por Matt Ferraz

O Doutor Benignus é um sábio cientista que vive no interior de Minas Gerais e que decide se livrar do contato social direto para viver com a família e se dedicar à ciência. Esse rompimento se dá em uma festa de despedida que lembra muito a festa de aniversário de Bilbo Bolseiro em O Senhor dos Anéis, só que escrita várias décadas antes. Seus poucos companheiros restantes incluem o servo peruano Katini e os cientistas estrangeiros com quem se relaciona por correspondência.
Após viver por algum tempo nesse isolamento, o Doutor Benignus resolve empreender uma viagem pelas matas de Minas Gerais. Além da curiosidade científica, ele planeja o resgate de um cientista estrangeiro capturado por uma tribo de nativos. Em meio a dados científicos e filosóficos sobre a fauna e flora mineiras, testemunhamos um incêndio, um naufrágio, a queda de um meteorito e um resgate num balão de ar quente.
O ponto de comparação mais próximo com O Doutor Benignus são as obras de Júlio Verne, que ainda estava vivo e atuante na época em que Zaluar publicou seu livro. Mas há uma grande diferença. Verne escrevia sobre cientistas vencendo as barreiras da natureza com invenções como o submarino Nautilus do Capitão Nemo ou o Albatross de Robur. Já o Doutor Benignus é um amante da natureza que procura compreendê-la e analisá-la em vez de conquistá-la. O excesso de dados científicos pode, a princípio, soar enfadonho, mas a escrita é fluida o bastante para manter o leitor interessado até o final.
Um aviso: já nos primeiros capítulos, o próprio Doutor Benignus faz uma declaração racista asquerosa, que fez este articulista abandonar a leitura na primeira tentativa. É compreensível que isso vá espantar muitos leitores. Ainda assim, vale a pena insistir na leitura de O Doutor Benignus, um livro importantíssimo e infelizmente pouco comentado nesse gênero nacional que merece mais atenção.
