Fantasmas por toda a parte – Os Melhores Lençóis Brancos do Gênero

Fantasmas por toda a parte

Uma sala vazia. Era tudo o que eu precisava para trabalhar, atualizar o site com um texto novo e alimentar o monstro Boca do Inferno. Em qualquer outro lugar haveria a presença incômoda de um grupo de professores conversando sobre assuntos supérfluos como a virada de mesa do campeonato brasileiro e as desventuras amorosas da protagonista da novelas das oito, enchendo a boca com bolachas de água e sal de uma marca desconhecida, enquanto tentam deixar de lado qualquer vestígio de um cansativo ano letivo. Não sou antissocial, nem massageio meu ego com o despeito sobre os demais colegas, porém havia uma necessidade sobrenatural de escrever um artigo com uma lista das melhores produções fantasmagóricas do gênero. A criatura precisava ser saciada.

A distância da sala 9 para o ambiente barulhento era suficiente e animadora, mesmo com apenas um corredor separando as classes do pátio, onde há algumas semanas estava ocupado por um grande número de adolescentes, dividindo o espaço com paqueras e desagradáveis fumaças de cigarro – bom, pelo menos era o que parecia para uma vítima da renite. Aliás, era ela que sofria com odor deixado pelos estudantes e restos de fezes de lagartixas que pareciam formar uma mensagem de boas-vindas. Arrumei uma carteira que aparentasse uma melhor condição e liguei o meu notebook com o olhar sobre o Inspiron e torcendo por algumas doses de inspiração. Não seria difícil escrever sobre fantasmas com tantas histórias que ouvia nos bastidores da escola Dr.José Maria Whitaker. A mais conhecida – e o motor de partida dos meus dedos nervosos – era a da presença muitas vezes testemunhadas de “um menino que não queria ir embora.Lidineis, porta-voz maquiada do 1º G, havia me contado algo a respeito nas primeiras semanas de aula, descrevendo-o como um garoto de sobrancelhas grossas e dentes longos, embora nunca tivesse visto seu vulto por lá. Era uma típica lenda urbana, daquelas variações da famosa “loira do banheiro“. Ela disse que ele andava pelo corredor central todas as noites vazias em um andar lento e objetivo, como um inspetor transparente, sem saber a qual sala entrar. As palavras da menina da “boca grande” me remetiam ao primeiro filme da minha lista assustadora, o clássico Os Inocentes, de 1961. Era uma das minhas produções de cabeceira, enchendo meus olhos com a belíssima fotografia em preto & branco e a interpretação soberba de Deborah Kerr como a governanta que, ao cuidar de duas crianças, encontra o horror absoluto. Henry James fez um trabalho magnífico de criação, com vultos e uma atmosfera sensacional, somados à direção acertada de Jack Clayton.

A Mulher de Preto
A Mulher de Preto

Será que o “garoto da sobrancelha grossa” poderia influenciar outros meninos ou apenas queria resolver as suas pendências no mundo físico, como um tal Dr. Russel se deparou na posição número 2 da minha lista, no genial A Troca, de 1980? Imaginei que a qualquer momento eu fosse escutar o ranger de uma porta, um som de carteiras sendo arrastadas no 1ºA, ou até mesmo uma bolinha cruzando a entrada da sala. Perder a esposa e a filha talvez facilitassem para o protagonista iniciar uma investigação que apontasse para um político importante. Interrompi a redação e dei uma rápida espiada no corredor, numa mistura de ansiedade e medo pela possibilidade de aparecerem duas gêmeas ao fundo com seus vestidinhos de Alice no País das Maravilhas, com seus olhares tristes e esbugalhados me convidando para “brincar com elas para sempre“. Stephen King teve a ideia genial de mesclar assombrações com a claustrofobia, sendo ajudado pela licença poética de Stanley Kubrick em O Iluminado. Não sou Jack Torrance, nem me sinto um bobão trabalhando neste momento – até mesmo porque não teria coragem de morar numa escola, quanto mais num hotel com centenas de quartos.

