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Psicopata Vitoriana
Original:Victorian Psycho
Ano:2026•País:Espanha
Autor:Virginia Feito•Editora: DarkSide Books

Nas grandes e ricas casas de poderosas famílias da Era Vitoriana, era imprescindível ter na sua enorme lista de criados uma governanta. Alguém com autoridade, culta e de modos impecáveis, cuja função seria estritamente educar as crianças e ensiná-las o comportamento adequado da alta sociedade. Leitura, aritmética, piano, escrita, poesia, francês, etiqueta, acordá-las no horário correto, mandar que fossem dormir, corrigir maneirismos malvistos, ensinar a serem bons cristãos. O trabalho de uma governanta é deveras cansativo, além de estar sempre sob os olhos inescrupulosos de seus patrões, precisando ficar atenta a qualquer dedo mindinho levantado em momentos inapropriados. A atenção precisa ser redobrada se você for Winifred Notty, afinal, imagine dar conta de tudo isso e, ainda por cima, ter instintos assassinos. Em Psicopata Vitoriana, de Virginia Feito, vamos acompanhar as desventuras dessa nada pacata governanta em uma mansão com residentes um tanto peculiares…e detestáveis.

Winifred Notty é a mais nova governanta da mansão Ensor, onde cuidará dos não tão adoráveis filhos do casal Pounds. Conquistando uma certa simpatia do dono da casa e uma antipatia imediata da Sra. Pounds, Winifred logo é advertida que muitas governantas já passaram por ali, mas nenhuma permaneceu por muito tempo, seja pelos filhos insuportáveis ou pelas rígidas regras impostas. Nada disso assusta a nova governanta, que tem total confiança em suas habilidades e, assim que tem sua longa lista de funções atribuídas, vai conhecer as crianças. Andrew é mimado, mesquinho e maldoso, enquanto Drusilla é quieta e claramente negligenciada pelos pais e, novamente, nada disso faz Winifred – que diz preferir ser chamada de Fred – sequer piscar duas vezes. Fred tem uma personalidade excêntrica, para dizer o mínimo, e os demais criados parecem preferir manter distância, mas isso não a abala. Ela esconde (não muito bem) sua constante sede de sangue, e tem propósitos macabros para a Mansão Ensor e seus habitantes antes do Natal chegar ao fim.

O tom sarcástico da obra fica claro desde o início, com o humor ácido de Winifred, que, aliás, frequentemente quebra a quarta parede, constantemente presente. Temos todos os elementos para um romance gótico de época, como a mansão, a abastada família com seus segredos, a governanta, mas Psicopata Vitoriana não poderia estar mais longe de uma história de horror gótico tradicional.

Temos aqui uma protagonista que não é a mocinha em perigo, tampouco pode ser chamada necessariamente de vilã, apesar disso depender muito do ponto de vista. De um jeito um tanto bizarro, Fred é carismática a seu modo, e ler o que se passa na sua cabeça é divertido e sombrio ao mesmo tempo. Seus patrões definitivamente não são flores que se cheirem, muito menos as crianças e outros figurões da alta sociedade que eventualmente aparecem. O nojo da governanta por todos eles é mais do que justificado, e a cada página damos mais razão para as atitudes pervertidas e deturpadas dela. Aliás, interessante notar que seu sobrenome, Notty, tem a mesma sonoridade da pronúncia em inglês britânico da palavra naughty, que significa impróprio, perverso, maldoso, malcriado, desobediente e afins. Todos os adjetivos se encaixam perfeitamente em Winifred. Mas não para por aí. Virginia Feito foi tão brilhante que até mesmo o nome da protagonista é irônico, visto que Winifred, em galês, significa pura ou santa, por causa de Santa Vinifrida. Em outras palavras, a adorável governanta da Mansão Ensor é a pureza perversa, a santa imprópria, ou quaisquer outras derivações que preferir.

A violência é bem gráfica no livro, com requintes de crueldade explícitos. Acompanhar o degringolar da mente de Fred é algo curioso, ora sem sentido, ora engraçado, ora frenético, com seus pensamentos sendo morbidamente hilários e sagazes. Uma pausa entre aulas pode se tornar uma mordida, que logo vira um assassinato. Uma festa elegante pode virar um caos com um banho de sangue em um piscar de olhos. Parece não haver um gatilho para tais pensamentos e ações, eles apenas existem ali, sendo refreados a muito custo até explodirem de uma forma nada elegante.

Temos também um tipo diferente de violência, a violência implícita que rodeia constantemente a mansão Ensor. Drusilla é o maior alvo disso, sendo criticada por tudo e ignorada por todos, especialmente pelo pai. A Sra. Pounds frequentemente acha que está sendo ofendida às escondidas pelos criados, enquanto é humilhada abertamente pelo marido, criando uma paranoia nela de que ninguém é confiável e que tudo tem que estar sempre impecável para que ela seja reconhecida por seus modos de alta classe. Ambas representam como as mulheres eram vistas naquela época. Em uma sociedade como a vitoriana, onde as mulheres sequer tinham voz ativa, Winifred Notty causa tanto fascínio quanto rancor.

A narrativa é bem dinâmica, com capítulos curtos e sem grande aprofundamento nos personagens. Descobrimos o suficiente sobre o passado de Winifred, mas sabemos muito pouco ou nada sobre os demais personagens, o que dificulta ter alguma simpatia por qualquer um deles, e talvez essa seja de fato a intenção. O desfecho e páginas finais levantam algumas perguntas que ficam sem explicação, mas isso pode ser compensado por sequências de gore até que criativos.

A influência da literatura inglesa é óbvia, não apenas no título, e a autora cita obras como Jane Eyre e Morro dos Ventos Uivantes como referências, adicionando seu próprio estilo satírico e humor macabro. Com uma leve pitada da loucura assassina e jocosa de Sweeney Todd em uma Inglaterra vitoriana impiedosa, mansões que são palco para horrores, romances proibidos e segredos monstruosos, além de muitíssimo sangue, nasce Psicopata Vitoriana. Fred é a personificação de pensamentos intrusivos que escapam e viram atos reais, cruéis e não muito sofisticados para uma respeitável governanta. Porém, vale o alerta: não é uma leitura para todos por possuir diversos temas sensíveis e gatilhos.

A obra ganhou uma adaptação cinematográfica com estreia prevista nos cinemas brasileiros ainda em 2026, com distribuição da Diamond Films. O longa tem roteiro da própria Virgina Feito e é dirigido por Zachary Wigon, com Maika Monroe no papel de Winifred.

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