Vlad Tepes Drácula

Vlad Tepes

“Quem na guerra observar com maior vigilância as intenções do inimigo, e mais exercitar seu exército, correrá menos perigo, e terá maior probabilidade de vitória” – Nicolau Maquiavel

Se por acaso algum de nós for pesquisar sobre os principais tiranos da história, com absoluta certeza iremos nos deparar com nomes bastante significativos para o nosso empreendimento um tanto sinistro. A nossa primeira investida nas páginas da história nos transportará através do tempo em épocas e períodos manchados de sangue. Devemos levar em conta, porém, que nem tudo que se ouviu dizer é verídico, ao passo que muitos autores exageraram ao descrever os acontecimentos.

Um exemplo deste “erro histórico” ocorreu em cima da memória do Imperador Nero, que é sempre lembrado como “tirano“, “cruel“, “incendiário de Roma” etc. Desta forma Nero é sempre visto como um imperador maldito!

Mas antes mesmo destes “títulos“, sabe-se hoje através de fontes confiáveis que Nero era um homem de cultura, admirador dos gregos e dedicado divulgador da Arte Helênica. Foi um grande estadista e além de imperador era músico, cantor, poeta, ator, escritor e homem de grandes ideais!

Quanto às barbáries ocorridas no seu reinado, de fato também ocorreram muitas, entre crimes, crucificações, piras humanas, orgias regadas a vinho, depravações sexuais etc. Mas não é sobre Nero que irei aprofundar o assunto pois o título deste artigo diz respeito a um outro personagem da história conhecido por Vlad Tepes, nascido no ano de 1431 da era cristã, filho legítimo de Vlad Dracul.

Dracul” significa “Dragão“, uma tradução um pouco complicada do romeno que pode também significar “o diabo“. A palavra em seu original é “Drac“, oriunda de uma antiga ordem ou irmandade cristã que tinha como um dos objetivos principais combater a ferro e fogo os turcos. Nota-se aqui uma minúscula contradição, uma ordem cristã que traduzida entoa “o diabo” ou “dragão“, um nobre símbolo que também é mais oriental que romano.

Nota-se também o caráter bélico-militar da ordem com objetivo de “guerra santa“, uma espécie de cruzada, pois todos os grandes governantes europeus estavam de prontidão contra os inimigos dos cristãos. Aqui, cristãos eram todos os que não fossem islamitas ou pagãos, povos com outras crenças e costumes. E a Europa toda denominava-se cristã por uma questão político-econômica bem definida na qual, como já sabemos, o povo mais humilde, os camponeses e os trabalhadores em geral, eram quem sustentavam todos os feudos europeus que usavam a religião para manipular e abusar da boa fé dos mais desfavorecidos.

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Vlad Tepes nasceu na antiga Transilvânia e a palavra “Tepes” foi uma espécie de apelido que ele ganhou mais tarde na vida adulta, que significa “empalador“, devido ao seu radicalismo sádico com seus inimigos. Vlad será então sempre associado como um príncipe tirano, cruel e muito mau. Aqui novamente é evocado somente o lado perverso de Vlad Tepes, sendo que ele foi um príncipe justo que lutou a favor de seu povo, porém seu radicalismo assusta! Poderia voltar na sua árvore genealógica e evocar nomes de figuras muito curiosas descendentes de diversas raças europeias de guerreiros e povos bárbaros.

Os antigos romanos chamavam de bárbaros a todos os povos nômades, “selvagens“, que não tinham uma cultura refinada herdada pelos gregos. Entre estas diversas tribos destacam-se os vândalos, ostrogodos, visigodos, burgúndios, anglo-saxões, hunos, árabes, mongóis, entre a diversidade de outras tribos. Os antepassados de Vlad Tepes Drácula vinham da Valáquia, uma província romena localizada mais ao sul da Europa Central, e se formos traçar no papel o confuso torvelinho de todas estas raças europeias, um nome surgirá como o próprio nome do diabo, Átila! O rei dos hunos, e uma frase deste grande líder pode ainda ser lida para podermos entender seu temperamento guerreiro, “A estrela cai, a terra treme, eu sou o martelo do mundo e a erva não cresce mais por onde o meu cavalo tiver passado!