Um frio intenso começava a me incomodar. Mesmo sabendo das variações de temperatura em São Paulo, era dezembro, uma semana antes do início do verão. Seria uma queda de temperatura normal ou um beliscão do calafrio? Tangina disse que a mudança de tempo em um ambiente fechado muitas vezes indica uma presença sobrenatural. Em Poltergeist, o Fenômeno, que Tobe Hooper dirigiu sob com o comando de Steven Spielberg, os fantasmas queriam a vida de Carol Anne levando-a para “o outro lado“, não apenas a alma como em Invocação do Mal. Eu morria de medo da árvore que queria roubar o menino e do palhaço com os braços longos, o que me faz indicar o quarto lugar para esse clássico de 1982. Quando pensei na falecida Heather O’Rourke, meus olhos foram atraídos para o meu tênis OLK marrom, com os cadarços soltos. E se eu precisasse fugir do menino Naldo – era esse o nome que o professor Fabrício mencionou como tendo longos dentes de coelho – e eles estivessem amarrados um ao outro como no belíssimo Não Adormeça, de Richard Lang, com Dennis Weaver? A imagem da menina gritando com as mãos sobre a janela do carro saltou na minha mente como um canguro excitado. O filme é datado – lançado também em 82 sem a mesma explosão do longa de Spielberg -, feito para a TV, mas não deixava de ser intenso e interessante, capaz de inspirar meus pesadelos.

Por um segundo, tive a impressão de estar sendo observado. Dei uma olhada pela janela com menos manchas da sala e avistei uma pequena área verde e o acesso à sala do coordenador. Não havia nenhum vulto do outro lado do lago, nem mulher de preto, nem o garoto Naldo. Na minha janela indiscreta, observei dois pequenos brilhos na mata seca e fui atropelado pela sexta posição: A Mansão Macabra. Dan Curtis tinha me dado algumas noites insones com a história da família que se muda para um casarão com a condição de ter que cuidar de uma senhora idosa completamente isolada, com seus mais de noventa anos. Se o gelar da espinha já não fosse suficiente, o longa trazia nomes de peso como Karen Black, Oliver Reed, Eileen Heckart, Lee Montgomery e a eterna Bette Davis como a tia Elizabeth. Um filme de 1976 indispensável para quem quer sentir medo e calafrios. Um ano depois, viria outro clássico do gênero, extremamente perturbador: A Sentinela dos Malditos, de Michael Winner. Também não ficava atrás nos sustos e no elenco, que contava com Chris Sarandon, Cristina Raines, John Carradine, Ava Gardner, Christopher Walken, entre outros. Faz parte do subgênero “pessoas que se mudam para um novo endereço e encontram assombrações“, com um clima sombrio e o olhar assustador de uma figura cega na janela mais alta do edifício.

Fanta-3

A batida violenta de uma porta me fez dar um salto na cadeira. Parece que o som vinha do segundo corredor, ocupado pelos terceiros anos no período noturno. Para chegar até o local seria preciso passar por um portão fechado com cadeado, subir dois lances de escada até encontrar as portas sentinelas. Minha curiosidade não era assim tão grande para me conduzir a uma aventura numa noite de sexta-feira. Quando apontei meu rosto no corredor semi-iluminado, tive a impressão de ver um vulto negro ao fundo se movimentando de um lado para outro. Não era impressão; ele começava a crescer em minha direção, e eu já podia ouvir suas passadas e respiração ofegante. Estava se aproximando rapidamente como uma bola de boliche gigante em direção ao frágil pino, o que me fez lembrar da franquia Fantasma, de Don Coscarelli, e as esferas de metal. Dei um pulo para trás, quando fui interrompido por uma voz conhecida. Era Gustavo, professor de História, querendo saber se eu participaria da noite da pizza, que aconteceria dentro de meia-hora. Acredito que ele não percebera a reação causada, ou não havia achado graça na minha palidez. Era grande e gordo, com um camiseta preta esticada até o limite, onde se via Ed num inferno criado por Iron Maiden.

