Críticas

A Casa que Pingava Sangue (1971)

Um pequeno clássico do horror especialmente aos amantes dos terror tales, tão comuns na década de 1970 e hoje completamente esquecidos!

A Casa que Pingava Sangue (1971)

A Casa que Pingava Sangue
Original:The House That Dripped Blood
Ano:1971•País:UK
Direção:Peter Duffell
Roteiro:Robert Bloch
Produção:Max Rosenberg, Milton Subotsky
Elenco:John Bryans, John Bennett, Christopher Lee, Peter Cushing, Denholm Elliott, Jon Pertwee, Joss Ackland, Jonathan Lynn, Ingrid Pitt, Joanna Lumley

Revisitemos A Casa que Pingava Sangue (1971), já um pequeno clássico do horror e caro especialmente aos amantes dos terror tales, tão comuns na saudosa década de 1970 e hoje completamente esquecidos. Pois é um daqueles filmes divididos em episódios, com um fio condutor amarrando a trama e funcionando como uma historieta à parte. São quatro histórias curtas (em média 20 minutos cada uma) e todas são ótimas, cada uma com sua própria peculiaridade distinta, com um gosto envelhecido, agradável, talvez até com cheiro das páginas amareladas daqueles contos curtos porém rasteiros que saíam aos montes em magazines de horror e suspense como Mistério Magazine de Ellery Queen, Mistério Magazine de Alfred Hitchcock, Horas de Suspense, etc. E não é para menos, já que todo o filme é baseado em histórias do mestre do horror e suspense Robert Bloch (e também com roteiro de seu próprio punho), mais conhecido como autor do romance Psicose (1959), que Alfred Hitchcock transformou num clássico do cinema.

Bloch, aliás, escreveu e roteirizou uma série de filmes entre os anos de 1960 e 1970, todos eles para a produtora Amicus, que na época rivalizava com a Hammer Films, também inglesa, no mercado de horror. Só para dar uns exemplos desses filmes, hoje pérolas raras e amadas pelos aficionados: As Torturas do Dr. Diábolo, Asilo Sinistro, Picada Mortal.

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Quanto à Casa que Pingava Sangue, e para aqueles que ainda não viram (e que desejam ver), seria chato conhecer a fundo a trama de cada episódio, por isso irei me limitar a pinceladas rápidas, apenas para uma primeira apreciação. Tudo começa quando um inspetor da Scotland Yard sai em busca de um ator de filmes de terror desaparecido, chamado Poul Anderson, tempos depois de ter alugado a famigerada casa, então sob o controle de um tal de Sr. Stoker. Na delegacia do próprio vilarejo, um assustado oficial de polícia conta ao agente outros casos estranhos de desaparecimento e morte que ocorreram num passado não muito remoto e que tinham relação com a casa. E então nos são apresentadas as histórias.

Na primeira delas (baseada no conto Method for Murder), um escritor de livros de crime e mistério resolve se isolar na mansão, juntamente com sua esposa, para terminar um novo trabalho, e acaba sendo vítima não propriamente de suas ideias obsessivas, mas de algo ainda mais insuspeito. Ele cria um personagem psicopata chamado Dominic e acredita estar sendo vítima de sua própria criação. O conto não é, como se poderia imaginar a primeira vista, completamente previsível: há um jogo psicológico com o espectador que funciona maravilhosamente (eu, pelo menos, caí que nem patinho). Sem dúvida é aqui, justamente nessa primeira história, que vemos a influência maléfica da casa se manifestando de forma mais intensa, fazendo jus à sua fama, talvez um tanto exagerada, de mal assombrada, embora a casa não participe, em qualquer uma das histórias, de maneira direta sobre as tragédias que recaem sobre os personagens, mas apenas, e como nos diz o próprio narrador, exerce uma estranha influência sobre sua personalidade. Tendo a personalidade ideal (seja lá o que isso signifique) não há qualquer problema.