Podemos apenas imaginar como alguns dos antepassados de Vlad Tepes Drácula agiam em seu próprio tempo onde o aço, o ferro, o fogo, o sangue e o ódio eram os ingredientes básicos da realidade medieval por estas terras tão selvagens…

O contexto histórico que culmina em Drácula é tão complexo que somente ele preencheria um novo artigo, mas tomemos um atalho para mergulharmos nos relatos de horror do século XV onde surge um Drácula real, muito diferente daquele do cinema, se bem que o Drácula cinematográfico é uma sombra do Drácula histórico devido à generalidade de um escritor irlandês chamado Bram Stoker, bastante citado nos meus artigos.

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“Gela-me o sangue quando sopra o sinistro Haraverus alta noite quando eu, mergulhado no silêncio da minha solidão cismo em seu personagem… e como um louco sinto-me no dever e obrigação de pronunciar seu nome! Inspiro-me na sombra maléfica de Drácula e vejo diante de mim todos os seus inimigos visíveis e ocultos, cismo, e meu espírito mergulha no pesadelo:
Ah! Se eu pudesse empalar meus inimigos, em estacas pontiagudas de madeira. Sepultá-los vivos em seus jazigos, para que tiritem na hora derradeira! De Vlad Drácula sou espelho fiel e contra o mundo lutarei, minha espada de ódio e fel será para eles o testamento!”

Sim! Às vezes componho versos simplificados, longe de esperar glória, escrevo para preencher o tempo…

Mas o espectro de Drácula ainda assombra-me, tento compreender o temperamento e a personalidade deste homem, mas é em vão! Ele é sinistro demais para nossa limitada compreensão e o mal tem um aspecto diverso.

Muitos relatos foram escritos a seu respeito, um deles editado por Ambrosiu Huber no ano de 1499 na cidade alemã de Nuremberg. Descreve coisas horrendas e assustadoras onde um homem, mais conhecido como Drácula, o Calamitoso, empalou um número considerável de seres humanos. O método de empalar consiste em atravessar o indivíduo com uma enorme lança pontiaguda feita na maioria das vezes com dois ou três metros de comprimento. Desta forma a empalação tornou-se uma das mortes mais cruéis, equiparada somente à crucificação. Isto é, se não exceder-se a este outro método de morte.

A crucificação também tem seu lado horrendo, e Cristo deve ter sofrido o diabo quando ficou dependurado na cruz do calvário junto a dois ladrões, pois a morte demora e o sangue escoa lentamente…

Em alguns casos a empalação produz uma morte imediata no indivíduo. Em outros, o indivíduo agoniza lentamente e o sofrimento é absoluto!

Observando uma xilogravura que já foi rara, mas hoje é muito conhecida por vários estudiosos no assunto, pois foi publicada no livro “Em busca de Drácula e outros vampiros“, dos autores Raymond T. McNally e Radu Florescu, esta sempre horrenda imagem surge como um autêntico documento de época. Tentarei descrevê-la para melhor entendermos a questão:

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Bem ao fundo, pequenas montanhas, arbustos e árvores, logo em seguida a imagem de uma fortificação militar ou castelo medieval cheio de janelas e torres como pontos de observação sobre os invasores turcos.

Tudo isso no canto direito da parte de cima do desenho, mas mesmo antes de percebermos essa paisagem, ao lado esquerdo da ilustração existe uma quantidade enorme de espetos e lanças pontiagudas que transpassam os corpos de um número razoável de indivíduos. Todos eles mortos ou agonizando, como que estupefatos pela barbaridade diabólica dos seus próprios destinos, realmente uma morte horrível!

Mais abaixo deste detalhe, uma espécie de carrasco ou servo executa uma tarefa um tanto macabra para espanto dos leigos. Ele difere vários golpes com um machado em corpos mutilados e, esquartejando-os em pedaços, joga a cabeça deles em um caldeirão a ferver em fogo brando. Braços, cabeças, mãos, pés, dorsos, estão espalhados pelo chão…

À direita desta cena está Vlad Tepes Drácula, vestido com uma roupa típica da região. Ele parece estar sentado em frente de uma mesa de madeira forrada e bem servida com pão, vinho e carne…

Parece que Drácula fazia suas refeições assistindo a estas atrocidades com os olhos de indiferença. Alimentava-se e zombava dos inimigos condenados ao martírio. Refletindo ainda nesta horrenda xilogravura do século XV aproximadamente, associo esta imagem a uma cena do filme “Scars of Dracula“, ou “O Conde Drácula“, produção da inglesa Hammer Films estrelando Christopher Lee como o Conde Drácula. Em um determinado momento do filme, o servo fiel do conde, um indivíduo barbudo e cabeludo com uma cara de louco que lembra mais um lobisomem devido às grossas pestanas acima dos olhos, esquarteja o corpo de uma jovem morta a golpes de punhal pelo próprio vampiro. Os pedaços de seu belo corpo são jogados em um recipiente e o servo faz todo o serviço assobiando com um ar de indiferença, devido a já estar acostumado à rotina dessa sinistra tarefa…

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Seria esta cena uma alusão à xilogravura?