Fantasma (1979)

Não foi difícil escolher a oitava posição. Uma bola negra flutuando pelo corredor me fez lembrar de outro made-for-tv, lançado em 1991: A Casa das Almas Perdidas. Uma produção simples, com fantasmas, aparições e sustos, mas que possuia um certo charme por ocupar algumas madrugadas da minha adolescência. O filme de Robert Mandel consegue pontos por se basear em fatos reais – sem forçar a barra como os filmes atuais do gênero – ao contar o drama da família Smurl num ambiente assustador. Trata-se de um longa sem exageros, com sequências que farão o público realmente acreditar naquele pesadelo urbano. Pode-se acrescentar à lista a famosa história de Amityville, lançada em DVD como Terror em Amityville. Baseado num romance de Jay Anson, traz a passagem rápida da família Lutz por uma residência, onde acontecera um terrível massacre. O terror da repetição começa a incomodá-los quando George passa a agir de modo violento, orquestrando o que pode culminar em novos assassinatos. Gerou inúmeras continuações, remakes, documentários e obras, provando o quanto o conteúdo é bastante rico.

Uma cerveja cairia bem agora. Como o ambiente escolar não permite bebidas alcoólicas, terei que me contentar com água mesmo. Pelo menos não seria de torneira como a da outra escola em que leciono. Tranquei a sala pensando na preservação do notebook e andei rapidamente pelo corredor em direção ao pátio deserto. Parecia um sussurro o som que ouvi ao abrir o portão do corredor. Continuei na minha simples missão de alcançar a cozinha, enquanto uma barata imensa corria em direção oposta. Talvez ela tenha saciado a sede antes de mim ou estaria se preparando para um encontro com meu OLK na volta. Tomei dois copos completos de água, e sai apressado do local. Ouvi a conta-gotas algumas conversas de professores, ainda sem evolução no assunto, contando experiências frustrantes em motéis. Voltei para o meu calabouço. Havia mais histórias interessantes para lembrar. Histórias como as que tornaram o filme Histórias de Fantasmas uma grande inspiração para as fogueiras.

Li recentemente o livro de Peter Straub, lançado no Brasil com o estranho título de Os Mortos-Vivos. Muitos detalhes interessantes sobre os membros da sociedade Chowder, que se encontravam constantemente para contar causos reais com fantasmas e assombrações. Se o longa de John Irvin já era curioso por contar com Fred Astaire no elenco, a obra me mergulhou num universo de medo e loucura. Quem seria a misteriosa Alma Mobley ou Eva Galli, capaz de mexer com os brios daqueles cavalheiros? A cena do rapaz com a perna presa na escada no último ato é fantástica em todos os sentidos. Ao virar o corredor, notei uma iluminação alaranjada oriunda do meu escritório de produção. A porta estava aberta. Eu teria sido traído pelo ferro curvado, usado para abrir as portas? Uma sombra passou diante da entrada, como um convidado inesperado me aguardando impacientemente. Fui a passos lentos como se pudesse surpreender uma alma errante.

História de Fantasmas (1981)

Ninguém. Devo ter me enganado com a fechadura, mas e a sombra? Possivelmente o movimento do ventilador sobre as lâmpadas e carteiras tenha criado o inimigo imaginário. É isso. Mesmo assim dei uma conferida no espaço por inteiro, olhando até mesmo por debaixo da mesa. “Você não olhou atrás da porta!” Fui em direção à entrada, tentando imaginar se naquele vão entre a parede da lousa e a porta poderia caber uma pessoa. Em forma de alavanca, fui aproximando meu braço direito como é feito nos filmes de terror – cria uma certa expectativa no público, muitas vezes saciadas pela aparição de um gato negro ou algum brincalhão. Meu coração devia estar pensando que estou numa maratona ou na academia, pois ele batia como o motor do Chevette que meus pais tinham. Há alguém atrás da porta…deixa eu espiar! “Bad to the Bones” começou a soar no meu bolso, e eu cheguei a soltar um grito rápido e seco como se tivessem pisado no meu pé.

Era o celular. Minha esposa queria saber se minha pizza poderia ser o meu prato de recepção, quando eu saísse da escola. Expliquei que comeria na escola com os demais professores; ela estranhou minha voz ofegante. “Está mesmo na escola?” “Sim, amor, só levei um susto com o telefone.” Nem sequer terminei de me despedir e fui engolido por uma escuridão completa. Desligaram as chaves de força? Aproveitei o celular na mão direita e já apertei o primeiro botão que pudesse iluminar um pouco o ambiente. Correr seria a melhor solução, mas não poderia abandonar meu note para algum fantasma da era digital a la Kairo. Lembrei do excelente horror oriental Shutter ou Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado. Queria uma câmera com flash para tirar fotos como fizeram no filme, apesar de que eu temia pelo resultado das imagens.

