por Vitor Basílio
O gênero terror sempre foi conhecido por sua diversidade de subgêneros. Temos casas assombradas, slashers, found footage, gore, body horror, terrir e muitos mais. Dentro dessa miríade, alguns trabalhos acabam por dialogar, mesmo que indireta e não propositalmente, entre si. Seja por influência, homenagem, atualização ou pura cópia descarada. Um exemplo frequentemente citado é Mansão da Morte (também conhecido como Banho de Sangue), um giallo clássico do mestre italiano Mario Bava, produzido em 1971. O enredo gira em torno de uma herdeira idosa que é assassinada pelo marido afim de que ele possa controlar sua fortuna. Seguem-se então, vários outros assassinatos onde o criminoso nunca pode ser visto no momento da execução do crime, apenas suas mãos enluvadas, deixando a revelação sobre sua identidade a grande surpresa final. Muitos consideram Mansão da Morte a base do gênero que ficaria conhecido como slasher.
Pois bem. Em 1980, nos EUA, tivemos o primeiro filme da série que seria um dos símbolos do slasher, Sexta-feira 13. A obra traz todos esses elementos presentes no filme de Mario Bava, do assassino oculto, mortes violentas, até a revelação surpreendente da identidade de quem é o responsável pelas mortes. No ano seguinte, devido ao sucesso da primeira parte, tivemos Sexta-feira 13 – Parte 2, que introduziu ao mundo o serial killer Jason Voorhes, ainda sem sua característica máscara de hóquei. Nele, temos duas cenas que beiram (até ultrapassam, podemos dizer) a linha entre homenagem, referência e cópia. Num determinado momento da trama, um casal vai para o quarto afim de fazer sexo. No meio do ato, Jason os surpreende e mata os dois ao mesmo tempo com um arpão, enfiando-o nas costas do rapaz que está por cima até atravessá-lo e atingir a moça por baixo. Em outra parte, um personagem cadeirante está sozinho no lado de fora de uma casa quando é atacado por Jason, que o mata com um golpe de facão no rosto. E sabe onde encontramos essas mesmas cenas, praticamente com ângulos de câmera e cortes iguais? Em Mansão da Morte. E aí, caro infernauta, o que você diria? Em qual categoria
se encaixa esse caso? Referência, homenagem ou cópia? Uma discussão que com certeza rende bastante.
Porém, usei esse exemplo apenas para ilustração. O que quero tratar aqui é outra coisa. Vamos ver como as obras de José Mojica Marins, Lucio Fulci e Wes Craven dialogam entre si mesmo vindas de países e contextos sociais diferentes. E como as visões deles a respeito do fazer cinematográfico e do terror como gênero contribuíram para os seus pontos de contato. Vamos começar pelo brasileiro.
José Mojica Marins, considerado o pai do cinema de terror brasileiro, é o criador do icônico Zé do Caixão, um dono de funerária obcecado em encontrar a mulher ideal que possa lhe gerar o filho perfeito, que continuará o seu sangue e será superior ao resto da humanidade. Sua primeira aparição como personagem principal se dá em À Meia Noite Levarei Tua Alma (1964). Nele, Zé, após descobrir que sua mulher não consegue engravidar, passa a acreditar que a esposa de seu melhor amigo é a tal mulher ideal que tanto procura. O filme é marcado por cenas violentas e blasfêmias a crença católica, como Zé do Caixão zombando de uma procissão e comendo carne vermelha em plena Sexta-feira Santa. O destaque aqui fica pela atuação de Mojica Marins, encarnando um ser cruel, assustador e sem limite, passando por cima de todos para atingir seus objetivos e conseguir o seu filho perfeito.
Zé do Caixão ainda retornaria em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), e em Encarnação do Demônio (2008). Porém, por conta do sucesso do personagem, Mojica o colocaria em outros filmes, onde ele aparece como coadjuvante, num misto de ser mitológico e assombração, surgindo em delírios e alucinações dos personagens principais. Alguns desses títulos são O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), O Despertar da Besta (1969), Exorcismo Negro (1974) e Delírios de um Anormal (1978).