Um outro filme que faz uma breve alusão do processo de empalação é “Drácula“, de 1979, estrelando Frank Langella como o Conde Drácula.

Bem no final do filme, no porão do navio Czarina Catherine, que seguia seu destino para a Romênia, Drácula luta com Abraham Van Helsing e Jonathan Harker e, na sua fúria sanguinária, acaba empalando Van Helsing, que agoniza vertendo em sangue pela boca. Mas este consegue içar um gancho enorme de remoção de cargas que transpassa as costas de Drácula, que em seguida é hasteado com violência para fora do navio indo agonizar dependurado no alto do mastro de frente ao seu inimigo de morte, o sol escaldante do meio dia…

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Voltemos ao Drácula da Idade Média, e mais relatos surgem ao seu respeito descrevendo-o como cruel e justo, à medida certa de um bom príncipe! Entre os relatos podemos extrair trechos sobre uma belíssima taça empalhada em ouro que fora colocada próxima de uma fonte em uma pequena praça nas proximidades de Tiagoviste. Vlad Drácula colocou-a de propósito ali para que todos pudessem beber água fresca, e por muito tempo ninguém ousou roubar a taça, tal era o temor pela justiça de Drácula. Mas certa vez, um cigano roubou a taça da fonte. Este foi então capturado e, após tortura cruenta, ele foi esquartejado e cozido em um enorme caldeirão de ferro, sendo em seguida servido de comida aos seus comparsas, obrigando-os a comer a carne cozida do ladrão cigano que havia roubado a dita taça de ouro!

“Comam-no! Pois é assim que se faz justiça no reinado de Vlad Tepes Drácula!…”

Imaginemos só esta justiça ferrenha aqui em nosso país, quantos infelizes não seriam cozidos em panelas de ferro, a começar pela choldra de políticos canalhas que compõe todo o poder público, estenderia depois empalando os patifes que compõe os partidos de esquerda, seguindo sempre o rastro de todo o indivíduo que colabora para denegrir a imagem do Brasil! Utopias…

Mas a justiça de Vlad Tepes Drácula é muito diversa disto que chamamos e conhecemos por justiça, não é simbolizada por uma mulher de olhos vendados segurando uma balança. A justiça de Drácula é a Espada de Aço Afiada!

Talvez seja por isso que ela funcionava, afinal, como escreveu Nicolau Maquiavel em uma de suas obras, “O Príncipe“, considerado o melhor livro produzido por ele, “Um príncipe deve usar da crueldade ou piedade de acordo com as circunstâncias.” E ainda adverte Maquiavel que “é muito mais vantajoso para um príncipe ser mais temido que amado, pois o amor acaba mas o temor permanece!

De fato, Drácula foi muito temido e este temor transformou sua imagem no Diabo encarnado, nenhum outro personagem da história foi tão temido. Se bem que existiram outros tipos excêntricos e cruéis, como é o caso de Gilles de Rais, nascido em 1404 e morto em 1440. Este violentou, sodomizou e matou mais de 140 criancinhas, além de abusar sexualmente de rapazotes e ninfetas, torturando-os até uma morte sangrenta.

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Vlad Tepes Drácula parece também que sentia um certo prazer sádico ao mandar executar suas vítimas, e no caso de mulheres infiéis ou arrogantes (que faziam-se de difíceis não querendo entregar-se para o prazer). Uma destas infelizes, Vlad Drácula mandou que seus órgãos sexuais fossem extirpados e depois a mesma fora esfolada viva e exposta à multidão de curiosos!

Costumava também mandar cortar os mamilos dos seios e em outros casos atravessava com um comprido espeto de ferro em brasa a vagina de alguma mulher que sendo virgem, perdera a virgindade em aventuras ocasionais. O espeto de ferro emergia pela boca da vítima!