Espíritos (2004) (6)

Essa produção é capaz de amolecer até mesmo os que se dizem mais fortes. É a velha história da vingança de um espírito, mas a construção do medo é absoluta. E tem uma cena no final que pode até dar torcicolo no espectador. Ouvi a risada de uma criança. Deve ser Naldo, tentando me mostrar a saída desse pesadelo ou me conduzindo ao inferno. E se eu já estiver morto? Seria este o purgatório? Alguns professores costumavam dizer que me viam como um fantasma, devido a minha pele alva e o meu gosto pelo sobrenatural. Em Os Outros, produção de 2001, de Alejandro Amenábar, muitas vezes considerada cópia de Os Inocentes, a reviravolta está exatamente nessa questão: quem está vivo? Lembrei do telefonema da minha esposa e senti uma dose de alívio, um porto seguro, embora eu saiba que existem fantasmas que atacam por ele como em Phone, de 2002.

Abri o notebook para visualizar a minha condição. “Quem está aí? Gustavo? Naldo?” Confesso que me senti ridículo dizendo o segundo nome – o que eu esperava? Uma resposta que comprovasse que as tábuas ouijas não servem para nada, nem para conversar com o Capitão Howding? Aqueles sons infantis como Ecos do Além – recordei o filme em que Kevin Bacon deixou aberta uma porta e permitiu contato com o fantasma de uma garota – continuavam a me incomodar. Parecia que havia mais de um Naldo, como um batalhão de crianças mortas, uns 13 Fantasmas, me rodeando, brincando com os meus medos. Não quero comandar O Orfanato – já me cansavam os pequenos vivos, quanto mais os mortos. Essa produção espanhola é fantástica por envolver a inocência e misturá-la com o medo do desconhecido. Também possui uma cena final marcante, e poética! Tão mágica quanto aquele outro filme espanhol extremamente melancólico, com uma mensagem triste sobre as pequenas vítimas da Guerra, o tal A Espinha do Diabo. Lembra dele?

A Espinha do Diabo (2001)
O Fantasma da Guerra na Visão de Del Toro

Parem com essa brincadeira!” Quase eu pedi para que voltassem para seus lugares na carteira, mas achei que seria tão ridículo quanto os meus Gritos Mortais. “Eu ouço crianças mortas! Em todos os lugares!“. Apesar de achar essa engraçada essa citação ao Sexto Sentido, atribuo a esse filme de M.Night Shyamalan uma boa posição, devido a sua tentativa óbvia de criar um final surpresa e a sua linguagem arrastada e dramática. Não é um filme ruim, mas está longe de figurar entre os melhores do gênero. Não são várias crianças; é apenas o eco de uma, como se ela estivesse correndo de um lado para outro.

Estando Na Companhia do Medo,  comecei a me irritar. Senti saudades do silêncio. Senti saudades do terror com poucas palavras de Fácil de Enterrar, que pude conferir na Mostra Br de Cinema Internacional de São Paulo. Possui semelhanças com produções envolvendo espíritos vingativos, mas tem uma surpresa no final bem interessante. A insanidade estava me dominando naquela sala 9 – provavelmente eu estava sendo derrotado pelo garoto-fantasma. Possesso de raiva eu me lembrei de uma das personalidades da paciente da Sessão 9, outro filme indispensável para quem é fã de terror psicológico e se impressiona facilmente. Sala 9. Sessão 9. Mais uma coincidência tétrica.

Peguei o notebook e sai pelo corredor, usando-o como uma lanterna. Apenas alguns metros e já poderei ver o pátio, quem sabe até mesmo reencontrar minha amiga barata! O sussurro do menino Naldo continuava me assombrando, me acompanhando como um guarda-costa zumbi. “Volta para o seu poço, maldito!” Sim, eu disse isso em voz alta, remetendo ao terror japonês Ringu e a garota Sadako. Se o Naldo andasse de modo estranho como ela, eu iria preferir não vê-lo e continuar no escuro. Pelo menos, a garota ainda dava às vítimas sete dias…este Naldo não me permite nem sete minutos de sossego.