Sempre encontrando dificuldades em filmar por conta de pouco orçamento e da censura imposta a suas obras pelo regime militar pelo qual o Brasil se encontrava durante seu auge criativo, Mojica teve que se voltar para a TV, principalmente a partir dos anos 90, onde apresentou o Cine Trash na Band, sessão de filmes de terror que foi sucesso nas tardes da emissora. Ele só voltaria a cadeira de diretor em 2008 no já citado Encarnação do Demônio, onde pôde, finalmente, encerrar a trilogia do Zé do Caixão iniciada em 1964.
Já Lucio Fulci foi um diretor italiano conhecido como um dos maiores expoentes do subgênero gore, levando-o a extremos que poucos ousaram, o que lhe rendeu a alcunha de padrinho do gore. Antes, porém, ele dirigiu de tudo um pouco, dos gialli até western spaghetti, sempre sucessos comerciais, mesmo já com bastante violência e críticas à religião. Um filme que marcou sua fase pré-gore foi O Segredo do Bosque dos Sonhos (1972), por conta do qual, reza a lenda, ele foi excomungado pela Igreja Católica. A trama gira em torno de vários assassinatos de crianças, um tema já polêmico por natureza. E o infernauta não vai acreditar quem é o assassino. Para evitar spoilers, e porque quero que você assista esse filmaço, não falarei, mas saiba que causa controvérsias até hoje.
Só que o filme que consagraria a carreira de Lucio Fulci no mundo inteiro e começaria sua trajetória no gore foi Zombie – A Volta dos Mortos (1979), uma espécie de “continuação não oficial” do clássico A Noite dos Mortos-Vivos (1968) do estadunidense George A. Romero. Zombie é considerado por muitos a obra definitiva dos devoradores de carne humana, sendo mais cru e chocante que os filmes de Romero, referência máxima do subgênero zumbis. Daí em diante Fulci dirigiria outras películas marcantes como Pavor na Cidade dos Zumbis (1980), Terror nas Trevas (1981), A Casa do Cemitério (1981), e o violentíssimo giallo O Estripador de Nova York (1982). Em 1990, o cineasta resolveu, além de dirigir, também aparecer em frente as câmeras em A Cat in the Brain, onde interpreta uma versão ficcional de si mesmo, um diretor que começa a ter alucinações por conta das inúmeras cenas violentas que filmou ao longo da
carreira. Falaremos mais sobre esse filme daqui a algumas linhas.
Wes Craven é o criador do lendário Freddy Krueger, o assassino que aparece nos sonhos das pessoas para matá-las. Só que esse não foi seu primeiro filme. Craven estreou na direção com a porrada Aniversário Macabro (1972). Tirando inspiração de um filme de Ingmar Bergman chamado A Fonte da Donzela (1960), o filme conta a história de duas amigas que, para comemorar o aniversário de 17 anos de uma delas, saem para ir a um show. Na volta dele, elas se deparam com um grupo de três pessoas, a quem tinham perguntado sobre onde poderiam comprar drogas, que acaba por sequestrá-las; estuprá-las, torturá-las das maneiras mais cruéis possíveis e terminando por matá-las, quase como num ato de piedade após tudo que as fizeram passar. Depois de cometerem o crime, os assassinos pedem abrigo justamente na casa dos pais da aniversariante. Ao perceberem que o grupo matou sua filha, os pais se tornam algozes ainda mais violentos que os três e os liquidam na maior sem cerimônia, utilizando para isso até uma motosserra. O filme causou uma grande polêmica na época pela violência crua e o final pessimista. Cinco anos depois, ele faria Quadrilha de Sádicos (1977), onde uma família em férias se perde no deserto de Nevada e é atacada por uma tribo de canibais que por lá mora escondida. Novamente, Craven chamou atenção pela violência contida na fita, consolidando seu nome e trabalho dentro do cinema extremo do período. Ele se inspirou em duas coisas pra criar essa obra: o filme O Massacre da Serra Elétrica (1974) de Tobe Hooper (que havia se inspirado em Aniversário Macabro para criar este), e na história real de Sawney Bean, uma lendária figura do folclore escocês, retratado como o chefe de um clã de 48 membros que viveu entre os séculos XV e XVI na Escócia e que teria canibalizado mais de 1.000 pessoas.