Não há dúvidas, são relatos horripilantes que uma vez lidos, jamais esquecemos e se fôssemos pôr no papel todos os documentos medievais referentes a Vlad Tepes Drácula, teríamos em mãos um dos manuscritos mais horrendos de que se tem registro, e é por isso que o personagem “Drácula” excede em terror equiparado a qualquer outra criatura deste lúgubre universo.

Todo homem consciente da transitoriedade da vida, da fragilidade do organismo, do corpo, que sabe com profundidade o quanto a humanidade é má e traiçoeira, aquele que tem uma visão ampla de que todas as relações humanas são fundamentadas no interesse, que o sonho de um dia habitar um castelo é uma utopia, quando considera o cubículo que está confinado em sua mísera habitação insalubre, ah! Todo homem que olha para esse exército de mulheres jovens, ninfetas cheirando o frescor da juventude e se vê velho, exilado do amor, excluído dos prazeres mais seletos desta vida! Aqueles que, rodeados de inimigos, se vêem derrotados pela dialética bastarda da mesquinha realidade que é labutar, trabalhar para não morrer de fome. Todo homem que mesmo sofrendo todo tipo de injustiça social, aquela derivada do poder público, da política corrupta, aquele que mesmo sofrendo todo tipo de assalto, conserva um traço de cultura e consciência, este pelo menos uma vez na vida, deve ter-se fascinado por “Drácula“, um anti-herói maldito que vinga e promove sua própria justiça sem precisar de se sujeitar à humilhações oriundas de uma civilização degenerada, de uma forma absoluta.

Sim! Drácula é uma lembrança da mais malvada e cruel criatura que já marcou a civilização, e esta sombra vem fascinando os homens sensitivos cada vez mais, apesar de toda a mancha negra que paira sobre a memória desta criatura. O vulto espectral de Vlad Tepes Drácula renasce hoje em histórias em quadrinhos, em pinturas, gravuras, desenhos, gibis, fanzines (que é o nosso caso), livros específicos de vampirismo, literatura gótica, revistas de história, e no cinema, a invenção mais elevada da ciência!

E nos filmes produzidos, um que realmente dá no que pensar foi Nosferatu (1922)! “Nosferatu, nunca diga esta palavra, evite dizê-la pois ela é como o canto do pássaro agourento da morte…

Nosferatu, o sinônimo da peste, doença e morte em massa, um vampiro com dentes de rato, que vive confinado em um velho castelo e dorme de dia em um caixão, e à noite acorda para beber o sangue dos vivos!

Conde Graf Orlok, em Nosferatu, 1922
Conde Graf Orlok, em Nosferatu, 1922

Mas se Vlad Tepes Drácula possuía longos cabelos crespos e um bigode à moda prícipesca da época, Nosferatu é careca e sem o dito bigode. Aqui ele transcendeu como que reencarnado numa imagem de cinema de forma grotesca e agressiva conservando porém o aspecto de nobre ao habitar sempre um castelo! As imagens do filme Nosferatu tem o aspecto de um sonho mau, um pesadelo atormentado, mudo, sempre pestilento, mórbido, carregado de imagens medonhas onde o espectador é sempre mais um dos integrantes do enredo…

Nota-se que através da literatura, Drácula ganhou realmente a imortalidade e a imagem do demônio é apenas uma inspiração de horror grosseira equiparada à sombra de Drácula que foi verídica…

Mas Drácula não pode carregar sozinho esta reputação de cruel. Outros casos ocorreram de monstruosidades cometidas por outros homens, e o ilustre antropólogo italiano Paulo Mantegazza nos relata o seguinte:

– “Schaaffhausen fala de um respeitável senhor da Silésia que gostava tanto de sangue humano fresco, que sua mulher compassivamente se fazia sangrar todos os anos, para satisfazer o irresistível apetite do marido antropófago”.
– “Os caraíbas preferiam do homem cozido a nuca e o pescoço, outros as nádegas, as coxas e as pernas”.
– “Agradava muito aos habitantes das ilhas Marquesas, o sangue sugado através do crânio, e, em Nukahiva, Krusenstein encontrou devidamente furadas, todas as caveiras humanas.”
– “Na África Central, são bocados prediletos os peitos e mãos das mulheres.”
– “A carne humana tem sido comida crua e cozida, na Polinésia, os viajantes descrevem complacentemente os guerreiros cozidos no forno recheados de batatas e servidos num tabuleiro com seus ornamentos.”
– “Alguns vasos encontrados em antigos túmulos britânicos eram muito provavelmente destinados a recolher o sangue de vítimas humanas.”
– “O Rei Peppel do Rio Bonny (África), deu um jantar de gala por uma vitória em que foi feito prisioneiro o Rei Amakrée. Os comerciantes europeus foram convidados para o jantar no qual entre outras coisas, foi servido o coração ainda palpitante, de Amakrée.Comeu-o Peppel dizendo: ‘Eu trato assim os meus inimigos!'”

