e que chegou em versão traduzida por Carlos Primati em 2020, pelo Sebo Clepsidra, com apresentação de Franz J. Potter. Trata-se de um conto simples em seu enredo, com explícita inspiração na escrita de Matthew Gregory Lewis, com “O Monge“, e na de Radcliffe em “Os Mistérios de Udolpho” (1794).

O enredo é centrado no devasso Lewis Chabot, o Conde de Valvé, que, ao ouvir uma intrigante conversa quando atravessava o Marché aux Veaux (local onde Joanna D´Arc, donzela de Orleãs, foi queimada viva), vai ao Priorado de St. Clair, no momento em que a “pobre Julietta“, “a mais adorável de todas as criaturas belas“, fazia relutantemente seus votos para a vida eclesiástica, desmaiando logo após o ato. Completamente apaixonado pela moça, um sentimento novo para um homem que considerava as mulheres apenas como diversão passageira, Lewis tenta esquecê-la através de noitadas e bebidas, até se convencer do “objetivo de se apossar” da freira.

Ele se amiga do jardineiro Alexis, o único homem a ter acesso às mulheres do convento, com troca de boa recompensa financeira, e envia cartas a jovem, tendo todos os seus intentos absolutamente recusados por ela. Assim como o monge Ambrósio, ele prepara um coquetel com ervas para a criação de uma bebida que lhe causaria um “sono de aparência mortal por quarenta e oito horas“, deixando a impressão de uma morta causada pela enfermidade que já a incomodava. Alexis administra o veneno e ainda ajuda no recolhimento do corpo, levando-a à residência do Conde.

Mesmo a tendo como amante revoltada, cujo coração já pertencia a outro de quem foi obrigada a se afastar, durante uma tentativa de fuga pela capela, ele a assassina com um punhal. É claro que, como a Freira Sangrenta de Lewis, de T. J. Horsley Curties e do alemão Johann Karl August Musäus, o espectro da morta irá assombrá-lo, meses depois do ocorrido, quando o Conde já estaria casado com outra mulher. Alexis irá chantageá-lo pelo conhecimento que possui e a descoberta será inevitável. O conto abre com uma lei desenvolvida pelo arcebispo de Rouen de anistia a algum condenado uma vez por ano, no intitulado “Dia dos Santos Inocentes“, algo que poderia livrá-lo da fogueira, caso aceite uma exposição pública de seu crime.

O enredo peca por não assustar como devia. Um dos títulos evocava algo que Curties o fez com maestria, permitindo arrepios pela possibilidade de uma visita assombrosa. Wilkinson tem uma escrita de linguagem simples e bem interessante, sabendo descrever os ambientes góticos e prender o leitor em suas personagens, ainda que nenhuma delas tenha carisma. Mas faltaram calafrios no clímax, e ainda uma sensação desagradável de injustiça. Claro que a autora fez uso de seu discurso literário para apresentar uma realidade de submissão feminina e uma amostra que feminicídios e possessividade são situações atemporais e que infelizmente sempre fizeram parte do mundo em diversas épocas.

Ainda assim, mesmo que não tenha méritos assustadores, é um conto histórico que permite reflexões, muito bem feito, na representação de mais um exemplar religioso de tortura psicológica e vingança sobrenatural.

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