Porém, somente em 1984 ele atingiria o ápice da fama com A Hora do Pesadelo, onde o já citado Freddy Krueger aparece pela primeira vez, com seu suéter de listras vermelhas e pretas, pele queimada, luvas com garras de metal e chapéu. A obra foi um sucesso estrondoso e rendeu várias sequências, com Craven voltando a direção, e também aparecendo em frente as câmeras, apenas na sétima parte intitulada O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger (1994) no intuito de encerrar a franquia. Dois anos depois, junto ao roteirista Kevin Williamson, ele lançaria Pânico (1996), uma releitura dos slashers oitentistas cheio de referências e metalinguagem. O filme foi um hit enorme, rendendo até o momento sete filmes (o último lançado agora em 2026), definitivamente marcando Wes Craven como um dos mais bem-sucedidos cineastas de terror do cinema, mesmo com uma carreira irregular.
Apresentados os diretores e falando brevemente de suas filmografias, vamos passar aos pontos de contatos entre eles. Os filmes que vamos utilizar nas análises foram citados nas introduções e agora falaremos um pouco mais sobre eles enquanto fazemos nosso exercício de aproximação e contraste. Comecemos entre José Mojica Marins e Lucio Fulci.
Delírios de um Anormal é um filme produzido por Mojica no ano de 1978. Na trama, o Dr. Hamilton é um psiquiatra que sofre de pesadelos nos quais o Zé do Caixão aparece para tentar raptar sua esposa Tânia. Seus colegas, preocupados, decidem ir atrás do cineasta José Mojica Marins (o próprio, interpretando a si mesmo) a fim de que ele possa ajudá-los a fazer com que Hamilton cesse os pesadelos. Mojica assegura ao psiquiatra que Zé do Caixão não existe, é apenas um personagem criado por sua mente. O destaque aqui é por criador e criatura, autor e personagem, aparecerem em tela (ainda que não contracenem). Mojica como Zé do Caixão e como ele mesmo, numa dualidade interessante em que o homem real entra como agente que vem para corrigir um mal causado pela entidade a qual o corpo daquele homem deu vida na ficção. E mesmo sem um embate direto entre os dois, Mojica consegue convencer o Dr. Hamilton e este se vê livre dos pesadelos que o aterrorizavam.
E o infernauta se lembra que eu disse ali que, além do orçamento limitado, uma das coisas que mais afligiram Mojica durante sua carreira, foram os cortes que a censura da ditadura militar exigia em seus filmes para que eles pudessem ser liberados? Pois então, Delírios de um Anormal é composto quase inteiramente por cenas cortadas de seus filmes anteriores. Por isso vemos em alguns momentos imagens em preto e branco, outras coloridas, e algumas diferenças na aparência do Zé do Caixão. Mojica filmou cerca de 35 minutos de cenas novas, as da trama do Dr. Hamilton, para encaixá-las com o material do passado. Assim procedendo, ele conseguiu finalmente aproveitar as cenas extirpadas de À Meia Noite Levarei Tua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão e O Exorcismo Negro e apresentá-las ao público pela primeira vez, ao mesmo tempo driblando a censura de uma maneira altamente criativa e realizando um excelente exercício de metalinguagem, ao colocar a si e sua criação em cena, onde aquele vem assegurar não apenas na trama, mas também para o público que assiste, que este não existe, é só um fruto de sua imaginação.
Já Fulci faria algo parecido no seu A Cat In The Brain (1990). Nele, o diretor interpreta uma versão ficcional de si mesmo, o Dr. Lucio Fulci, um ex-médico que virou um cineasta de filmes de terror gore. Ele começa a ter alucinações com as cenas violentas filmadas ao longo da carreira que são ativadas por situações do dia a dia como um almoçar num restaurante, revisar as filmagens feitas da sua obra em produção e até com o barulho de uma motosserra de um jardineiro. Já quase perdendo o juízo, Fulci procura a ajuda de um psiquiatra. Porém, este se mostra um maníaco que hipnotiza o diretor fazendo-o acreditar que ele cometeu crimes terríveis, que foram na verdade cometidos pelo psiquiatra.