Enfim, não posso transcrever toda a obra de Paulo Mantegazza para não fugir do assunto sobre as crueldades de Vlad Tepes Drácula, mas é bom ilustrar um pouco através da geografia mundial que a crueldade, assassinato e antropofagia são crimes diversos em qualquer civilização!

Devo admitir então que o que faz às vezes um único nome carregar má fama ou reputação não é pela exclusividade de sua maldade, mas porque outros ocorridos desta natureza já há muito caíram no esquecimento ou foram cometidos no anonimato por outros indivíduos, em algum lugar no tempo e no espaço…

Vlad Tepes (7)

Vlad Tepes Drácula deve ser analisado não somente pelo seu lado criminoso, mas justo também, pois das ditas “vítimas” por ele mandado empalar, a maioria eram inimigos invasores turcos que também degolavam pessoas sem piedade.

Vlad, muito antes de exercer o poder absoluto, fora certa vez capturado pelos turcos othomanos e é muito provável que aprendeu com seus inimigos o uso desmesurado do terror e o profundo desprezo pela vida, quando livre jurou levantar a espada em defesa da cristandade. Mas com o passar do tempo, a antiga Roma e o mundo haviam distanciado-se do “Príncipe Cristão“.

Todas as fortificações mandadas construir por Vlad, além das já construídas por alguns de seus antepassados, eram feitas com muralhas de pedra bruta reforçadas com tapumes para repelir a artilharia dos inimigos. Desta forma, no cume dos Cárpatos erguiam-se imponentes castelos, alguns hoje em ruínas! Estes Montes Cárpatos na Romênia parecem ser uma horripilante e arrepiante parada na fronteira oriental da Europa e marcam os limites de um reino preso entre a história e o horror. Ali, naquelas paragens pitorescas envoltas de vegetações diversificadas, numa terra denominada “além dos bosques“, Transilvânia, reinou Vlad Tepes Drácula

Se pudéssemos mapear essa região também denominada “terra dos fantasmas” como um turista privilegiado, percorrendo hoje alguns pontos significativos desta mórbida odisseia, descobriríamos que o espírito atormentado que se relaciona com estas paragens, é muito mais peculiar do que julgamos, nós os amantes do macabro e do desconhecido. Pois os relatos relacionados ao vampirismo e de um mal sobrenatural é tão evidente que até o mais frio cético ou ateu sentiria gelar em sua mísera alma!
Seria porém um ótimo empreendimento conhecer de perto os castelos habitados por Drácula e pisar pelo menos uma vez na vida em Bucareste, uma das cidades fundadas por Vlad Tepes Drácula.

Acredito que uma viagem a um local exótico, uma cidade ou país desconhecido, vale por muitos livros lidos e como disse Albino Forjaz de Sampaio, “para sabermos o quanto somos insignificantes devemos viajar…“. Sim, seria uma experiência fascinante percorrer esta terra tão sinistra por onde o próprio Bram Stoker passou fazendo levantamento de informações históricas a respeito de Drácula, antes de elaborar sua obra.

Antes de terminar este escrito, não posso esquecer um outro relato de horror sobre o príncipe das trevas. Nos dias atuais, é comum em algumas cidades da Alemanha grupos de neonazistas skinheads espancar e incendiar mendigos e imigrantes turcos ou de qualquer outra etnia racial. Isso deixa as pessoas chocadas e horrorizadas. No tempo de Vlad, este, certa vez, mandou recolher e alimentar uma quantidade significativa de mendigos e miseráveis. Após saciá-los, Vlad perguntou a eles: “O que mais vocês querem que eu faça por vocês?“. Os miseráveis então responderam já saciados: “Príncipe Vlad, alivia a nosa dor e pobreza!“. Vlad então mandou a seus soldados que trancassem todas as saídas do pátio do castelo e mandou que os mesmos ateassem fogo nos mendigos e estes arderam até a morte, sob gritos desesperados e como tochas humanas debateram-se em uma cena cruel e ao mesmo tempo horripilante.