Ringu (1998)

Fabrício havia me dito que ele desaparecera há alguns anos. O pai era um bêbado incontrolável, que batia nele e na mãe religiosamente (ou anti-religiosamente) todos os dias! Chegou a quebrar seu maxilar com a força de sua pancada, forçando-o, na maioria das vezes, a fingir que estava dormindo ou desmaiado para escapar da violência. Ele não queria ir embora da escola; era seu ponto de fuga, o local para se libertar, voltar a ser um menino como qualquer outro. No entanto, um dia não apareceu na escola; os pais não sabiam dizer onde ele estava. Alguns diziam que ele havia sido assassinado e enterrado no quintal pelo pai; outros, que ele havia simplesmente optado por sumir, desaparecer de desgosto, virar assombração sem mesmo ter morrido.

Ao virar o corredor, para minha surpresa, o portão estava fechado. A chave tinha ficado na sala, em cima de uma das carteiras, e eu tinha que voltar para resgatá-la. Enquanto fazia o caminho, lembrei de uma garota que diziam ser irmã de Naldo. Como era o nome dela? Francesca. Sim, falavam dessa menina introvertida, com os cabelos secos e os olhos fundos. Diferente do garoto, ela apanhava e sofria abusos sexuais quase toda as noites. Diziam que depois que Naldo sumiu ela apareceu, silenciosa, sem proferir nenhuma palavra. Frequentou a escola durante duas semanas e também desapareceu. Houve um boato de que ela havia se jogado no Rio Tamanduateí, mas nunca encontraram o corpo. Medo. Não era apenas a minha sensação, mas o nome nacional da versão original de A Tale of Two Sisters.

A versão americana, O Mistério das Duas Irmãs, trouxe mudanças no conteúdo, o que é sempre válido, mas ainda prefiro o drama original. Confesso ter me surpreendido bastante com essa produção, principalmente pelo curioso final. Mesmo com as pistas, eu não imaginava como poderia ser o fim e fiquei bastante satisfeito com o resultado. A risada de Naldo cessou alguns segundos; deve ter cansado um pouco. Voltei correndo para a sala, tomando cuidado par não derrubar o computador. Cheguei à porta e já fui tateando as carteiras em busca da chave. Se eu fosse desafiado a ficar numa casa assombrada com um passado envolvendo violência e assassinato, ainda que tenha um bom valor para aguentar até o dia seguinte, eu não conseguiria. Pior seria se o anfitrião fosse Vincent Price como em A Casa dos Maus Espíritos, de 1958, ou Geoffrey Rush em seu remake de 1999 A Casa da Colina. Seria um Desafio ao Além, como aquele proposto por Dr. John Markway no clássico da década de 60, e que inspirou o digital e inferior A Casa Amaldiçoada!

A Casa dos Maus Espíritos (1958) (2)

Ainda falando em proposta insana de ficar num ambiente assombrado, acabei por me recordar de outro clássico que inspirou meu gosto pelo sobrenatural: A Casa da Noite Eterna, de 1973, quando encontrei a chave caída próxima ao lixo de metal, que ainda trazia alguns restos de lições transmitidas em 2013. Esses alunos não sabem dar valor ao que estudaram! Quando me preparei para correr em direção à porta, eis que ela se fechou bem a minha frente. Se eu tivesse sido um pouco mais ágil, estaria a caminho da liberdade! Enfiei a chave; a luz acendeu! Era hora de enfrentar meu espírito vingativo pessoal: Naldo! O ideal seria encará-lo, ouvir o que ele tem a dizer e assim evitar que ele me siga até minha casa. É possível que esse menino  seja um co-irmão de Toshio, de Ju-On? Vai imitar um gato com a boca escancarada?

Lentamente me virei. Estava lá. Não era Naldo. Meus óculos estavam sujos, mas permitiam que eu avistasse uma garotinha, com um vasto cabelo, olhos fundos. Olhos fundos! Francesca! Uma Água Negra a estava circundando, como se ela fosse uma espécie de Navio Fantasma ambulante. Lentamente veio caminhando em minha direção, não flutuava como eu poderia imaginar. Fiquei pensando se o espírito dela me possuiria como em O Enigma do Mal, filme de 1982, baseado em fatos reais. Usava um belo vestido negro como se fosse a filha da Mulher de Preto, da versão original, claro.