As cenas dos delírios vêm de sequências cortadas de filmes anteriores de Fulci como Touch of Death (1988) e Ghosts of Sodom (1988), e de outros diretores italianos como Hensel e Gretel (1990) de Giovanni Simonelli, Massacre (1989) de Andrea Bianchi, The Murder Secret (1988) de Mario Bianchi e Bloody Psycho (1989) de Leandro Luchetti. Do mesmo modo de Mojica Marins, Lucio Fulci também tinha suas obras trucidadas pelos censores, chegando a momentos em que, nos EUA, suas produções recebiam classificação X, dada apenas a filmes pornôs por lá. Na Inglaterra, alguns filmes chegaram a ser mandados de volta à Itália e só conseguiram ser lançados no país no começo dos anos 2000, em VHS e DVD. À maneira de Delírios de Um Anormal, A Cat in The Brain funciona como uma recuperação do material descartado e exemplo da criatividade de seus diretores em criar algo novo em cima do trabalho passado, mostrando que o fazer cinematográfico nasce, também e contraditoriamente, das limitações impostas pela própria indústria a seus criadores.
Agora vamos às semelhanças entre José Mojica Marins e Wes Craven.
Em 1974, Mojica lançou Exorcismo Negro. Na trama, Mojica vai passar as férias de Natal no sítio de seu amigo Álvaro, aproveitando pra escrever o roteiro de seu próximo filme. No entanto, coisas estranhas começam a acontecer, como o avô da família agir como se estivesse possuído, bem como uma das filhas de seu amigo, Vilma. Descobrimos então que Lúcia, esposa de Álvaro, fez um pacto com uma feiticeira chamada Malvina para engravidar e salvar seu casamento. Em troca, Malvina deveria escolher com quem a moça iria se casar. Chegada a idade adulta, Malvina comunica a Lúcia que Vilma deve se casar com Eugênio, o filho do diabo. Lúcia não permite, pois, a moça já está noiva de outro rapaz. Malvina insiste no combinado e diz que o casamento é necessário. Mesmo com essa resistência, ele acontece e, para espanto de Mojica, é celebrado por ninguém menos que o seu personagem Zé do Caixão. O diretor assiste tudo escondido, incrédulo ao ver sua criatura ali na sua frente. Após a celebração, os dois acabam tendo um embate no qual Mojica precisa salvar a vida de Betinha, filha caçula de seu amigo Álvaro, e aniquilar Zé do Caixão através de um exorcismo.
Novamente como em Delírios de Um Anormal, temos autor e personagem aparecendo na mesma obra, só que aqui com a diferença de haver um encontro e duelo entre os dois. Mojica precisa derrotar seu personagem, numa batalha metalinguística de proporções reais, em que Zé do Caixão se torna um ser autônomo capaz de fazer mal a pessoas queridas por seu criador. Marins trabalha mais uma vez o poder da dualidade, em que seu corpo encerra o real e o imaginário, dividindo-se em protagonista e antagonista dentro de sua própria obra.
Wes Craven, por sua vez, aproximou-se do brasileiro em seu filme O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger (1994). Aqui, acompanhamos a vida da atriz Heather Langenkamp, que deu vida a Nancy Thompson no filme original de 1984. Tudo está bem em sua vida pessoal, casada e com um filho, e profissional, fazendo trabalhos para televisão. Porém, ela começa a receber telefonemas ameaçadores, um possível stalker passa a segui-la, e seu filho Dylan começa a se comportar de maneira estranha. E o pior, a atriz passa a ter pesadelos com seu inimigo da ficção, o próprio Freddy Krueger. Desesperada, Heather acaba recorrendo a Wes Craven para que ele possa ajudá-la. O diretor explica a ela que não é realmente Krueger, ele apenas está servindo de roupagem para uma entidade maligna real poder matar. De acordo com ele, essa entidade escolhe uma história e fica presa nela, permanecendo inofensiva. Só que com Freddy sendo morto em Pesadelo Final – A Morte de Freddy (1991), essa entidade ficou livre e, devido a tantos anos aprisionada nele, assumiu inteiramente a forma de Krueger, levando-o ao mundo real. E aqui, temos um Freddy mais sombrio, violento e cruel, sem as piadas sarcásticas que o caracterizaram nas continuações. Uma concepção que se aproxima da originalmente proposta por Craven quando da criação do personagem.