Mas se naqueles tempos as coisas já não eram tão fáceis, pior foi ficando na medida que as guerras multiplicaram as barbáries de sangue. A queda de Constantinopla, a conhecida como “Roma Oriental“, fundada no passado remoto pelo Imperador Constantino, com o objetivo de dominação na fronteira com o oriente próximo, foi marcada por violentos combates de othomanos com cristãos. Ilustrações da época nos dão uma ideia deste conflito que parece ter dado um fim no império romano no oriente e marcado também o fim da idade média no calendário cristão.

Os exércitos turcos, radicais e dispostos a tomar a cidade ou morrer, massacraram definitivamente os cristãos que resistiam por detrás das muralhas fortemente construídas em volta de Constantinopla. Este violento combate se deu em 1453 aproximadamente.

Vlad Tepes (6)

O diretor de cinema Francis Ford Coppola, ao elaborar o roteiro de seu filme Drácula de Bram Stoker, lançado em 1992 fazendo absoluto sucesso, produziu uma excelente imagem logo no início do filme, fazendo uma alusão à queda de Constantinopla. A cidade arde em chamas, fumaça negra cobre o cenário e uma enorme cruz de pedra desprende-se do topo de uma igreja, provavelmente a antiga igreja de Santa Sophia. A enorme cruz cai e se desfaz em pedaços no chão! Que cena espetacular!

A imagem ganha seu potencial embalada na excelente trilha sonora composta pelo compositor Wojcieh Kilar. Observamos então não só uma referência da queda de Constantinopla mas a vitória absoluta sobre o cristianismo e uma excelente recordação de que não é esta a religião oficial da humanidade, pois mesmo já fazendo dois mil anos de cristandade, esta doutrina não obteve vitória na parte oriental do mundo!

Vlad Tepes Drácula, para afugentar e horrorizar os invasores, mandou empalar mais de 20.000 prisioneiros turcos. Estes ficaram expostos em um vale durante mais de uma semana. Os que presenciaram estas imagens ficavam estupefatos de terror perguntando-se uns aos outros: o que se pode fazer com um homem capaz disto?

Mas não se chamava Abrahan Van Helsing o verdadeiro inimigo de Drácula, mas sim um poderosíssimo sultão da tomada de Constantinopla, o temido Mehmed II, que organizou diligências fortemente armadas com um elevado número de guerreiros para invadir a Valáquia. Em uma das investidas, Vlad fora ferido por uma lança pontiaguda ou flechas e provavelmente tenha morrido assim, existindo porém uma outra versão de que ele teria sido capturado vivo, levado como prisioneiro e fora mais tarde decapitado. Isto no ano de 1476, a mando do sultão Mehmed II.

Mas não encontrou descanso após a sua morte, e segundo relatos de documentos seus restos mortais foram sepultados em um mosteiro em uma pequena ilha em Snagov. Mas para maior espanto dos que o temiam, por uma casualidade do destino ou mãos vingadoras de Jeová, uma violenta tempestade com ventos e raios caiu nas proximidades destruindo boa parte da antiga edificação que era de madeira. E com o passar dos tempos, mudanças das mais variadas se deram no mosteiro e para completar o quadro de horror, o caixão e o corpo de Drácula desapareceram misteriosamente…

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Milhares haviam sido empalados no seu reinado de pavor e assim restava a lembrança da mais sinistra e terrível criatura que espalhou o horror na civilização.

O rei dos não mortos não está deitado em seu túmulo, talvez divague para sempre como o espectro mais atormentado de que se tem registro, sua imagem nunca será apagada da história. Ainda que seja mil vezes mais odiado, Drácula é um mito, uma lenda, uma história de horror verídica que ainda nos causa muitos calafrios, principalmente quando soa a meia-noite em ponto e assombrados lemos a inscrição do seu nome em algum artigo de livro, ou revista com referência sobre tamanho horror.

Que a sua justiça caia um dia sobre todos os nossos inimigos visíveis e ocultos…

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Marcos T R Almeida

Marcos T R Almeida

Historiador, artista alternativo, escritor e pesquisador de cinema e literatura fantastica e de horror, colecionador de filmes e livros raros desconhecidos do grande publico

Um comentário em “Vlad Tepes Drácula

  • 13/09/2015 em 00:15
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    Um texto muito interessante e informativo. Parabéns.

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