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A segunda história (Waxworks) é mais indireta ainda, já que o crime, o clímax do conto, não é relacionado à casa propriamente dita, mas a uma antiga e provavelmente não resolvida questão de adultério entre uma bela mulher já falecida (chamada apropriadamente de Salomé) e alguns homens que a amaram no passado. Acontece que o dono de um museu de cera da cidade construiu uma cópia perfeita de Salomé e a mantém exposta, até que um negociante aposentado (interpretado por ninguém menos que o grande e inigualável ator britânico Peter Cushing) a descobre perdida na semi-obscuridade do museu e fica fascinado pela sua beleza e por estranhas recordações do passado. Esse homem, não por acaso, acabara de se isolar na Casa, e daí à conclusão de que algo aterrador irá acontecer é um pulo. Esse, ao menos, levará consigo um velho amigo, que também fora no passado um joguete de Salomé e ainda se mantém preso em recordações saudosas.

Essa história não é absolutamente original, já que parte da lenda de Salomé (aquela que fora uma princesa na época do Rei Herodes, e que já foi contada e recontada, entre outros, até pelo poeta irlandês Oscar Wilde numa peça de teatro), e mescla com o tema comum às histórias de horror envolvendo um museu de cera. É possível que o conto esteja até mesmo deslocado da premissa do filme, mas acaba passando batido por ser, entre outras coisas, divertido, simpático, com bons atores e, of course, ter Peter Cushing no elenco.

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O que nos leva à terceira história (Sweets to the Sweet) – e a minha preferida. Não somente pelo fato de ter Christopher Lee no elenco, mas por ser a mais sádica, cruel e diabólica, a despeito do fato de apresentar uma linda garotinha loira como estrela principal. Lee interpreta um pai austero e anti-social, que resolve se isolar com a filha na casa de campo por achar que ela herdou, da mãe, uma tendência a práticas de bruxaria. E talvez ele tenha razão; por medo, acaba tratando a menina com rispidez, o que só faz aumentar a raiva e a vontade de vingança da garotinha. Nem mesmo a presença de uma belíssima e dedicada babá impedirá a tragédia que se desenrola aos poucos no casarão. Final previsível, mas aterrador, sinistro, resgatando a prática macabra do vodu tal como se acreditava que era praticado pelas bruxas da idade média. Uma história crua, gélida, e Lee, como sempre, muito à vontade no papel.

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A quarta história é aquela que iniciou tudo (a história do ator de filmes de terror desaparecido, o tal Poul Anderson), que havia alugado a casa durante o tempo em que iria atuar num novo filme de horror mas, por causa de uma capa de vampiro supostamente verdadeira, acaba se envolvendo numa trama vampírica macabra e insuspeita. Além do canastríssimo Jon Pertwee como o astro de cinema (como ele enfatiza com toda pompa), esse episódio traz a diva do terror inglês Ingrid Pitt, que já na década anterior vinha se destacando nos filmes de terror da produtora Hammer, mais especificamente naquele que se tornou um clássico: A Condessa Drácula (inspirado na história de Elizabeth Bathory). O conto é muito divertido e revive com bom humor e originalidade o tema do vampirismo, então já revirado do avesso nos filmes de terror britânicos. Curiosamente, essa história é a única que consegui encontrar na forma do conto original escrito por Robert Bloch: saiu numa coletânea portuguesa de histórias de vampiros chamada 12 Histórias de Vampiros – Apresentadas por Roger Vadim, mas é bastante diferente da adaptação em filme, preservando só a ideia da capa que tem poderes de transformar em vampiro quem a veste. Clima sinistro do começo ao fim, bons argumentos, boa música, atores carismáticos, a junção de todos esses elementos, e muito mais, tornam A Casa que Pingava Sangue um verdadeiro clássico. Filme que não canso de rever.

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1 Comentário

  1. Vivi nessa inesquecível década de 70 e adorava os filmes “contos de terror”, inclusive as revistas citadas. Eram baseados em boas histórias e não necessitavam de tantos efeitos e sangue, embora essa seja outra vertente, que tem admiradores, e por isso, respeito. Particularmente, prefiro o terror e o suspense filmados com um roteiro inteligente.

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