Aqui, então, temos Wes Craven participando do próprio filme como ele mesmo e oferecendo uma solução para acabar com a ameaça causada pelo personagem de sua criação (mesmo que não seja realmente Freddy Krueger, mas a entidade o usando como avatar, ainda assim é sua imagem). Craven não chega a ter um enfrentamento cara a cara com Krueger, mas funciona como peça fundamental na busca de Heather Langenkamp para derrotar seu algoz da ficção trazido para a realidade. O diálogo com Mojica se dá com Delírios de Um Anormal e Exorcismo Negro. Na primeira, o cineasta brasileiro também aparece como possuindo uma solução para um problema causado pelo seu personagem, enquanto na segunda, Marins é a própria solução, pois cabe a ele derrotar Zé do Caixão e evitar que ele destrua a família de seu amigo. Em ambos os casos, brasileiro e americano, os diretores-criadores tem a chave para domar suas personagens, tornando-os protagonistas e únicos capazes de destruir aquilo que saiu de suas mentes.
Além de mostrarem que, mesmo vindo deles, as criações possuem força e vontade próprias, adquirindo uma independência e autonomia que coloca em risco a vida das pessoas que os conceberam, bem como de outras a elas associadas. Zé do Caixão e Freddy Krueger agem à maneira da criatura de Frankenstein, numa rebeldia que visa findar a mente criadora e adquirir controle da própria persona.
Pois bem, caro infernauta, depois de feita toda essa exposição sobre esses três grandes cineastas, o que podemos concluir? Haveria alguma referência, homenagem ou cópia nos pontos de contato entre eles? Ou tudo foi apenas uma coincidência visto que o trio produzia dentro do mesmo gênero, o terror?
A resposta é simples: o espírito do tempo, ou, como dissemos antes, a solução encontrada dentro de uma limitação. No caso entre José Mojica Marins e Lucio Fulci, vemos a engenhosidade de suas mentes ao driblarem a censura e trazerem à luz cenas arquivadas. De acordo com os registros, não se sabe se o italiano chegou a conhecer a obra do brasileiro, mesmo este tendo um reconhecimento maior na Europa e EUA do que no Brasil. A similaridade de suas obras ocorre de uma reflexão: “o que fazer com todas essas cenas? Tanto trabalho, tantos litros de sangue, tanta técnica, para acabarem no chão da sala de edição. Daria até um novo filme. Taí, é isso!”. E assim nasceram dois
clássicos marcantes do cinema de terror. Mesmo entre Mojica e Craven o pensamento é semelhante: “e se o autor se encontrar com o personagem? E se este se rebelar contra aquele? E se aquele for o único que consegue destruir sua criação?”. Pronto, está feito o roteiro. Ainda, no caso de Mojica Marins, o público muitas vezes o identificava como Zé do Caixão, mais do que pelo seu verdadeiro nome. Logo, a metalinguagem entra aqui como uma maneira de brincar com a visão que o espectador tem da obra e do artista, juntando-os como uma coisa só. Algo que não acontecia com os outros dois cineastas. Valendo-se disso, Mojica abre novas possibilidades de exploração na relação com sua personagem e de como mexer com a mente de quem o assiste.
Outro ponto importante de lembrar também é que Marins, Fulci e Craven se especializaram e se destacaram dentro do mesmo subgênero, o gore. Suas cenas violentas e chocantes são impactantes e dialogam dentro da mesma proposta, o choque. Assim sendo, o trabalho orientado a atingir um mesmo objetivo e guiado pelo proceder do gênero, colocou-os nessa espécie de zeitgeist, isto é, o espírito do tempo em que estavam e, por vezes, demandava uma narrativa feita dessa forma. E isso de forma nenhuma diminui a genialidade deles. Muito pelo contrário, reforça a sensibilidade artística de cada um e como eram atentos ao contexto no qual estavam inseridos. Dessa maneira, devolveram ao público, em forma de sangue e metalinguagem, obras marcantes e imortais, verdadeiros testamentos da arte de três artistas talentosos e competentes, que, dialogando à distância, souberam extrair de si mesmos a essência criadora exata para marcá-los na história do cinema. Mesmo que ela pudesse, vez ou outra, se voltar contra um deles