Chegou bem próxima de mim e colocou o dedo na boca, pedindo para eu ficar em silêncio, como o fantasma da biblioteca de Os Caça-Fantasmas, longa divertido da era “terrir“. Ela sorria inocentemente com seus longos dentes. “Como esses Fantasmas se Divertem“, pensei. Senti um hálito azedo e um arrepio crescente, espalhando-se pelo meu corpo. Com as mãos cadavéricas, ela tocou em mim. Fui bombardeado por visões assustadoras e conduzido a um vórtice evildeadiano, onde pude ver um homem de costas. Pelo jeito rude como virava uma 51, imaginei que se tratava do pai de Naldo e Francesca. Andou de um lado para outro impacientemente, depois foi a um outro ambiente. Fui atrás como uma Assombração. Entrou na sala e passou por cima de uma mulher estendida no chão – devia ser a mãe -, desmaiada. Deu mais um gole com a garrafa e depois atirou-a contra a parede, quase acertando a TV, onde se podia ver o terror A Casa do Espanto, de 1986.

A Casa do Espanto (1986)
O Horror encontrou um novo lar. Entre por seu próprio risco

Esbarrando num sofá rasgado, quase perdeu o equilíbrio, mas continuou sua caminhada pelo corredor. Entrou no primeiro quarto à direita. Num colchão encostado na parede estava um menino todo encolhido. O pai levantou o garoto pelo braço e esbravejou, entre perdigotos: “Cadê a Francesca? Não quero você!” Jogou o menino contra uma velha cadeira. Naldo já não chorava mais; não havia lágrimas. Levantou-se lentamente e foi até o guarda-roupas, quase destruído, e pegou uma peruca e um vestido preto. Começou a tirar as roupas. Revelação! Felizmente, voltei.

Não havia ninguém na sala. Eu estava sentado diante do notebook, posicionado na carteira. O silêncio apenas interrompido pelo som do ventilador. “Cara, as pizzas chegaram!!“, gritou o gordinho da camiseta preta, no fundo do corredor. Desliguei o computador, arrumei minhas coisas. Antes de sair, fui acometido por um choro leve, sutil, mas que trouxe um alívio à dor que sentia. Demorei uns cinco minutos ali, quieto, pensando no que havia testemunhado. Fui para a tal noite da pizza como um zumbi, ativado por controle remoto. Era somente a parte física que caminhava até a sala dos professores…a alma tinha ficado para trás.

