Se você é fã de um bom susto, já deve ter sentido aquela pontada de revolta ao ver a lista de indicados ao Oscar todo ano. O gênero de terror é, sem dúvida, um dos pilares do cinema. Ele lota salas, cria ícones culturais e dá um lucro absurdo para os estúdios. Mas, quando chega a hora de entregar a estatueta dourada, acaba sendo ignorado.
Por que um gênero que exige tanta técnica, maquiagem, atuação visceral e direção de arte impecável ainda é tratado como o “patinho feio” da premiação? A verdade é que, enquanto o Oscar ignora o medo, o público não para de consumir. Hoje em dia até as bets autorizadas cobrem eventos como o Oscar, permitindo que os fãs deem seus palpites sobre quem vai levar a melhor. Apostar pode levar à perda de dinheiro.
Terror e Oscar: uma relação de desprezo histórico
Não é de hoje que o terror fica na geladeira. Desde os tempos de preto e branco, Hollywood estabeleceu uma hierarquia invisível em que dramas pesados, biografias de superação e musicais coloridos ficam com a glória. Enquanto isso, o terror, o suspense e a ficção científica ficam com o que restar.
Esse desprezo histórico criou uma barreira difícil de quebrar. Para muitos votantes da velha guarda, o terror é visto apenas como entretenimento barato. Outros o veem como algo feito apenas para causar choque, ignorando as camadas sociais e psicológicas que os grandes diretores colocam nas telas.
O curioso é que o terror é o gênero que mais se arrisca. Ele experimenta novas câmeras, novos tipos de som e desafia o público a encarar seus piores pesadelos. Mesmo assim, a Academia costuma ser conservadora.
Os raros filmes de terror que venceram a Academia
Apesar desse clima de gelo, a história tem algumas exceções gloriosas. São aqueles filmes que foram tão bons, tão impactantes, que a Academia simplesmente não teve como ignorar. Geralmente, esses filmes trazem uma mistura de gêneros ou uma profundidade que engana os críticos.
O Silêncio dos Inocentes e o domínio nas principais categorias
O caso mais emblemático é, sem dúvida, O Silêncio dos Inocentes (1991). Ele não só ganhou, como levou os cinco prêmios principais. No entanto, há um detalhe: muita gente em Hollywood acredita que ele é um “thriller psicológico” e não terror. Essa é a tática clássica da indústria para premiar algo assustador sem admitir que está premiando um filme de gênero.
O Exorcista e o impacto cultural
Em 1973, O Exorcista parou o mundo. Gente passando mal no cinema, filas quilométricas e um terror religioso que mexeu com a alma da sociedade. Ele foi indicado a 10 Oscars, incluindo Melhor Filme, e foi o primeiro de terror puro a conseguir o feito. No fim, levou Roteiro Adaptado e Som. Foi um marco, mostrando que o terror podia ser tecnicamente impecável e carregar um peso dramático absurdo.
Corra! e a renovação do gênero
Mais recentemente, em 2017, Jordan Peele deu um soco na mesa com Corra!. O filme usou o terror para falar de racismo de um jeito que ninguém tinha feito antes. O resultado? Uma indicação a Melhor Filme e a vitória em Roteiro Original.
Aqui, o terror serviu como ferramenta social, e a Academia se sentiu “segura” para premiar uma obra que tinha algo importante a dizer sobre o mundo real.
Por que o terror ainda é deixado de lado?
Se esses filmes provaram que o gênero tem valor, por que a regra ainda é o esquecimento? A resposta passa por uma mistura de preconceito estrutural e pela própria mecânica da premiação.
Preconceito histórico dentro da indústria
Existe uma ideia antiga de que o terror é um gênero simples. Que basta colocar uma máscara, um som alto no susto e pronto. Isso ignora o trabalho monumental de atrizes como Toni Collette em Hereditário ou Mia Goth em Pearl, que entregaram atuações dignas de qualquer drama premiado, mas sequer foram indicadas.
Como funciona a votação da Academy of Motion Picture Arts and Sciences
O sistema de votação do Oscar também não ajuda. Milhares de profissionais da indústria votam em suas respectivas categorias, mas, para Melhor Filme, o sistema é preferencial. Isso significa que filmes que são consenso e fáceis de gostar costumam se sair melhor do que filmes divisivos. Já o terror, por natureza, divide opiniões.