Fanta-1

152. Cañitas: Presencia (2007)
151. Lenda Urbana 3: A Vingança de Mary (Urban Legends 3: Blood Mary, 2005)
150. Sadako 3D (Sadako 3D, 2012)
149. Alucinação (Soul Survivors, 2001)
148. Sete Almas (Seven Below, 2012)
147. O Grito 3 (The Grudge 3, 2009)
146. Nove Vidas (Nine Lives, 2002)
145. Fenômenos Paranormais 2 (Grave Encounters, 2012)
144. Medopontocom (FeardotCom, 2003)
143. Refém do Espírito (100 Feet, 2008)
142. Hollow (Hollow, 2011)
141. Amityville 8: A Casa Maldita (Amityville: Dollhouse, 1996)
140. Amityville 7: A Nova Geração (Amityville: A New Generation, 1993)
139. Espelhos do Medo 2 (Mirrors 2, 2010)
138. Cemitério Macabro (Grave Secrets: The Legacy of Hilltop Drive, 1992)
137. Luzes do Além (White Noise 2: The Homecoming, 2007)
136. Ecos do Além 2 (Stir of Echoes: The Homecoming, 2007)
135. Amityville 6: Questão de Hora (Amityville 1992: It’s About Time, 1992)
134. Amityville 5 (The Amityville Curse, 1989)
133. Equipe Caça Fantasma (Ghost Team One, 2013)
132. O Fantasma da Máquina (Ghost in the Machine, 1993)
131. A Casa do Espanto IV (House 4, 1992)
130. Amityville 4: A Fuga do Mal (Amityville: The Evil Escapes, 1984)
129. Silent Hill: Revelação (Silent Hill: Revelation 3D, 2012)
128. Amityville 3D (Amityville 3-D, 1983)
127. Atividade Paranormal 4 (Paranormal Activity 4, 2012)
126. Stay Alive – Jogo Mortal (Stay Alive, 2006)
125. A Profecia dos Anjos (Saint Ange, 2004)
124. Fantasma 4: O Pesadelo Continua (Phantasm IV: Oblivion, 1998)
123. Fantasma 3: O Senhor da Morte (Phantasm III: Lord of the Dead, 1994)
122. Fantasma 2 (Phantasm II, 1988)
121. A Lenda do Cavaleiro Fantasma (Legend of the Phantom Rider, 2002)
120. The Haunted House Project (Pyega, 2010)
119. Fenômenos Paranormais (Grave Encounters, 2011)
118. Na Companhia do Medo (Gothika, 2003)
117. Atividade Paranormal em Tóquio (Paranômaru akutibiti: Dai-2-shô – Tokyo Night, 2010)
116. Ghost – Do Outro Lado da Vida (Ghost, 1990)
115. A Mulher de Preto (The Woman in Black, 2012)
114. V/H/S (2012)
113. 13 Fantasmas (Thir13en Ghosts, 2001)
112. Poltergeist III (1988)
111. A Casa do Espanto 3 (The Horror Show, 1989)
110. Os Caça-Fantasmas 2 (Ghostbusters, 1989)
109. Montado na Bala (Riding the Bullet, 2004)
108. Amityville 2 – A Possessão (Amityville II: The Possession, 1982)
107. Fantasmas da Guerra (R-Point, 2004)
106. Pulse (2006)
105. A Casa do Espanto 2 (House 2, 1987)
104. Sobrenatural: Capítulo 2 (Insidious: Chapter 2, 2013)
103. Evocando Espíritos 2 (The Haunting in Connecticut 2: Ghosts of Georgia, 2013)
102. Espíritos Famintos (Thet Wait, 2007)
101. O Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007)
100. O Grito 2 (The Grudge 2, 2006)
99. Visões 2 (The Eye 10, 2005)
98. O Mistério das Duas Irmãs (The Uninvited, 2009)
97. Distúrbio (Tormented, 2009)
96. Whot Are You? (Krai Nai..Hong, 2010)
95. Negative Image (2010)
94. O Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança (Ghost Rider: Spirit of Vengeance, 2011)
93. Delírios Mortais (Nomads, 1986)
92. Saco de Ossos (Bag of Bones, 2011)
91. Vozes do Além (White Noise, 2005)
90. V/H/S 2 (2013)
89. Atividade Paranormal: Marcados pelo Mal (Paranormal Activity: The Marked Ones, 2014)
88. The Maid (2005)
87. Visões (The Eye 2, 2004)
86. Rasen (Rasen, 1998)
85. Ring Zero (Ringu 0: Bâsudei, 2000)
84. Está Sobrando um Fantasma (The Spirit is Willing, 1967)
83. Carta para a Morte (The Gravedancers, 2006)
82. Terror em Mercy Falls (Frágile, 2005)
81. Ju-On 2: O Grito (Ju-On 2, 2003)
80. Gritos Mortais (Dead Silence, 2007)
79. Ring 2 – O Chamado (Ringu 2, 1999)
78. Espelhos do Medo (Mirrors, 2008)
77. O Dom da Premonição (The Gift, 2000)
76. 13 Fantasmas (13 Ghosts, 1960)
75. Ecos do Mal (The Echo, 2008)
74. Haunted Changi (2010)
73. Horror em Amityville (The Amityville Horror, 2005)
72. Espírito Assassino (Witchboard, 1986)
71. Sobrenatural (Insidious, 2011)
70. Navio Fantasma (Ghost Ship, 2002)
69. Atividade Paranormal 2 (Paranormal Activity 2, 2010)
68. Poltergeist 2 – O Outro Lado (Poltergeist II: The Other Side, 1986)
67. Espíritos – Você Nunca está Sozinho (Faet, 2007)
66. Exte: Extensões Capilares (Ekusute, 2007)
65. Sombras do Terror (The Terror, 1963)
64. Sapatos Vermelhos (Bunhongsin, 2005)
63. The Uninvited (1944)
62. Espelho (Into the Mirror, 2003)
61. Espíritos (The Frighteners, 1996)
60. Evocando Espíritos (The Haunting in Connecticut, 2009)
59. Terror em Silent Hill (Silent Hill, 2006)
58. Assombração (Gwai wik, 2006)
57. Lake Mungo (2008)
56. Submersos (Below, 2002)
55. Atividade Paranormal 3 (Paranormal Activity 3, 2011)
54. Carnival of Souls (1962)
53. A Dama de Branco (Lady in White, 1988)
52. Invocação do Mal (The Conjuring, 2013)
51. Água Negra (Dark Water, 2005)
50. A Mulher de Preto (The Woman in Black, 2012)
49. Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007)
48. O Grito (The Grudge, 2004)
47. O Chamado (The Ring, 2004)
46. Revelação (What Lies Beneath, 2000)
45. Phobia 2 (Ha Praeng, 2009)
44. O Gato Preto (Kuroneko, 1968)
43. Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988)
42. Os Caça-Fantasmas (The Ghostbusters, 1982)
41. A Mulher de Preto (The Woman in Black, 1989)
40. Rota da Morte (Dead End, 2003)
39. O Enigma do Mal (The Entity, 1982)
38. Phone (Pon, 2002)
37. 4bia (See Prang, 2008)
36. A Casa do Espanto (House, 1986)
35. Dark Water – Água Negra (2002)
34. A Bruma Assassina (The Fog, 1980)
33. Ju-On (Ju-On: O Grito, 2002)
32. As 4 Faces do Medo (Kaidan, 1964)
31. Kairo (2001)
30. A Aparição (The Wraith, 1986)
29. Muralhas do Pavor (Tales of Terror, 1962)
28. A Casa da Noite Eterna (The Legend of Hell House, 1973)
27. Desafio ao Além (The Haunting, 1963)
26. A Casa dos Maus Espíritos (House on Haunted Hill, 1958)
25. O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999)
24. Mistério no Bosque (The Watcher in the Woods, 1980)
23. Medo (A Tale of Two Sisters, 2003)
22. Ring – O Chamado (Ringu, 1998)
21. Sessão 9 (Session 9, 2001)
20. Não Adormeça (Don´t Go to Sleep, 1982)
19. Fantasma (Phantasm, 1979)
18. O Orfanato (The Orphanage, 2007)
17. Ecos do Além (Stir of the Schoes, 1999)
16. Os Outros (The Others, 2001)
15. Espíritos – A Morte está ao seu Lado (Shutter, 2004)
14. Histórias de Fantasmas (Ghost Story, 1981)
13. Terror em Amityville (The Amityville Horror, 1979)
12. The Eye – a Herança (Gin gwai, 2002)
11. A Carruagem Fantasma (Körkarlen, 1921)
10. Na Solidão da Noite (Dead of Night, 1945)
9. A Espinha do Diabo (El espinazo del diablo, 2001)
8. A Casa das Almas Perdidas (The Haunted, 1991)
7. A Sentinela dos Malditos (The Sentinel, 1977)
6. A Mansão Macabra (Burnt Offerings, 1976)
5. Fácil de Enterrar (soft for Digging, 2001)
4. Poltergeist, o Fenômeno (Poltergeist, 1982)
3. O Iluminado (The Shinning, 1980)
2. A Troca (The Changeling, 1980)
1. Os Inocentes (The Innocents, 1961)

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

6 comentários em “Fantasmas por toda a parte – Os Melhores Lençóis Brancos do Gênero

  • 14/02/2014 em 13:03
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    Fiquei totalmente absorta no seu conto, parabéns pela bela escrita.
    Espero continuar prestigiando narrativas tão interessantes quanto essa 🙂

    Resposta
  • 13/02/2014 em 11:55
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    Ótimo conto e crítica; parabéns Marcelo pela criatividade.

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  • 04/02/2014 em 10:59
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    Crítica fantástica. Muito bom…

    Resposta
  • 02/02/2014 em 16:27
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    Putz! Grande crítica! Uma das melhores que eu já li aqui no “Boca”. Uma resenha sobre fantasmas travestida de conto sobre fantasmas!
    Eu escrevo resenhas em meu blog e esta aqui certamente vai me servir de inspiração!
    Parabéns Marcelo!

    Resposta
  • 02/02/2014 em 11:15
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    Os Outros não pode ser considerado uma cópia . Alejandro Amenábar disse muitas vezes que a inspiração para o filme foi justamente Os Inocentes.

    Resposta
  • 31/01/2014 em 22:59
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    poucos filmes de fantasmas prestam,os antigos são os mais legais.

    Resposta

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